O retorno às urnas permanece marcado por desigualdades de gênero e raça. Das candidaturas registradas em 2022, 6.311 pessoas voltaram a concorrer em 2026, o equivalente a 21,8% daquele universo. Entre os retornantes, 4.456 são homens (70,6%) e 1.855 são mulheres (29,4%): aproximadamente dois homens para cada mulher. Os dados resultam do cruzamento por CPF das bases do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), realizado pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) em parceria com o Coletivo CommonData.
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A maior diferença entre os gêneros aparece na direita. Nesse campo, 22,8% dos homens que disputaram as eleições de 2022 voltaram a se candidatar em 2026, ante 16,7% das mulheres, distância de 6 pontos percentuais. No centro, as taxas são de 22,0% e 17,1%, respectivamente, com diferença de 4,9 pontos. Na esquerda, a desigualdade quase desaparece: 25,4% dos homens e 24,5% das mulheres retornaram, intervalo de 0,9 ponto.
Em todos os partidos, o recorte por raça aprofunda o contraste. A taxa de retorno dos homens brancos é de 25,9%, enquanto a das mulheres brancas fica em 19,0%, diferença de 6,9 pontos percentuais. Entre pessoas pardas, os índices são de 20,9% e 17,2%. Entre pretas, o padrão se inverte: 21,7% das mulheres retornam, ante 20,1% dos homens. Entre indígenas, as taxas são de 23,5% para mulheres e 21,2% para homens, mas a amostra reduzida de indígenas impede conclusões estatísticas mais firmes.
Homens brancos representam 39,0% dos 6.311 retornantes, ou 2.461 pessoas. Homens negros somam 31,0% (1.956); mulheres negras, 15,5% (979); e mulheres brancas, 13,4% (846). Homens e mulheres indígenas correspondem, cada grupo, a 0,4% das recandidaturas, com 26 e 23 pessoas. Entre amarelos, são 13 homens (0,2%) e sete mulheres (0,1%).
A autodeclaração racial também mudou para parte dos candidatos. Entre os 6.311 retornantes, 6.289 informaram raça ou cor nos dois pleitos. Desse conjunto, 85,1% mantiveram a declaração e 14,9%, ou 939 pessoas, a alteraram. As mudanças se concentraram principalmente nas passagens entre branca e parda e entre parda e preta. Como a informação é autodeclarada a cada eleição, o levantamento adota a raça informada em 2022 para calcular as taxas de retorno.
Infidelidade partidária
A movimentação partidária mostra que direita e esquerda preservam cerca de três quartos de seus quadros. Entre quem estava na direita em 2022, 76,3% permanece nesse campo em 2026; na esquerda, a retenção é de 76,1%. A migração da esquerda para a direita, de 16,5%, foi mais frequente que o movimento inverso, de 8,1%. A passagem da direita para o centro atingiu 15,6%, ante 8,3% da esquerda para o centro.
O centro aparece como o campo mais instável. Das 1.112 pessoas que concorreram por partidos centristas em 2022, 513, ou 46,1%, permanecem no mesmo espectro em 2026. Entre as 599 que migraram, 74,1% foram para a direita. Já homens e mulheres que deixaram legendas de direita seguiram majoritariamente para o centro, indicando deslocamento para um campo ideologicamente mais moderado.
Violência política
Para Carmela Zigoni, assessora política do Inesc, a violência política de gênero e raça pode ser um fator que explique a menor taxa de recandidaturas femininas. “Mesmo após a Lei 14.192/2021 ter criminalizado a violência política de gênero, o problema persiste: o Ministério Público Federal acompanha atualmente 300 casos. Em 2025, eram 175, dos quais apenas 11% se converteram em processos judiciais. Além disso, a ausência de um sistema unificado entre os Ministérios Públicos Estaduais pode contribuir para a subnotificação” explicou.
“Somam-se a esse cenário o subfinanciamento das campanhas e as mudanças nas regras do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e do Fundo Partidário, que também podem criar obstáculos à representatividade das mulheres”, afirma Carmela.
As candidaturas de mulheres cresceram 1,5% em 2026 na comparação com 2022, e as de pessoas negras, 0,5%, mas em ritmo inferior ao observado no pleito anterior. Em 2022, a participação feminina havia avançado 2,6% em relação a 2018; no mesmo período, as candidaturas brancas recuaram 3,9% e as negras cresceram 3,4%.
Entre os retrocessos citados está a substituição da distribuição proporcional por uma reserva fixa de 30% dos recursos do FEFC para candidaturas negras. Como pessoas negras representam cerca de metade das candidaturas, a fixação tende a reduzir, na prática, o montante destinado ao grupo. O documento também chama atenção para as sucessivas anistias concedidas a partidos que descumprem regras de financiamento voltadas a mulheres e pessoas negras.
Metodologia
O levantamento cruza por CPF as bases candidatos_20220926 e candidatos_20260817 do TSE. Considera como retornante qualquer pessoa que concorreu em 2022 e voltou a registrar candidatura em 2026, para qualquer cargo, tenha sido eleita ou não. Para raça/cor, o ano de referência é 2022, porque a informação é autodeclarada a cada eleição. Os resultados baseados em grupos pequenos devem ser lidos com cautela. Dados de 2026 correspondem à base indicada no documento, datada de 17 de agosto de 2026.
