Entrevista concedida pela Professora Dra. Érica Bispo às jovens e adolescentes do projeto Malalas do Cerrado

24/03/2026, às 15:01 (updated on 24/03/2026, às 15:03) | Tempo estimado de leitura: 8 min

Érica Bispo é professora de Literatura e Língua Portuguesa o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), campus Pinheiral, desde 2015, onde atua nos cursos técnicos integrados ao Ensino Médio e nos cursos de Pós-graduação Lato Sensu de Educação em Direitos Humanos e Ensino de História e Culturas Africanas e Afro-brasileiras. Possui doutorado (2013) em Letras Vernáculas (Literaturas Portuguesa e Africanas), pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Realizou pós-doutorado em 2022. Suas pesquisas se concentram na Literatura Guineense, tema sobre o qual possui diversas publicações, tais como artigos em revistas acadêmicas e capítulos de livros. Na extensão, atua na Promoção da Igualdade Racial e Defesa dos Direitos Humanos. Neste espectro, integra o Grupo Interdisciplinar de Estudos de Culturas e Linguagens (IECL), junto com o qual promove debates, palestras e cursos de modo a fomentar uma cultura antirracista entre estudantes, além de instrumentalizar professores formados e em formação para atuarem como promotores de uma educação antirracista, por meio da literatura.

Malalas do Cerrado:  Sobre a Trajetória e o Caso USP:

> “Érica, seu caso na USP expôs fissuras profundas no ensino superior brasileiro. Olhando para trás, como você descreveria o impacto do racismo institucional na sua trajetória acadêmica e o que essa experiência revelou sobre as barreiras que ainda cercam os corpos negros na universidade?”

Érica Bispo: Essa pergunta me fez olhar para o passado. Eu ingressei na faculdade em 1999, me graduei em 2002, bem antes da política de cotas. Na minha foto de formatura, há apenas 6 estudantes negros! No mestrado, dos 8 estudantes ingressantes na subárea do programa, eu era a única negra. No doutorado, quando ingressei, também fui a única pessoa negra.

Ao longo da graduação, principalmente, vi colegas abandonando o curso porque não tinham como arcar com os custos de transporte. As políticas de assistência praticamente não existiam na época. Os que abandonavam, na maioria das vezes, eram negros e/ou periféricos.

Em 2010, eu me tornei revisora de textos da UFRJ. No setor em que atuei, alguns colegas de trabalho achavam tão estranho ter uma pessoa negra em cargo de nível superior que só conseguiam falar comigo sobre questões raciais, pareciam que queriam me ensinar sobre ser negra. Parecia que eu era a única pessoa negra com que eles conviviam. Hoje eu olho para tudo isso e vejo o quanto os espaços por onde círculo e os que atravessei são demarcados racialmente. Eu fui a única pessoa autodeclarada negra a realizar o concurso para a USP, será que uma pessoa branca aprovada teria sua capacidade questionada?

Malalas do Cerrado:  Conexão com o PNE (Políticas Públicas):

> “O Plano Nacional de Educação (PNE) estabelece metas para a democratização do ensino. Na sua visão, onde as políticas públicas de permanência e combate ao racismo estão falhando ao ponto de casos como o seu ainda serem uma realidade?”

Érica Bispo: Quando eu comparo com a época em que fiz graduação, mestrado e doutorado, noto muitos avanços. Hoje, há universidades que suspendem as aulas quando o restaurante universitário não pode funcionar. Quando fiz graduação, morei no alojamento estudantil. Conheci uma estudante que desmaiou de fome porque não tinha o que comer! Ainda pode melhorar em muita coisa, mas preciso reconhecer os avanços. É importante investir em moradia estudantil, em bolsas de permanência, auxílio transporte etc.

Hoje, a cara da universidade mudou, mas mudou no corpo discente. O corpo docente ainda não representa o perfil racial brasileiro. Não há ainda um corpo docente formado por 54% de pretos e pardos. E para chegar a esse percentual, as cotas não bastam.

Nós sabemos que há um atravessamento entre raça e classe. O egresso negro, em geral, precisa ajudar em casa o quanto antes, então, não pode ficar esperando sua chance em um concurso ou viajar para fazer um concurso. Pessoas que têm histórias de vida como a minha arranjam um trabalho para pôr comida na mesa. Consequentemente, publicam menos, por exemplo, ou não conseguem participar de congressos. Logo, não apresentam o currículo de quem pode se dedicar à pesquisa.

Complementando essa questão, é interessante notar que algumas bolsas ainda são exclusivas para quem não possui vínculo empregatício. Hoje, eu sou professora do IFRJ, estava com planos de realizar um novo pós- doc e não pude concorrer a uma bolsa porque trabalho. A bolsa me ajudaria a investir mais em pesquisa, participar de eventos acadêmicos, por exemplo.

Malalas do Cerrado:  Educação Antirracista na Prática:

> “No projeto Malalas do Cerrado, acreditamos na educação como ferramenta de libertação. Para você, qual o papel das alianças coletivas e de projetos de base no enfrentamento ao isolamento que o racismo institucional tenta impor aos estudantes negros?”

Érica Bispo:  Eu entendo que a sociedade organizada é a principal ferramenta para diversos tipos de enfrentamentos. São organizações como coletivos negros, centros acadêmicos, ONGs e projetos, espaços de acolhimento, empoderamento, formação e encontro com o outro. As alianças coletivas nos ajudam a enxergar que há muitos que lutaram antes de nós e que não estamos sós na nossa luta.

Malalas do Cerrado:  Mensagem para o Futuro:

> “Que recado você daria para as jovens negras que estão ingressando agora no ensino superior e que, infelizmente, ainda encontrarão essas mesmas estruturas que você enfrentou?”

Érica Bispo: Tenham coragem, ousadia, não se deixem intimidar, saibam que a universidade é para vocês. Tenham também humildade e aproveitem todas as oportunidades que a universidade oferece. A graduação é composta por mais do que aulas. Eventos, seminários, congressos, palestras, centro acadêmico, debate político, movimento estudantil, tudo isso compõe a universidade e nos forma como cidadãs.

Leve um diploma quando sair, mas também saia como uma pessoa mais completa, mais combativa e mais crítica.

Categoria: Inesc
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