Execução do orçamento para comunidades quilombolas ainda enfrenta desafios estruturais

14/04/2026, às 6:00 (updated on 14/04/2026, às 16:32) | Tempo estimado de leitura: 7 min
Relatório do Inesc 2025 aponta que a execução de recursos em ações de regularização fundiária, produção local, saneamento e combate à fome em 2025 ainda enfrenta dificuldades de execução e limitações orçamentárias dado o arcabouço fiscal
Lideranças quilombolas reunidas em uma ampla sala durante encontro. Imagem ilustra o tema quilombolas no Relatório Inesc 2025.
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Destaques da notícia

  • Execução orçamentária para comunidades quilombolas segue limitada em 2025
  • Regularização fundiária continua como principal gargalo estrutural
  • Recursos aumentaram, mas ainda são insuficientes para metas do PPA
  • Baixa transparência dificulta rastrear investimentos nas comunidades
  • Especialistas defendem mudanças estruturais e ampliação de investimentos

A execução de recursos públicos destinados às comunidades quilombolas em 2025 continua marcada por limitações orçamentárias e dificuldades operacionais. Apesar do aumento nos valores autorizados, a aplicação efetiva ainda não atende às necessidades dessas populações, segundo análise do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), no relatório “Orçamento e Direitos: balanço da execução de políticas públicas (2025)”, lançado nesta semana.

O acesso a direitos básicos, como território, produção local, saneamento e segurança alimentar, depende de políticas públicas estruturantes e de financiamento adequado. No entanto, os dados mostram que a execução financeira permanece abaixo do necessário para cumprir as metas previstas no Plano Plurianual (PPA) 2024–2027.

Regularização fundiária segue como prioridade

A regularização dos territórios quilombolas permanece como uma das principais demandas. Em 2025, houve aumento nos recursos autorizados, mas a execução financeira efetiva ainda é baixa, comprometendo o avanço das titulações.

Veja como ficou a execução orçamentária em 2025:

  • Recursos autorizados: R$ 91,16 milhões
  • Recursos empenhados: R$ 89,74 milhões
  • Execução financeira efetiva: R$ 25,62 milhões
  • Percentual executado: 28,11% do total autorizado
  • Crescimento em relação a 2024: +33,86% (R$ 68,10 milhões em 2024)
  • Comparação histórica: em 2023 foram apenas R$ 2,72 milhões, indicando recuperação recente dos recursos

“É fundamental ampliar de forma expressiva os recursos para a regularização fundiária e garantir a continuidade das titulações dos territórios quilombolas, conforme previsto na Constituição de 1988”, afirma a assessora política do Inesc, Carmela Zigoni. 

Produção local e acesso a mercados

O fortalecimento da agricultura familiar é apontado como essencial para a autonomia econômica das comunidades. Embora existam políticas voltadas à assistência técnica e comercialização, a identificação dos recursos destinados especificamente aos quilombolas ainda é limitada.

Entre as ações analisadas pelo relatório estão políticas desenvolvidas pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar voltadas à assistência técnica, comercialização da produção e etnodesenvolvimento. Essas iniciativas buscam ampliar a geração de renda nos territórios e contribuir para fortalecer a segurança alimentar e nutricional das comunidades. Conheça os números:

  • Recursos autorizados em 2025: R$ 63,63 milhões
  • Recursos autorizados em 2024: R$ 13,2 milhões
  • Crescimento no período: aumento expressivo do orçamento
  • Execução financeira: R$ 31,88 milhões
  • Percentual executado: 50,1% do total autorizado

Gestão ambiental e impactos das mudanças climáticas

No campo ambiental, o relatório também analisou a ação 21F2, voltada à gestão socioambiental dos recursos naturais em territórios de povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares.

Em 2025:

  • Recursos autorizados: R$ 8,17 milhões
  • Execução financeira: R$ 6,34 milhões (pagos + restos a pagar)

Comparação com 2024:

  • Recursos autorizados: R$ 12,18 milhões
  • Execução financeira: R$ 6,79 milhões

De acordo com o Relatório Inesc 2025, o cenário reforça a preocupação com a capacidade de resposta das políticas públicas diante dos impactos das mudanças climáticas nesses territórios.

Saneamento e segurança alimentar ainda são desafios

As políticas de saneamento básico e combate à fome também apresentam avanços pontuais, mas seguem insuficientes frente à demanda. Carmela Zigoni destaca a necessidade de maior transparência e planejamento baseado em dados oficiais, como os do IBGE.

“Além da regularização fundiária, também são necessárias políticas estruturantes como o fortalecimento da agricultura familiar, obras de saneamento básico e programas de segurança alimentar consistentes”, reforça a assessora política do Inesc.

Necessidade de mudanças estruturais nas políticas públicas

O estudo conclui que o aumento de recursos, por si só, não é suficiente. É necessário aprimorar a execução orçamentária, garantir transparência e fortalecer políticas integradas que promovam autonomia e qualidade de vida nos territórios quilombolas.

Principais recomendações:

  • Aumentar expressivamente os recursos destinados à regularização fundiária e garantir a continuidade das titulações dos territórios quilombolas, conforme previsto na Constituição Federal de 1988.
  • Ampliar os investimentos em soberania alimentar, com incentivo à agricultura familiar, incluindo produção e comercialização.
  • Garantir transparência na aplicação dos recursos de saneamento básico, com metas baseadas em dados e estudos do IBGE.
  • Criar mecanismos de rastreabilidade orçamentária para identificar com precisão os recursos destinados às comunidades quilombolas.
  • Fortalecer políticas públicas estruturantes que promovam autonomia econômica e enfrentem vulnerabilidades históricas.

 

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Categoria: InescNotícia
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