O vento sopra com força constante sobre as dunas do litoral leste do Ceará. Para investidores do setor energético é uma promessa de energia renovável lucrativa para a expansão do sistema elétrico. Mas, no quilombo do Cumbe, comunidade localizada no município de Aracati onde fica a paradisíaca praia de Canoa Quebrada, é símbolo de luta por justiça ambiental e reconhecimento de seu território.
Ali vivem cerca de 180 famílias, reunindo entre 800 e 900 moradores, muitos deles pescadores artesanais que dependem diretamente do manguezal, das dunas e da faixa de praia para sobreviver. A comunidade, que se reconhece como quilombola e mantém vínculos históricos com o território, tornou-se um dos casos mais emblemáticos no Brasil sobre os conflitos relacionados à transição energética em territórios tradicionais.
Por que em Cumbe? Porque reúne, em um mesmo território, três agendas que hoje marcam o debate global: o discurso de urgência para produção de energia renovável, a disputa por territórios ricos em recursos naturais e as desigualdades históricas que afetam comunidades tradicionais.
Parte desta resposta está na geografia. Análises reunidas no livro Impactos socioambientais da implantação dos parques de energia eólica no Brasil, da Universidade Federal do Ceará, mostram que a combinação entre regime de ventos estáveis, incentivos públicos e abertura a investimentos transformou o Nordeste em uma das principais fronteiras da expansão eólica no país.
Diante disso, o Ceará se consolidou nas últimas décadas como um dos principais polos da produção desta fonte de energia no Brasil. O litoral desse estado possui cerca de 573 quilômetros de extensão e reúne características geográficas consideradas ideais para esse tipo de empreendimento, com grandes corredores de vento, proximidade com o mar e extensas áreas de dunas e planícies costeiras. Com o cenário global de mudanças climáticas, fontes renováveis ganharam protagonismo por não emitirem gases de efeito estufa durante a geração de eletricidade.
No Brasil, esse movimento se intensificou a partir dos anos 2000, quando políticas públicas e incentivos econômicos buscaram diversificar a matriz energética nacional. A energia dos ventos passou a ser apresentada como alternativa capaz de reduzir as emissões e a dependência brasileira das hidrelétricas em um contexto de aumento da irregularidade das chuvas. No entanto, à medida que as usinas eólicas no Brasil eram construídas também surgiram conflitos territoriais.
Muitos desses projetos frequentemente são instalados em regiões ocupadas por comunidades tradicionais, onde a terra é utilizada coletivamente para atividades como pesca artesanal, agricultura familiar e coleta de recursos naturais. É nesse ponto que se evidencia uma das faces do colonialismo energético, o qual reproduz padrões históricos de exploração territorial e expropriação dos recursos.
Colonialismo verde e (in)justiça ambiental no Cumbe
A expansão de energia renovável resultou na apropriação de recursos naturais (neste caso, vento e terra) por grandes empresas, enquanto os impactos sociais e ambientais recaíram sobre a comunidade local. Por essa perspectiva, territórios habitados por populações negras, indígenas ou comunidades pesqueiras passam a ser vistos como espaços disponíveis para exploração econômica.
Essa dinâmica pode provocar processos de desterritorialização, marcados pela perda de autonomia das comunidades sobre seus próprios espaços de vida e pela transferência de riqueza territorial para agentes externos. É fundamental analisar esse fenômeno sob a ótica do racismo ambiental, conceito que descreve situações em que populações historicamente marginalizadas são desproporcionalmente expostas aos impactos socioambientais de grandes projetos econômicos.
A implantação desses empreendimentos em áreas costeiras, próximos a territórios de comunidades tradicionais, como pescadores artesanais e quilombolas tem provocado debates sobre os limites entre expansão energética e justiça socioambiental, sobretudo no que se refere à dimensão de reconhecimento, em função da qual reivindica-se a efetividade de instrumentos de proteção, como a Convenção OIT nº. 169.
