O debate sobre uma eventual transição energética no Brasil tem ganhado espaço no cenário político e econômico, frequentemente associado à ideia de sustentabilidade e liderança global em energias renováveis. No entanto, uma análise mais detalhada do sistema energético brasileiro revela um quadro mais complexo e, em muitos aspectos, contraditório.
Para entender melhor essa discussão, é importante definir alguns conceitos, principalmente as ideias de fontes renováveis e não renováveis de energia:

Mas, afinal, o que consideramos como transição energética?
Muitas das definições existentes, como a apresentada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, defendem que a transição energética seria uma mudança no padrão de produção, distribuição e consumo de energia, que levaria as sociedades para longe dos combustíveis fósseis. Por sua vez, a definição adotada pela Política Nacional de Transição Energética não tem coragem de apontar para o fim dos fósseis e apenas indica que a transição energética deve “contribuir” para a neutralidade das emissões líquidas.
Essa é uma definição ampla o suficiente para permitir distintas interpretações. Um elemento crucial que muitas vezes é colocado em segundo plano é o papel do consumo. Muito do debate sobre “transição energética” foca na substituição dos combustíveis fósseis pela eletricidade gerada por energia eólica e solar.
Porém, eles omitem que para transformar a energia do sol e do vento em energia elétrica, necessitamos de minerais, que são recursos não renováveis e, em casos específicos como cobalto, lítio e níquel, as reservas conhecidas não são suficientes para manter o atual padrão de consumo energético. Portanto, uma verdadeira transição energética deve, também, prever a redução do consumo total de energia.
Produção de energia primária e a dominação das fontes não renováveis
Porém, quando analisamos o comportamento do setor energético do Brasil, vemos que ele não caminha para a diminuição do uso das fontes não renováveis, muito menos para a redução do consumo energético.
Isso ocorre porque o planejamento energético nacional parte de uma lógica de crescimento contínuo da demanda. A premissa adotada pelo governo é simplista: com o aumento da população e da economia, será necessário gerar mais energia, independentemente da fonte. Os técnicos do governo, pouco discutem, por exemplo, sobre os usos dessa energia ou de esforços efetivos para melhoria da eficiência energética. Nesse cenário, energias renováveis, como eólica e solar, entram principalmente para diversificar as fontes de energia.
Dessa forma, o que se percebe no Brasil é, na verdade, um processo de expansão, muitas vezes também chamado de adição energética. Como mostram os dados a seguir, o que há é o crescimento simultâneo da geração de energia a partir de fontes renováveis e não renováveis. Ou seja, o sistema energético brasileiro aumenta sua capacidade total sem reduzir a dependência de fontes não renováveis.
Um primeiro indicador que pode ser usado é a chamada Produção de Energia Primária. Ela mede toda a energia produzida no país, como petróleo extraído, energia eólica, hidráulica etc. De acordo com Balanço Energético de 2026 da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a produção de energia tem crescido de maneira constante.

A importância das fontes não renováveis, a partir dos anos 2000, se deu pelo aumento da extração de petróleo, especialmente do pré-sal. Em 2024, as fontes não renováveis representavam aproximadamente 60% da produção total de energia primária. Ou seja, diferente do discurso oficial de que o Brasil seria um “líder” da transição energética, os dados de produção mostram o quanto ele é dependente dos combustíveis não renováveis, particularmente dos fósseis.
Oferta interna de energia e a dependência do petróleo
Um segundo indicador usado para analisar o comportamento energético de um país é a Oferta Interna de Energia. Diferente da produção, ela mede o quanto de energia está disponível para ser consumida dentro do país. Muitas vezes ela também é chamada de “matriz energética”. Ela inclui tanto eletricidade, como os combustíveis sólidos (ex. carvão) e líquidos, como petróleo, etanol etc. A principal diferença com relação à produção primária é que para calcular a oferta interna deduzimos a energia que foi exportada e adicionamos aquela que foi importada. Além disso, também é deduzida a energia que, por razões técnicas, não é aproveitada.

Neste segundo caso, vemos que a quantidade de energia renovável disponível é muito próxima àquela produzida, que foi apresentada antes. Por outro lado, a energia oriunda de fontes não renováveis na oferta interna é bem inferior àquela produzida (em 2024, foram produzidos 235 milhões toneladas equivalente de petróleo (tep) e ofertados internamente 161 milhões tep). Essa diferença se deve principalmente à exportação de petróleo bruto.
Isso nos leva ao debate sobre a centralidade do petróleo no comércio exterior brasileiro. O petróleo bruto passou de terceiro produto mais exportado (2021), para segundo (2022 e 2023), chegando à posição de primeiro (2024 e 2025). Em 2024, o Brasil exportou 84 milhões de toneladas de petróleo, o que corresponderia a 48% do total extraído. Esses dados mostram que o discurso de risco energético que se constrói para justificar a ampliação da extração não corresponde à realidade, uma vez que quase metade do petróleo extraído é destinado ao mercado internacional.
Olhando para o comportamento do gráfico apresentado na Figura 2 para os anos recentes e as projeções futuras (linhas tracejadas), vemos que as linhas praticamente se encontram. Isso significa que as quantidades de energia renovável e não renovável disponibilizadas ao longo da próxima década vão crescer de uma forma equânime, mantendo uma proporção aproximada de 50% de cada uma. Ou seja, não há previsão neste período de tempo para substituição das fontes não renováveis por renováveis.
Geração de eletricidade e a acomodação do Brasil
Um terceiro indicador importante para se debater a expansão energética no Brasil é a geração de energia elétrica, também chamada de matriz elétrica. Para esse cálculo, em comparação à Oferta Interna de Energia, é desconsiderado, por exemplo, o uso de combustíveis líquidos no transporte, como gasolina, etanol, biodiesel etc. Nesse quesito, o Brasil realmente possui uma posição de destaque na quantidade utilizada de fontes renováveis, segundo dados históricos do Plano Decenal de Expansão Energética, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

