Como gênero, raça e acessibilidade mudam a experiência de quem usa o transporte público no DF

19/08/2026, às 14:28 | Tempo estimado de leitura: 6 min
Oficinas realizadas pelo Inesc reúnem diferentes públicos para construir um diagnóstico interseccional da mobilidade urbana no Distrito Federal

O Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) realizou uma série de oficinas no Distrito Federal para investigar como gênero, raça, renda, deficiências, idade e território influenciam o acesso ao transporte e à cidade. As atividades, que reuniram juventudes, pessoas idosas, pessoas com deficiência e estudantes da rede pública de ensino, fazem parte do projeto Mobilidade Interseccional, Inclusiva e Sustentável (MIIS) e vão subsidiar a construção de um diagnóstico interseccional da mobilidade urbana na região.

A pergunta que orientou os encontros é simples de fazer, mas difícil de responder de forma única: quanto tempo e quais obstáculos separam uma pessoa de sua casa, trabalho, escola ou unidade de saúde? A resposta muda bastante a depender de quem se desloca e de onde parte — e é justamente essa variação que o projeto busca mapear.

O que é o projeto MIIS

Lançado em 2026 e co-financiado pela União Europeia, o MIIS articula quatro organizações da sociedade civil brasileira — Inesc, Instituto Pólis, Instituto Peregum e SOS Corpo — em torno da pesquisa, formação e incidência política sobre o direito ao transporte e à cidade. A premissa do projeto é que marcadores sociais como gênero, raça, classe, orientação sexual, deficiência, idade e território influenciam diretamente a forma como as pessoas acessam e vivenciam o espaço urbano.

De acordo com Cléo Manhas, assessora política do Inesc, as oficinas integram uma pesquisa participativa voltada a formular perguntas, hipóteses e indicadores que vão orientar a análise de dados sobre mobilidade no Distrito Federal. Segundo ela, análises semelhantes estão sendo conduzidas também em São Paulo e Recife, e o conjunto dos resultados dará origem a uma publicação com os principais achados e desafios da mobilidade urbana nesses três territórios.

Nas oficinas, os participantes foram convidados a discutir não apenas o tempo dentro de ônibus e outros transportes públicos, mas toda a experiência de deslocamento: sair de casa, caminhar pelas calçadas, chegar à parada, esperar, embarcar, fazer integrações, desembarcar e percorrer o caminho até o destino final.

Superlotação, demora e falta de acessibilidade

Os relatos coletados apontam problemas recorrentes: pouca oferta de veículos em algumas regiões, ônibus lotados, longos períodos de espera e deslocamentos que podem consumir até cinco horas do dia.

Participantes também mencionaram elevadores quebrados nos veículos, infraestrutura sem acessibilidade e despreparo de trabalhadores do setor para atender pessoas idosas ou com deficiência. Paíque Santarém, consultor do projeto responsável pela condução das oficinas, destaca que os relatos incluíram ainda impactos sobre a saúde mental — como ansiedade provocada pelas esperas e pelo medo constante de atrasos, além de claustrofobia associada à superlotação.

“As experiências demonstram que um mesmo problema pode atingir grupos de maneiras diferentes. A lotação, por exemplo, pode aumentar as barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida e ampliar a exposição de mulheres ao assédio”, explica Santarém. Foram relatadas ainda dificuldades de acesso para pessoas com obesidade e problemas com sistemas de biometria — reconhecimento facial usado na validação de passagens —, especialmente entre mulheres negras.

Novos indicadores para compreender o direito à cidade

Cléo Manhas ressalta que os resultados das oficinas são qualitativos e exploratórios: não representam estatisticamente toda a população do Distrito Federal. Ainda assim, ajudam a revelar questões que dificilmente aparecem quando a mobilidade é analisada apenas por indicadores tradicionais, como frequência de ônibus ou extensão de linhas.

A próxima etapa da pesquisa vai transformar esses aprendizados em indicadores capazes de observar, entre outros aspectos:

  • a exposição ao assédio e à violência;
  • a percepção de segurança nos trajetos;
  • os impactos da superlotação;
  • a acessibilidade dos trajetos e pontos de parada;
  • as desigualdades territoriais na oferta de transporte;
  • as possibilidades de acessar trabalho, educação, saúde, cultura e lazer.

“Ao colocar as experiências das pessoas usuárias no centro da análise, o projeto busca compreender não apenas se a população consegue se deslocar. Queremos entender como, em quais condições e com quais desigualdades diferentes grupos exercem seu direito à mobilidade e à cidade”, destaca a assessora do Inesc.

Categoria: Notícia
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