Repórter Brasil, Inesc e Grupo de Pesquisa PoEMAS lançam plataforma de dados sobre renováveis e mineração

26/03/2026, às 16:50 | Tempo estimado de leitura: 7 min
Plataforma ajuda populações a se articular diante de ameaças socioambientais e violações de direitos humanos

Foi lançado nesta quinta-feira (26) o Observatório da Transição Energética, uma plataforma digital criada para acompanhar, analisar e dar transparência aos impactos sociais, econômicos e ambientais do processo de transição energética no Brasil.

A iniciativa é fruto de parceria entre a Repórter Brasil, o PoEMAS (Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade) e o Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos), com apoio da Fundação Ford. O projeto teve a colaboração também da Rainforest Investigations Network (Pulitzer Center).

O Observatório reúne reportagens, bases de dados e conteúdos que buscam ampliar o debate público sobre a expansão de projetos ligados à transição energética — como exploração de chamados “minerais críticos” e geração de energia renovável — e seus efeitos sobre territórios, comunidades e políticas públicas. 

Na plataforma, o usuário encontrará diversas possibilidades de cruzamentos de dados, de forma acessível e intuitiva, para identificar por conta própria territórios de interesse socioambiental potencialmente impactados por estruturas associadas à transição energética. Para isso, a ferramenta cruza os dados de geolocalização de atividades econômicas, por um lado, com os de territórios protegidos, por outro. 

São listados quatro tipos de empreendimentos de energia renovável: usinas eólicas, usinas solares fotovoltaicas, linhões de transmissão de alta tensão e áreas de exploração dos minerais para eletrificação. Também são considerados quatro diferentes territórios de interesse socioambiental: terras indígenas, territórios quilombolas, unidades de conservação e assentamentos de reforma agrária.

A plataforma pretende funcionar como um espaço de monitoramento permanente, oferecendo informações qualificadas para pesquisadores, jornalistas, gestores públicos e sociedade civil interessados em compreender os desafios e riscos associados ao atual modelo de transição energética no país. 

Justiça na Transição Energética

“Mais do que um espaço de denúncia, o Observatório da Transição Energética funciona como uma ferramenta de monitoramento e prevenção, permitindo que comunidades e movimentos sociais possam se antecipar e se organizar antes que os projetos se consolidem”, explica o pesquisador Bruno Milanez, professor da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) e um dos coordenadores do projeto Justiça na Transição Energética, iniciativa do Inesc e do PoEMAS.

Em muitos casos, as empresas iniciam atividades de forma pouco transparente, omitindo os impactos potenciais das operações sobre o meio ambiente e os modos de vida locais. O Observatório surge justamente para reduzir essa assimetria de informação e poder. 

“A ferramenta organiza e cruza dados dispersos de diferentes atividades econômicas com os territórios e populações tradicionais. Permite ver os dados agrupados, que antes apareciam de forma isolada, o que ajuda a entender o tamanho da pressão sobre os territórios. Dá para ver isso no mapa”, explica o editor sênior da Repórter Brasil e um dos coordenadores do Observatório, Diego Junqueira.

Segundo a ferramenta, empreendimentos relacionados à transição energética já afetam cerca de um terço dos territórios protegidos no Brasil. Com a expansão dos projetos previstos, mais da metade das unidades de conservação e áreas ocupadas por comunidades tradicionais podem ser impactadas.

Além de servir às comunidades diretamente afetadas, a plataforma também poderá ser utilizada por organizações não governamentais, pesquisadores e jornalistas interessados em compreender os impactos cumulativos de diferentes empreendimentos e setores sobre um mesmo território, um tipo de análise que governos federais e estaduais têm historicamente se recusado a realizar.

“O acesso à informação ambiental ainda é um direito muito precário no Brasil. Entender as sobreposições da ocupação do território pode mitigar conflitos, garantindo uma representatividade mais eficiente das comunidades ali presentes. Isso também viabiliza um melhor acompanhamento do planejamento das políticas energéticas do país. Com o mapa interativo do Observatório da Transição Energética, buscamos contribuir para o aprimoramento da compreensão do uso do território brasileiro e suas contradições, bem como apontar para os caminhos de uma transição energética mais justa”, explica o assessor político do Inesc Rárisson Sampaio e um dos coordenadores do projeto Justiça na Transição Energética.

Os dados que embasam a plataforma foram compilados a partir de bases públicas, com extração e análise de informações feitas pela Repórter Brasil e o Studio Cubo, em parceria com o grupo PoEMAS. A programação é do Studio Cubo e o design, de Rodrigo Bento.

Conheça a plataforma:  http://observatorio.reporterbrasil.org.br/

 

Repórter Brasil é uma organização não governamental brasileira independente fundada em 2001 por um grupo de jornalistas, cientistas sociais e educadores com o objetivo de fomentar a reflexão e ação sobre a violação aos direitos fundamentais dos povos e trabalhadores no Brasil.

Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) uma organização não governamental, sem fins lucrativos, não partidária e com sede em Brasília. Há mais de 40 anos atuamos politicamente junto a organizações parceiras da sociedade civil e movimentos sociais para ter voz nos espaços nacionais e internacionais de discussão de políticas públicas e direitos humanos, sempre de olho no orçamento público.

Grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS) é um grupo de pesquisa e extensão multidisciplinar e interinstitucional formado por acadêmicos que se propõem a refletir sobre as múltiplas interfaces entre o setor extrativo mineral e a sociedade.

Categoria: Notícia
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