O Brasil vive um paradoxo energético. Detentor de uma das matrizes mais renováveis do planeta, o país assiste a uma disparada nas contas de luz que supera em muito a inflação oficial, ao mesmo tempo em que a segurança do sistema é colocada em xeque. O que deveria ser uma transição suave para uma economia de baixo carbono transformou-se em um cenário de “policrises”, onde questões técnicas, econômicas e sociais se retroalimentam, penalizando os mais vulneráveis.
A ideia de que o Brasil possui energia limpa e barata é, hoje, uma falácia. Dados apresentados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) em março de 2026 revelam uma trajetória de alta persistente nas tarifas residenciais, com aumentos que chegam a ser o dobro ou o triplo do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Em estados como o Rio de Janeiro, a conta de luz subiu mais de três vezes o valor da inflação.
Essa pressão financeira gerou um fenômeno alarmante: a pobreza energética. Atualmente, cerca de 17,4 milhões de famílias brasileiras, o que equivale a mais de 40% da população, não conseguem consumir a eletricidade necessária para necessidades básicas sem subvenções ou restrições severas. A inadimplência no setor já ultrapassa os 22%, perdendo apenas para bancos e cartões de crédito. Mesmo a Tarifa Social de Energia Elétrica (benefício do governo federal que oferece descontos na conta de luz para famílias de baixa renda) é considerada insuficiente, pois o limite de gratuidade de 80 kWh não cobre sequer o uso de um ventilador em regiões de calor extremo.
O custo invisível nas contas de luz e o desafio técnico para não perder o controle
Um dos principais vilões da conta de luz não é a geração de energia em si, mas os encargos e subsídios embutidos na tarifa, os chamados “penduricalhos”. Nos últimos 15 a 20 anos, esses encargos saltaram de menos de 5% para 20% do valor total da conta. Apenas os encargos de segurança do sistema tiveram um aumento de 300%. Esses custos são para manter usinas térmicas de prontidão caso o vento ou o sol falhem para produzirem energia fotovoltaica ou eólica.
Somado a isso, há uma injustiça tributária profunda entre o mercado regulado (consumidores comuns) e o mercado livre (grandes empresas). Enquanto os grandes consumidores conseguem contratos diretos e escapam de diversos encargos, o consumidor residencial suporta sozinho o financiamento da expansão do sistema e políticas públicas. A diferença de encargos não pagos pelo mercado livre ao longo de duas décadas é estimada em R$ 400 bilhões.
Um dos pilares para uma transformação energética justa é a Geração Distribuída (GD), que permite ao consumidor, quase sempre de alta renda, produzir sua própria energia, geralmente via painéis solares. Entretanto, essa mudança inverte a lógica tradicional do sistema: a energia passa a ser injetada diretamente na “ponta” (rede de distribuição), criando uma “geração invisível” que varia conforme o clima. Além do desafio operacional de gerenciar esse fluxo descentralizado, a GD acentua a desigualdade tarifária, pois os custos de manutenção da rede acabam deslocados para os consumidores mais pobres que não possuem acesso a essa tecnologia.
A transição para fontes variáveis, como eólica e solar, trouxe um desafio operacional inédito. Ao contrário das hidrelétricas e térmicas, onde o combustível (água ou gás) pode ser estocado e controlado, o sol e o vento dependem da natureza. Isso exige que o sistema tenha sempre um “backup” pronto para entrar em ação, geralmente térmicas a combustível fóssil, o que encarece a operação e contradiz o objetivo da descarbonização.
O aumento da inserção dessas fontes intermitentes trouxe uma complexidade que eleva o risco de apagões e instabilidades sistêmicas. A dependência de recursos não controláveis gera incertezas que exigem uma gestão de rede extremamente precisa para evitar o colapso em momentos de baixa produção.
Essa fragilidade é acentuada pelo “estresse climático”, onde ondas de calor aumentam simultaneamente a demanda por energia e o desgaste dos equipamentos físicos, como transformadores, que perdem eficiência em altas temperaturas. O registro de diversos episódios de “quase-apagão” demonstra que, sem investimentos robustos para mudanças estruturais, o país permanece vulnerável a interrupções severas no suprimento. Em 2023 ocorreu um apagão que quase deixou metade do Brasil sem energia, enquanto em 2024 houve outro incidente que poderia ter dado um apagão ainda maior. Já em 2025, houve 17 dias em que quase houve eventos extremos de apagar tudo.
Nos últimos anos, temos visto a capacidade instalada crescer a taxas muito superiores à da energia realmente entregue, mostra que o Brasil precisa instalar cada vez mais usinas para obter o mesmo resultado final, devido à menor eficiência (fator de capacidade) das fontes renováveis intermitentes.
A expansão acelerada dessas fontes também tem deixado cicatrizes nos territórios. No Nordeste, grandes usinas eólicas e solares avançam sobre ecossistemas frágeis da Caatinga, muitas vezes em áreas já ameaçadas pela desertificação. Além disso, a terceirização agressiva no setor elétrico, que chega a 80%, tem resultado em um aumento de acidentes e mortes de trabalhadores, devido à falta de treinamento adequado e protocolos rígidos.
Para que a transição energética brasileira seja verdadeiramente justa, ela deve equilibrar três pilares: preço acessível, qualidade no serviço e descarbonização real. Atualmente, o modelo favorece o lucro privado e a expansão desordenada, deixando a conta (financeira e ambiental) para a população mais pobre e para os trabalhadores do setor.
A privatização de ativos estratégicos, como a Eletrobras, e a falta de coordenação entre os órgãos reguladores e planejadores agravam a percepção de que o Brasil está “perdendo o controle” de seu sistema elétrico, transformando o que deveria ser uma solução climática em um novo vetor de desigualdade social.
Saiba mais
Este texto foi baseado na aula da economista Clarice Ferraz da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretora do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do setor Energético – Ilumina) para o curso de formação do projeto Justiça na Transição Energética.
Para compreender e se aprofundar no tema, confira também estes materiais:
Agência Brasil. Deputado aciona Justiça contra alta de até 15% na conta de luz no Rio. Publicado em 12 de março de 2026.
Canal Fisenge: #12 Eletrobras, setor elétrico e transição energética – Clarice Ferraz
Canal Solar. ANEEL projeta alta de 8% na conta de luz em 2026, mais que o dobro da inflação Publicado em 17 março de 2026
Farol Brasil: Setor elétrico está se desmanchando no Brasil – Clarice Ferraz
FERRAZ, Clarice. Por que a conta de luz pesa cada vez mais no bolso da população e na popularidade do governo The Conversation, abril de 2025
FERRAZ, Clarice. Tarifa social e o colapso silencioso do setor elétrico brasileiro. Valor Econômico, maio de 2025
Fundação Coge: Clarice Ferraz comenta panorama atual do setor elétrico brasileiro
Instituto Ilumina: Três Anos de Privatização da Eletrobras, com Ikaro Chaves e Clarice Ferraz
Plataforma de Transição Justa. Pobreza energética e transição justa – sumário executivo
ROMERIO, Franco (org.) Les controverses de l’énergie: fossile, hydroélectrique, nucléaire, renouvelable. Le Savoir Suisse, 2007.
Outra Manhã: A Caatinga ameaçada pelo capitalismo “verde” – Clarice Ferraz

