O Inesc se orgulha e renova seu compromisso com a participação ativa na construção do Ègbé – Encontro Nacional de Povos de Terreiro desde sua primeira edição. A primeira, “Ègbé: Eu e o Outro”, ocorreu em 2019.A segunda, “Ègbé: Parte de Nós”, em 2022; e a terceira edição, “Ègbé: Nós Somos”, em 2024. Neste ano de 2026, no “Ègbé: O Poder Ancestral”, estiveram presentes dois representantes do Colegiado de Gestão, eu, Cristiane Ribeiro e José Moroni. Também integrou a lista de representantes da instituição a Pastora Romi Bencke, integrante do nosso Conselho Diretor.
No artigo a seguir, a percepção de Romi Bencke expressa integralmente a posição institucional sobre a importância do debate sobre laicidade do Estado Brasileiro, cada vez mais distante da realidade, e do necessário enfrentamento ao racismo religioso, na sua dimensão política, econômica, racial e social.
Boa leitura!
Inesc no IV Égbè – O Poder Ancestral
por Pastora Romi Márcia Bencke – Conselho Diretor do Inesc
Tive a honra de participar, entre os dias 4 e 7 de junho, em Contagem (MG), da quarta edição do Égbè – Encontro Nacional das Culturas dos Povos de Matriz Africana, promovido pelo Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (CENARAB).
O tema do encontro foi “O Poder Ancestral”. Participei do evento a convite do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), na qualidade de integrante do seu Conselho Diretor.
Esta quarta edição do Égbè reuniu cerca de 500 representantes de religiões de matriz africana do Brasil, além de delegações da Argentina, do Peru, de Cuba, da Nigéria, da Guiné-Bissau, do Canadá, dos Estados Unidos e da Itália.
Além de afirmar a presença vibrante e plural das tradições de matriz africana no Brasil, este Égbè ressaltou a dimensão política da ancestralidade: não uma herança passiva, localizada em um tempo histórico distante, mas uma força que se atualiza no presente e se manifesta como energia mobilizadora na cultura, no exercício da cidadania, na educação e na transformação econômica, política e social. É pelo poder ancestral que se reafirma a tradição — enraizada na história dos antepassados e que, atualizada na contemporaneidade, move para a ação cultural em defesa da liberdade religiosa, da diversidade e da equidade.
O encontro iniciou-se com um momento místico marcante, em que mulheres, ao som do vento e do borbulhar das águas, representaram a irrupção da força ancestral entre nós, desacomodando estruturas, derrubando hierarquias e subvertendo poderes. O poder ancestral é a força feminina que gera vida, ao mesmo tempo em que confronta o que oprime existências. As mulheres, herdeiras desse poder ancestral, são hoje protagonistas nos processos de transmissão de saberes, na organização comunitária e na preservação da tradição.
Coincidentemente, o Égbè começou no mesmo dia da Marcha para Jesus de São Paulo. Para mim, como cristã, é impossível não estabelecer comparações entre os dois eventos, já que ambos têm natureza religiosa.
A primeira diferença que salta aos olhos é o cuidado do Égbè em informar às pessoas participantes a fonte dos recursos que garantiram a realização do evento — diferentemente dos megaeventos cristãos, católicos e evangélicos, que não costumam indicar suas fontes de financiamento.
A segunda observação importante diz respeito à não instrumentalização da religião pela política. Em momento algum, durante os quatro dias de evento, houve manifestação de apoio a candidaturas, seja no âmbito estadual, seja no federal. Isso não significa que o Égbè tenha sido um encontro apolítico. Sua natureza política esteve presente o tempo todo; ela se expressou, porém, na defesa e na ampliação da laicidade do Estado e da pluralidade cultural e religiosa do Brasil, bem como na afirmação dos sujeitos coletivos e do antirracismo como horizonte civilizatório.
Embora o presidente Lula tenha justificado sua ausência na Marcha para Jesus com o argumento da não instrumentalização da religião pela política, é público que seu representante na Marcha foi o advogado-geral da União, Jorge Messias, que intermediou uma ligação telefônica entre o presidente da República e o apóstolo Estevam Hernandes, principal articulador do evento. Lula foi uma ausência-presente na Marcha para Jesus. No Égbè, diferentemente, não houve saudação presidencial — nem por carta, nem por ligação telefônica.
Segundo dados do Monitor do Debate Político da USP/CEBRAP e da ONG More in Common, a Marcha para Jesus reuniu em torno de 33 mil pessoas; o Égbè, cerca de 500. A comparação que importa, porém, não é de tamanho, mas de projeto. Sabemos que os megaeventos cristãos, ao mobilizar um grande número de pessoas, aspiram a impor uma suposta hegemonia religiosa, afirmando um cristianismo cultural como identidade nacional para, com isso, ocupar estrategicamente as estruturas do Estado e alterar diretrizes, normas e outros arranjos políticos que fundamentam a laicidade e garantem direitos a grupos vulnerabilizados. A suspensão da Resolução 258/2024 do Conanda pelo Senado Federal, sob a liderança da senadora Damares Alves, deve ser lida nessa chave de imposição de um cristianismo cultural anti-igualitário.
Se a Marcha para Jesus e outros megaeventos religiosos têm como horizonte utópico uma sociedade estruturada em hierarquias e homogeneidades, o Égbè apresenta como horizonte utópico a memória como afirmação e reconhecimento das diversas formas de existência, a laicidade do Estado e a igualdade alicerçada no antirracismo. Os primeiros tendem a parasitar as democracias, corroendo-as por dentro; o segundo as fortalece e amplia.
O Égbè conseguiu olhar para além dos graves problemas enfrentados diariamente pelas religiões de matriz africana e expressou solidariedade e apoio a Cuba, à Venezuela e à Palestina. O direito à autodeterminação dos povos é condição inegociável de qualquer projeto civilizatório.
É também por isso que, entre o projeto de poder dos megaeventos religiosos de base cristã e o projeto de país anunciado pelo poder ancestral do Égbè, escolho o segundo. Minha fé não precisa de hegemonia para existir. Alicerçada no poder ancestral, a democracia se anuncia em movimento: capaz de aprender com a memória dos que vieram antes e de aprimorar-se a partir das contradições e dos desafios inerentes a toda forma de organização humana. É um poder que não se impõe — convida. E é desse convite que a democracia brasileira precisa.

