Guerra no Oriente Médio reacende debate sobre a segurança energética brasileira

07/04/2026, às 13:45 (updated on 07/04/2026, às 13:48) | Tempo estimado de leitura: 7 min
Cássio Cardoso Carvalho, assessor político do Inesc, analisa como a instabilidade no Oriente Médio afeta o setor energético brasileiro. Leia no artigo.
Foto: Pexels.com

A escalada de tensões e confrontos no Oriente Médio tende a produzir efeitos que ultrapassam as fronteiras da região e alcançam diversas economias do mundo. No caso brasileiro, os impactos podem aparecer principalmente no setor energético, tanto de forma direta quanto indireta, no curto e no médio prazo. Embora o país tenha uma matriz diversificada e com forte presença de fontes renováveis, a dependência de determinados insumos e combustíveis evidencia desafios estruturais que costumam ganhar maior visibilidade em momentos de instabilidade geopolítica.

Um primeiro ponto diz respeito à segurança energética associada ao uso do gás natural liquefeito (GNL). No Brasil, esse combustível é utilizado substancialmente para a geração de energia elétrica, sobretudo no segundo semestre do ano. Nesse período, os reservatórios das hidrelétricas têm seguido uma tendência, em consequência das mudanças do clima, de registrar queda de nível em razão da menor disponibilidade hídrica no inverno, o que exige o acionamento de outras fontes para garantir o abastecimento do sistema elétrico.

Para suprir essa demanda, o país tem dependido da importação de GNL, especialmente dos Estados Unidos, que é um grande exportador deste combustível. Ainda que o conflito esteja concentrado no Oriente Médio, seus efeitos econômicos globais geram volatilidade nos preços, principalmente devido ao risco de interrupção dos fluxos que transitam pelo estreito de Ormuz. Uma alta do preço tende a elevar o custo do combustível utilizado nas termelétricas, com isso, o resultado, aqui no Brasil, pode representar o aumento das tarifas de energia elétrica e pressões adicionais sobre a inflação.

Outro aspecto importante envolve os biocombustíveis, que têm sido essenciais para tornar a matriz energética brasileira mais renovável. De fato, o país possui ampla capacidade de produção doméstica de etanol e biodiesel. O etanol é produzido principalmente a partir da cana-de-açúcar e destinado ao setor de transportes, enquanto o biodiesel deriva majoritariamente da soja e pode ser utilizado tanto em transportes quanto em geração de energia elétrica.

No entanto, a produção dessas culturas depende de insumos que o Brasil ainda importa em grande quantidade, especialmente fertilizantes. Ao mesmo tempo, há iniciativas em curso para ampliar a produção nacional de fertilizantes nitrogenados. Entre elas estão o retorno à operação da fábrica ANSA-PR, previsto para 2025; a retomada das FAFENs da Bahia e de Sergipe, prevista para 2026; a entrada em operação da UFN-III, estimada para 2028; e o projeto da UFN-Uberaba, com previsão de operação em 2031.

Esse tipo de vulnerabilidade não é novo. Em 2022, com o início da guerra no Leste Europeu, o Brasil já havia enfrentado uma escalada nos preços de fertilizantes. Isso porque o Brasil, ainda de acordo com dados de 2025, importa cerca de 25% dos consumo doméstico de fertilizantes da Rússia. Ou seja, atualmente, cerca de 37% dos fertilizantes importados pelo Brasil, são de países que estão, de alguma maneira, em guerra. A instabilidade no fornecimento e a alta de preços evidenciaram como conflitos internacionais podem comprometer cadeias produtivas essenciais para a economia brasileira, inclusive aquelas relacionadas à energia. Em um cenário de guerra prolongada ou de intensificação de sanções e restrições comerciais, o fornecimento desses insumos pode ser afetado, elevando custos e impactando a produção agrícola aqui no Brasil.

Além dessas pressões, há ainda um terceiro efeito possível, desta vez ligado ao mercado internacional de petróleo. Em contextos de conflito que envolvem grandes produtores de energia, a reorganização das rotas e das fontes de abastecimento costuma gerar novas demandas no comércio global de combustíveis fósseis.

Nesse cenário, o petróleo brasileiro pode ganhar ainda mais relevância. Entre 2022 e 2025 o Brasil ampliou significativamente (42,94%*) suas exportações de petróleo. Como parte do petróleo iraniano atende ao mercado chinês, eventuais dificuldades de exportação por parte do Irã podem levar importadores a buscar fornecedores alternativos. O Brasil, com produção crescente, tende a se tornar uma opção mais procurada. Esse movimento tende a reforçar a centralidade desse recurso na economia brasileira e no mercado energético global. 

Diante desse conjunto de fatores, a guerra no Oriente Médio reforça a necessidade de fortalecer o planejamento energético no Brasil. 

No setor elétrico, por exemplo, avançar na capacidade de armazenamento de energia proveniente de fontes renováveis, algo já no horizonte com o primeiro leilão de baterias, inclusive com a consideração de política de conteúdo local, pode reduzir a dependência de combustíveis fósseis utilizados em termelétricas, contribuindo tanto para a segurança energética quanto para a redução de emissões.

Ao mesmo tempo, é fundamental enfrentar a dependência externa de insumos estratégicos, como fertilizantes. Investimentos em produção nacional desses insumos podem reduzir vulnerabilidades e garantir maior estabilidade às cadeias produtivas que sustentam tanto a agricultura quanto a produção de biocombustíveis. 

Em um mundo marcado por tensões geopolíticas recorrentes, a segurança energética passa a ser cada vez mais uma questão estratégica. A realidade brasileira mostra que, mesmo com vantagens importantes em recursos naturais e fontes renováveis, a autonomia energética ainda depende de planejamento de longo prazo, diversificação e redução de dependências externas.

*Dados obtidos pela Camex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Categoria: Artigo
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