A transição energética tem sido amplamente apresentada como uma resposta inevitável à crise climática global, associada à redução de emissões, ao avanço tecnológico e à construção de um modelo mais sustentável. No entanto, quando analisada à luz da conjuntura geopolítica contemporânea, essa transição revela-se muito mais complexa e contraditória. Longe de ser um processo puramente técnico ou ambiental, ela se insere em uma disputa profunda por poder, recursos estratégicos e controle econômico em escala global.
O cenário internacional recente, marcado por conflitos no Oriente Médio, tensões entre grandes potências e reconfigurações nos fluxos energéticos, demonstra que a energia continua sendo um eixo estruturante da economia mundial. Ainda que as energias renováveis avancem, a dependência de hidrocarbonetos permanece significativa, representando cerca de 80% da matriz energética global. O que se observa, portanto, não é a substituição imediata de um modelo por outro, mas uma sobreposição de sistemas energéticos e, sobretudo, uma intensificação da disputa pelos recursos que sustentam tanto o modelo tradicional quanto o emergente.
Se historicamente o petróleo e o gás natural fóssil foram os principais vetores dessa disputa, hoje novos elementos entram em cena. Minerais como lítio, terras raras, cobre, níquel e bauxita tornam-se centrais não apenas para a chamada transição energética, mas também para o funcionamento das tecnologias digitais, da inteligência artificial, dos data centers e da indústria militar. Isso significa que a demanda por esses recursos não está limitada à agenda ambiental, mas também se articula com interesses estratégicos relacionados à segurança, à soberania tecnológica e à capacidade de projeção de poder dos Estados.
Continua a exploração intensiva
Nesse contexto, a transição energética não elimina a lógica extrativa, mas a amplia e a redefine. O que muda não é a estrutura de dependência, mas os tipos de recursos considerados estratégicos. A exploração intensiva continua sendo um elemento central, agora legitimado por um discurso que associa sustentabilidade e inovação.
A principal contradição desse processo torna-se evidente quando se observa a divisão internacional do trabalho energético. Nos países do Norte Global, a transição energética é apresentada como um caminho para a descarbonização, a inovação e a segurança energética. Já nos países do Sul Global, especialmente na América Latina e na África, ela se materializa por meio da expansão da mineração, da pressão sobre territórios e da intensificação de conflitos socioambientais.
Essa assimetria levanta uma questão fundamental para o debate sobre justiça climática e energética: quem se beneficia da transição energética e quem arca com seus custos? Se a mudança de matriz depende da exploração de recursos naturais em países periféricos, sem alteração nas relações de poder e sem distribuição equitativa dos benefícios, então essa transição energética corre o risco de reproduzir e até aprofundar, desigualdades históricas.
América Latina no centro do tabuleiro energético global
A América Latina ocupa um lugar estratégico nesse cenário por reunir uma combinação singular de recursos naturais. A região concentra grandes reservas de petróleo, como no caso da Venezuela e do Brasil, possui enorme potencial em energias renováveis e abriga importantes depósitos dos chamados minerais críticos, utilizados para a nova economia energética e digital, e essenciais para a indústria armamentista. Além disso, conta com abundância de água e território, fatores cada vez mais relevantes diante da crise climática e da disputa por recursos naturais.
Essa posição atrai o interesse de múltiplos atores globais, como Estados Unidos, China, União Europeia e, de forma crescente, Índia. Cada um desses atores adota estratégias distintas, que vão desde pressão política e econômica até investimentos diretos, acordos comerciais e controle de infraestrutura energética. No entanto, todos convergem em um ponto central: a necessidade de garantir acesso a recursos estratégicos para sustentar suas economias e suas transições energéticas.
O caso brasileiro evidencia as contradições dessa inserção no sistema energético global. O país possui uma matriz elétrica com elevada participação de fontes renováveis , grandes reservas de petróleo no pré-sal e significativa presença de minerais cobiçados por outros países . Ainda assim, enfrenta limitações importantes. O Brasil exporta petróleo bruto e importa derivados refinados, apresenta baixa industrialização das cadeias produtivas minerais e mantém forte presença de empresas estrangeiras em setores estratégicos.
Além disso, as políticas adotadas tendem a priorizar a atração de capital externo, muitas vezes com redução de exigências ambientais, fiscais e tecnológicas, além de crédito facilitado pelo poder público. Isso se reflete na expansão de setores como mineração, energias renováveis e data centers sem a devida exigência de contrapartidas estruturais, como transferência de tecnologia, geração de valor agregado ou fortalecimento da indústria nacional. O resultado é um modelo em que o país participa do sistema global, mas não controla suas próprias cadeias de valor energético e mineral.
