Homem branco, do Sudeste e candidato a deputado estadual é o perfil predominante entre as 832 candidaturas que mencionam cargos, patentes ou funções militares e das forças de segurança no nome de urna nas eleições de 2026. O grupo equivale a 4% das 20.448 candidaturas registradas no país e se concentra em partidos de direita, que reúnem 76,6% desses nomes. Os dados integram um estudo da série Perfil do Poder, produzido pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) em parceria com o Common Data.
O levantamento mostra que 677 candidaturas desse universo são de homens, o equivalente a 81,4%. Na combinação entre gênero e raça, os homens brancos formam o maior grupo, com 334 registros (40,1%), seguidos por homens pardos, com 295 (35,5%). As mulheres somam 155 candidaturas (18,6%): 67 brancas, 66 pardas e 22 pretas.
“O nome de urna não é mero detalhe: ele é escolhido para apresentar a candidatura ao eleitor e pode transformar a patente ou a função na segurança pública em uma marca política. A forte presença de homens brancos e de partidos de direita revela quem consegue converter esse vínculo profissional em capital eleitoral”, afirma Carmela Zigoni, assessora política do Inesc.
Nome de urna e ocupação
Mais da metade das candidaturas mapeadas disputa uma vaga nas assembleias legislativas: são 448 postulantes a deputado estadual, ou 53,8% do total. Outros 316 concorrem à Câmara dos Deputados (38%). O restante se distribui entre os cargos de deputado distrital, governador, senador, vice-governador, suplente de senador e vice-presidente.
Sargento é a referência mais frequente nos nomes de urna, presente em 183 candidaturas (22%). Coronel aparece em 151 registros (18,1%) e delegado, em 141 (16,9%). Juntos, os três termos respondem por 57% do universo identificado.
O uso dessas referências não se restringe a quem declarou uma ocupação militar ou policial. Entre as 832 candidaturas, 565 (67,9%) também informaram ao TSE exercer atividade ligada às Forças Armadas ou à segurança. Outras 267 (32,1%) declararam profissões distintas. Nesse grupo, aparecem com maior frequência servidor público estadual, deputado, vereador e advogado. A diferença ocorre porque o nome de urna permite identificar candidaturas que mantêm a patente ou a função como elemento de apresentação mesmo quando registram outra ocupação, inclusive por aposentadoria ou exercício de mandato.
Na análise das ocupações declaradas, o estudo encontrou um universo mais amplo: 954 candidaturas, equivalentes a 4,6% do total nacional. Policiais militares são 560, ou 58,7% desse conjunto. Em seguida aparecem policiais civis (119), militares reformados (92), bombeiros militares (92), membros das Forças Armadas (82) e bombeiros civis (9). Entre essas 954 candidaturas, 565 adotaram no nome de urna uma referência à carreira.
Direita concentra candidaturas de militares
A concentração à direita é maior entre quem utiliza a função ou patente no nome de urna do que entre o conjunto das candidaturas de 2026. Enquanto partidos de direita reúnem 52,3% de todos os registros eleitorais, concentram 76,6% dos nomes associados a militares e forças de segurança. Partidos de centro respondem por 15,3% e os de esquerda, por 8,2%.
“Os dados mostram que a identidade militar e policial permanece associada sobretudo à direita e continua sendo acionada como plataforma eleitoral. Isso exige atenção porque a segurança pública não pode ser reduzida a uma credencial individual ou a discursos de força; ela deve ser debatida como política de Estado, submetida à Constituição, ao controle democrático e aos direitos humanos”, diz Zigoni.
O PL lidera em números absolutos e proporcionais: são 165 candidaturas, 19,8% do universo analisado. Isso significa que cerca de uma em cada dez candidaturas do partido usa no nome de urna uma patente ou função associada às forças de segurança. Republicanos aparece em segundo lugar, com 90 registros, seguido por Podemos, com 76. PCB, PCO, PRTB, PSTU e UP não têm candidaturas desse tipo.
O Sudeste reúne 285 candidaturas (34,3%), à frente do Nordeste, com 189 (22,7%), do Norte, com 133 (16%), do Centro-Oeste, com 132 (15,9%), e do Sul, com 92 (11,1%). São Paulo lidera em números absolutos, com 121 registros, seguido por Rio de Janeiro (69) e Minas Gerais (59). Quando se considera a proporção dentro de cada unidade da Federação, o Amazonas ocupa o primeiro lugar: 6,7% de suas candidaturas fazem menção a militares ou forças de segurança no nome de urna. Bahia e Ceará têm a menor proporção, de 2,3% cada.
Em comparação com 2022, a participação das candidaturas que usam referências militares e policiais no nome de urna caiu de 4,7% para 4% do total nacional, recuo de 0,7 ponto percentual. A presença feminina dentro desse grupo, porém, subiu de 13,9% para 18,6%. Também aumentou a proporção de candidaturas ao Senado e a vice-governador, embora deputados estaduais e federais ainda representem mais de nove em cada dez registros.
Metodologia
A pesquisa utiliza dados do repositório do TSE extraídos em 16 de agosto de 2026, às 12h30. A metodologia foi desenvolvida pelo Inesc e pelo Common Data em 2022, aplicada novamente em 2024 e mantida para a eleição de 2026. A análise dos nomes de urna partiu de 46 termos, cargos, patentes, funções e abreviações ligados às Forças Armadas e à segurança pública. Todos os registros encontrados passaram por conferência individual.
O estudo adota a categoria “militares e forças de segurança” para reunir referências às Forças Armadas, polícias civis e militares, guardas municipais, bombeiros militares e bombeiros civis. Embora bombeiros civis não integrem o sistema de segurança pública nem estejam sujeitos às mesmas regras eleitorais, foram incluídos porque a designação “bombeiro” pode funcionar como elemento de identificação política no nome de urna.