O gráfico mostra novamente o crescimento da geração de energia, também identificada nas outras análises. Neste caso, porém, esse desempenho positivo levou o Brasil a uma posição de acomodação. Quando analisamos a previsão das diferentes fontes para os próximos 10 anos, a participação das renováveis cai de 90% para 86% e das não renováveis sobre de 10% para 14%. Ou seja, do ponto de vista da geração de eletricidade, apesar da grande participação de fontes renováveis, o Brasil planeja caminhar na direção contrária do que seria de se esperar de uma transição energética.
Dentro desse contexto, há previsão de aumento no uso de gás natural (fóssil) e até expansão da energia nuclear. Esse cenário aponta para uma contradição estrutural: enquanto o discurso oficial destaca a liderança em energia limpa, o planejamento energético não prioriza a redução efetiva do uso dos combustíveis não renováveis.
Mais energia, mais emissões
O Brasil costuma ser apresentado como referência global por ter uma matriz elétrica majoritariamente renovável, com forte presença de hidrelétricas, além de crescimento da energia eólica e solar. No entanto, quando se observa a produção primária, a oferta interna de energia e mesmo a geração de eletricidade o que vemos é que não há um esforço nem mesmo para substituição das fontes não renováveis. A consequência disso, é o aumento constante das emissões vinculadas ao setor energético, de acordo com os dados históricos da Plataforma SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa) de 2024, os dados de 2025 do EPE e o relatório das emissões de GEE do Plano Decenal de Emissão de Energia (PDE) 2034.

Essa constatação merece algumas considerações
Em primeiro lugar, a dependência do Brasil da extração e exportação de petróleo. A produção de petróleo supera toda a geração de fontes renováveis somadas, sendo um dos principais pilares da economia nacional, especialmente voltado à exportação. Isso reforça a caracterização do Brasil como um país com forte dependência de combustíveis fósseis, ainda que parte dessa produção não seja consumida internamente. Nesse sentido, cabe mencionar que as emissões do petróleo extraído no Brasil não entram nas estatísticas da Figura 4. Ou seja, por uma questão de metodologia, parte das emissões que são de nossa responsabilidade, não entram na nossa conta.
Quando olhamos para a oferta interna de energia vemos que não há uma trajetória consistente de redução das fontes não renováveis. Pelo contrário, as projeções indicam aumento constante do uso dessas fontes, cuja participação não diminui significativamente na nossa matriz energética.
Por fim, no caso da energia elétrica, vemos um aparente dilema. Por um lado, há a implantação de várias usinas eólicas e solares, porém, a participação das fontes renováveis não aumenta significativamente. Isso resulta do fato de que esse aumento das renováveis tem ocorrido em detrimento da energia hidrelétrica, e não das fontes fósseis. Isso significa que há uma diversificação da matriz renovável, mas sem impacto relevante na redução de emissões ou na dependência de combustíveis fósseis. Ou seja, o crescimento das energias renováveis não está substituindo fontes fósseis, mas sim alterando a composição interna das próprias fontes renováveis.
Portanto, vemos que, infelizmente, o discurso da transição energética no Brasil é apenas isso, discurso. E entender como, de fato, o uso das diferentes fontes de energia é fundamental para questionar a atual política e debater a construção de outro modelo energético.
Saiba mais
Este texto foi baseado na aula do engenheiro e Prof. Bruno Milanez para o curso de Formação do projeto Justiça na Transição Energética. Para compreender e se aprofundar no tema, confira também os materiais utilizados como referência neste artigo:
DOMINISH, E., Florin, N., Teske, S. (2019). Responsible minerals sourcing for renewable energy. Institute for Sustainable Futures, University of Technology Sydney.
MILANEZ, Bruno. Terra, clima e energia: a Expansão Energética Injusta no Brasil – apresentação. PoEMAS Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/390275766_Terra_clima_e_energia_a_Expansao_Energetica_Injusta_no_Brasil_-_apresentacao
Panorama 2025 da Transição Energética Justa no Brasil. Observatório do Clima. Clima e Energia. Disponível em:https://oc.eco.br/wp-content/uploads/2026/04/OC_Atualizacao-Futuro-da-Energia_FINAL_v3.pdf
UNDP (2025, Fev 3) What is the sustainable energy transition and why is it key to tackling climate change? United Nations Development Programme. Disponível em: https://climatepromise.undp.org/news-and-stories/what-sustainable-energy-transition-and-why-it-key-tackling-climate-change