No Cumbe, a instalação de aerogeradores nas dunas ao redor da comunidade alterou a paisagem e transformou áreas antes utilizadas coletivamente. Caminhos tradicionais utilizados para chegar à praia passaram a ser controlados por cancelas e autorizações. Para pescadores artesanais, que dependem do acesso direto ao mar, essas mudanças significaram uma ruptura com práticas transmitidas ao longo de gerações.
Relatos reunidos na cartilha “Se não agora, quando? Se não nós, quem seria? Quilombolas do Cumbe na confluência dos sonhos”, do Centro Brasileiro de Justiça Climática, apontam que a instalação de dezenas de aerogeradores nas dunas afetou práticas culturais e econômicas da comunidade, ultrapassando a dimensão ambiental e territorial. Moradores relatam que o processo de implantação dos empreendimentos gerou divisões dentro da própria comunidade, com a criação de associações locais com posições divergentes sobre os projetos.
Estratégias de negociação que causam divisão entre as comunidades, incluindo promessas de emprego ou benefícios institucionais, teriam aprofundado disputas internas. Em alguns casos, conflitos passaram a ocorrer entre moradores, familiares e vizinhos, revelando como grandes projetos de infraestrutura podem transformar também as relações sociais dentro de comunidades tradicionais.
Transição energética e desigualdade de gênero no Cumbe
Além das disputas territoriais e políticas, os impactos sociais da implantação das usinas eólicas atingiram as mulheres e adolescentes. Durante a fase de construção dos empreendimentos, a chegada de trabalhadores de outras regiões alterou a dinâmica cotidiana da comunidade, conforme relatos do documentário “Filhos do vento”. Moradores relatam que bares foram abertos ao longo das estradas e que o consumo de álcool aumentou, acompanhado de conflitos e episódios de violência. Em alguns casos, surgiram circuitos de prostituição e relações envolvendo trabalhadores temporários e mulheres da comunidade.
Esse padrão é observado em regiões que recebem grandes fluxos de trabalhadores migrantes para projetos de infraestrutura. Nessas situações, a combinação entre isolamento geográfico, presença massiva de homens jovens e vulnerabilidade socioeconômica pode gerar contextos de exploração sexual e abandono paterno, de acordo com o estudo “Os homens por trás das grandes obras”, da Childhood Brasil, no país.
Quilombo do Cumbe como símbolo de resistência
Apesar das tensões e conflitos, o quilombo do Cumbe se tornou um símbolo e referência de resistência comunitária para que haja justiça na transição energética. Moradores organizaram mobilizações para denunciar os impactos dos empreendimentos e reivindicar o direito ao território. Em um dos episódios mais marcantes, a comunidade bloqueou a estrada utilizada pelos caminhões das obras, paralisando temporariamente as obras de instalação da usina.
No centro dessa discussão está uma questão fundamental: a transição energética é necessária para enfrentar a crise climática, mas a forma como ela é conduzida pode reproduzir desigualdades históricas. A expansão de energias renováveis precisa ser acompanhada por planejamento territorial, participação comunitária e mecanismos de proteção para populações tradicionais. Caso contrário, a substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis corre o risco de manter estruturas de poder e exploração herdadas de séculos de desigualdade.
Saiba mais
Para compreender como o quilombo do Cumbe se insere em um debate mais amplo sobre transição energética, justiça socioambiental e direitos territoriais de povos e comunidades tradicionais no Brasil, confira os materiais utilizados como referência neste artigo:
- “Se não agora, quando? Se não nós, quem seria? Quilombolas do Cumbe na confluência dos sonhos”
- “Filhos do vento”
- “Colonialismo energético e racismo ambiental: desafios para uma justiça climática em territórios tradicionais frente a empreendimentos eólicos”
- “Impactos socioambientais da implantação dos parques de energia eólica no Brasil”
- “Justiça Climática & Sustentabilidade: o Ministério Público Brasileiro em ação”
- “Os homens por trás das grandes obras do Brasil”

O Inesc, integrante da coordenação da Rede de Justiça Fiscal para a América Latina e o Caribe, que, por sua vez, compõe a Aliança Global pela Justiça Fiscal, participou ativamente dessa quarta rodada de negociações em Nova York, realizando intervenções no plenário e contribuindo em eventos paralelos organizados pela sociedade civil.