Na Argentina, esse processo assume contornos ainda mais intensos. O governo de Javier Milei implementou reformas que flexibilizam regulações ambientais, ampliam incentivos ao capital estrangeiro e reduzem o papel do Estado na economia. A modificação recente da legislação sobre áreas de glaciares , permitindo exploração mineral em zonas sensíveis, ilustra os riscos associados a esse modelo, especialmente em relação à disponibilidade de água e à segurança hídrica.
Ao mesmo tempo, o país ocupa posição central no chamado triângulo do lítio, ao lado de Chile e Bolívia, sendo responsável por uma parcela significativa das reservas globais desse mineral. No entanto, a exploração ocorre com baixa captura de renda e limitada agregação de valor, reforçando um padrão histórico de dependência econômica. A expansão de projetos como Vaca Muerta, voltados à produção de hidrocarbonetos por meio do fraturamento hidráulico (fracking), segue a mesma lógica, priorizando exportação e inserção no mercado global.
Energia, guerra e reconfiguração global
Outro elemento que reforça a centralidade dos recursos naturais é a crescente militarização do cenário internacional. O aumento dos gastos militares, o rearmamento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a intensificação de conflitos regionais ampliam a demanda por energia e minerais. Esses recursos tornam-se fundamentais não apenas para a transição energética, mas também para a segurança nacional, a indústria armamentista e a capacidade tecnológica dos países.
Os efeitos dessa conjuntura já são sentidos na economia global, especialmente por meio do aumento dos preços da energia, da inflação e da instabilidade econômica. Na América Latina, esses impactos tendem a ser mais severos, dada a vulnerabilidade estrutural das economias da região. O encarecimento do custo de vida, especialmente de alimentos e transporte, pode gerar instabilidade social e política, como já observado em diversos países.
Diante desse cenário, torna-se evidente que a transição energética não é um processo linear nem consensual. Trata-se de um campo de disputa em que diferentes projetos de desenvolvimento estão em jogo.
Para a América Latina, o desafio não é apenas adaptar-se às mudanças globais, mas definir seu próprio caminho dentro da geopolítica da energia. Uma transição energética justa exige mais do que a substituição de fontes energéticas. Ela implica soberania sobre recursos naturais, fortalecimento das capacidades produtivas locais, proteção ambiental e participação social. Sem esses elementos, a transição corre o risco de se transformar em uma nova forma de dependência, reproduzindo padrões históricos de exploração sob uma nova roupagem.
O debate sobre a transição energética, portanto, não pode ser dissociado das dinâmicas de poder que estruturam o sistema internacional. A América Latina ocupa uma posição central nesse processo, mas sua capacidade de influenciar os rumos dessa transformação dependerá das escolhas políticas e estratégicas que forem feitas. Mais do que apenas uma questão ambiental, a transição energética é uma disputa geopolítica, econômica e tecnológica em torno do controle dos recursos naturais, da energia e das cadeias estratégicas do futuro.
Embora a transição energética seja apresentada como resposta à crise climática, ela também envolve disputas geopolíticas, econômicas e estratégicas pelo controle de recursos e tecnologias.
Saiba mais
Este texto foi baseado na aula do professor em economia política internacional Nicolás Malinovsky para o curso de formação do projeto Justiça na Transição Energética. Para compreender e se aprofundar no tema, confira também os materiais utilizados como referência neste artigo:
MALINOVSKY, Nicolás (at. al) Reservas estratégicas de petróleo aliviam o impacto da guerra no Irã, mas não muito Observatório da Política Externa Brasileira. Ano VII, nº 121, 26 de março de 2026.
MALINOVSKY, Nicolás. La energía como arma de la guerra 50 Ámbito
MALINOVSKY, Nicolás (at. al) Rotas energéticas e disputas geopolíticas no Estreito de Ormuz Publicado em 12 março de 2026.
MALINOVSKY, Nicolás. Na guerra, a vassalagem de Javier Milei. Outras Palavras. Publicado em 08 abril de 2026.
UNISINOS. As duas geopolíticas da energia. Entrevista com Helen Thompson. Publicado em 30 ago. 2023. Entrevista de El Grand Continent, reproduzida por Nueva Sociedad, julho/agosto de 2023.

