Organizações da sociedade civil desempenham um papel fundamental na promoção de direitos e no atendimento a populações vulnerabilizadas, especialmente em contextos em que o Estado não consegue responder plenamente às demandas sociais. No entanto, muitas dessas organizações enfrentam desafios estruturais, como dificuldades na captação de recursos, fragilidade na gestão institucional, ausência de instrumentos de transparência e limitação na mensuração de resultados.
Foi nesse contexto que nasceu o Poderosas da Amazônia, uma iniciativa do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) desenvolvida em parceria com o UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas) e a Embaixada da França no Brasil.
“O projeto teve como principal objetivo o fortalecimento de organizações e lideranças que atuam na promoção dos direitos das mulheres nos estados do Amazonas e Roraima, regiões marcadas por altos índices de violência de gênero, mortalidade materna, dificuldades de acesso à saúde, à moradia e à proteção social — especialmente entre mulheres migrantes, indígenas, negras, trans e periféricas”, explica José Moroni, do colegiado de Gestão do Inesc.
Uma resposta política às desigualdades na Amazônia
A região Norte segue sendo o principal território de acolhimento de mulheres migrantes e refugiadas venezuelanas, indígenas e não indígenas, incluindo povos Warao, E’ñepá, Kariña, além de mulheres trans e travestis. O relatório Moverse 2025 evidenciou um cenário persistente de violações de direitos, racismo, xenofobia e transfobia institucionais, sobretudo em Boa Vista (RR) e Manaus (AM).
As mulheres que participaram do projeto Poderosas da Amazônia relataram barreiras linguísticas e culturais, precariedade no acesso aos serviços públicos e múltiplas formas de violência. Diante dessa realidade, o Poderosas da Amazônia se consolida como uma ação política e coletiva, que reconhece essas mulheres como protagonistas de suas histórias e lutas, ampliando suas vozes e fortalecendo a mobilização social.
Ciclo de formação das organizações: gestão, projetos e sustentabilidade
Entre outubro de 2024 e agosto de 2025, o projeto realizou um ciclo de formação institucional com 11 organizações — seis em Boa Vista e cinco em Manaus — incluindo associações de mulheres migrantes, indígenas, negras, trabalhadoras domésticas e coletivos comunitários.
As atividades envolveram planejamento participativo, realização de diagnósticos institucionais, encontros presenciais e virtuais sobre elaboração de projetos, planejamento físico-financeiro, prestação de contas e avaliação, além de mentorias presenciais individualizadas, voltadas ao desenvolvimento de propostas para editais. O processo incluiu ainda a elaboração coletiva de uma cartilha de fortalecimento institucional, construída em parceria com o Núcleo de Mulheres de Roraima (NUMUR).
Como resultado, o ciclo contribuiu para desmistificar os processos de captação de recursos, fortalecer a segurança das participantes na escrita de projetos e ampliar a autonomia das organizações, respeitando os diferentes contextos e ritmos de cada território.
Ciclo de formação das lideranças: direitos e mobilização política
Paralelamente, o projeto realizou um ciclo de formação de lideranças, envolvendo 93 mulheres em Manaus e Boa Vista, com encontros presenciais e atividades virtuais voltadas à saúde integral, aos direitos das mulheres e à comunicação como ferramenta de mobilização.
A metodologia participativa incluiu rodas de conversa, dinâmicas corporais, facilitação visual e escuta ativa, promovendo um ambiente acolhedor e intercultural, com tradução entre português e espanhol. O cuidado com as crianças e a ajuda de custo foram fundamentais para garantir a participação das mulheres, evidenciando a importância de políticas de acessibilidade nos processos formativos.
As atividades abordaram temas como maternidade, trabalho doméstico, violência de gênero, racismo, xenofobia, transfobia institucional e acesso às políticas públicas, fortalecendo a consciência de direitos e o papel das lideranças comunitárias.
Outra conquista foi a produção de mais uma cartilha desenvolvida no âmbito do projeto, mas, desta vez, com foco nos direitos das mulheres, cujo intuito foi subsidiar a continuidade da mobilização de lideranças e multiplicadoras.
Transformações que seguem ecoando nos territórios
Mais do que números e atividades, o projeto Poderosas da Amazônia deixou como legado o fortalecimento de vínculos, a ampliação da confiança das mulheres em seus próprios saberes e a consolidação de organizações mais preparadas para seguir lutando por direitos.
Ao investir na formação, na escuta e na construção coletiva, o projeto reafirmou que a transformação social começa quando as mulheres são reconhecidas como sujeitas de direitos — e protagonistas das mudanças que desejam ver em seus territórios.
“O projeto também reafirmou a luta por trabalho digno, valorizando as trabalhadoras domésticas e lembrando que direitos conquistados são fruto de mobilização contínua. E defendeu, com firmeza, os direitos das mulheres migrantes, que muitas vezes deixam seus países não por escolha, mas por sobrevivência — enfrentando xenofobia, exclusão e silenciamento”, destaca Moroni.