“Ao longo do projeto, foram realizadas 13 oficinas em cada região, organizadas em cinco eixos temáticos: raça, gênero e interseccionalidade; direitos humanos e políticas públicas; direito à cidade e à cultura; orçamento público e direitos humanos; e metodologia de pesquisa em educação popular”, explica Thallita Oliveira, assessora política do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos). De acordo com ela, as atividades buscaram articular teoria e prática, sempre partindo das vivências dos territórios e das realidades dos jovens participantes.
“O Grito das Periferias mostrou que a nossa voz tem valor. O projeto foi um espaço de formação, escuta e fortalecimento coletivo, que me ajudou a compreender meus direitos, ganhar confiança para ocupar espaços de participação política e transformar a minha história, e a do meu território, em força e resistência”, afirma Aline Lopes de Souza, moradora do Itapoã e participante do projeto.
“O Grito das Periferias aproximou a política do nosso cotidiano e mostrou que ela é uma ferramenta real de luta e transformação. Como jovem da Ceilândia, encontrei um espaço de formação política feito com escuta, afeto e responsabilidade social, que fortaleceu minha confiança, o valor da minha voz e o sentimento de pertencimento à periferia”, destaca Raquel Adla Freitas de Aguiar, participante do projeto.
“O Grito das Periferias rompe com a lógica que trata a periferia como número e coloca nossas vozes no centro. Para mim, foi um processo transformador, que ampliou minha consciência política, fortaleceu minha atuação cultural e reafirmou meu compromisso com a defesa dos direitos humanos na Cidade Estrutural. É um espaço de escuta, formação e fortalecimento coletivo, que valoriza os saberes do território e mostra que é possível ocupar espaços de decisão e lutar por políticas públicas mais justas”, afirma Ronnalty Cordeiro
Para Thallita, o projeto foi fortalecido pelas parcerias construídas nos territórios:
O projeto teve como objetivo fortalecer a capacidade de jovens para monitorar políticas públicas e incidir junto ao poder público do DF, contribuindo para o aumento da transparência fiscal e para a ampliação de recursos destinados às populações historicamente vulnerabilizadas. Mais do que lidar com dados e números, o processo colocou a juventude no centro da produção de narrativas sobre suas próprias realidades. “Mais do que dados e números, o Mapa é transformação, é voz, é luta e é a potência da juventude periférica construindo narrativas sobre suas próprias realidades”, sintetiza Markão Aborígine, educador social do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos).
Ao todo, foram realizadas 11 oficinas de formação em orçamento, direitos e políticas públicas; duas oficinas de educomunicação; seis oficinas de análise de dados e pesquisa; dois saraus político-culturais e uma audiência pública. O projeto formou 30 jovens, dos quais 15 passaram a compor um Comitê de Monitoramento do Orçamento Público, Transparência e Direitos Humanos, com ênfase nas políticas de educação, mobilidade urbana, raça e gênero do DF. “Este Comitê, apoiado pela equipe do Inesc, foi responsável pela análise dos dados que deram origem ao Mapa e definiram as ações de incidência e territoriais ao longo do projeto”, explica Cristiane Ribeiro, do colegiado de gestão do Inesc. 


O Inesc esteve presente em todo o processo de construção da 2ª Marcha das Mulheres Negras, contribuindo politicamente e institucionalmente para sua realização.

O encerramento foi marcado pela entrega ao presidente da COP 30 da