Para especialistas e movimentos sociais, Congresso não tem legitimidade para fazer reforma política

A crise política brasileira parece não ter fim e as alternativas propostas no Congresso pelos mesmos políticos de sempre não conquistam a confiança de quem vem discutindo o assunto há tempos. Movimentos sociais, coletivos e organizações da sociedade civil questionam a legitimidade dos atuais congressistas para proporem e tocarem uma reforma que realmente reestruture a política brasileira.

Para José Antonio Moroni, do Colegiado de Gestão do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), a falta de legitimidade de deputados e senadores estaria diretamente relacionada a questões de ordem representativa.

“Percebemos que, diante de uma crise deste tamanho, nosso sistema político não tem nenhum mecanismo pra resolvê-la. Isso ocorre porque ele não está alicerçado na soberania popular, e sim somente nos mandatos dos parlamentares, que são eleitos por um sistema contaminado através do financiamento das campanhas e a maioria deles tem vínculo com seus financiadores, não com seus eleitores e com a cidadania”, afirmou Moroni em reportagem publicada pelo Brasil de Fato.

Na semana passada, Moroni e dezenas de outros representantes de movimentos sociais, coletivos e organizações da sociedade civil participaram do evento A Democracia Que Queremos para discutir justamente a crise política e a reforma do sistema político necessária para dar novos ares ao Congresso Nacional. Como setores da sociedade que estão historicamente afastados das decisões político-econômicas do país, como os povos indígenas, as mulheres e a população negra, vêem a reforma política? Quais suas perspectivas e demandas?

A sub-representação de negros, indígenas e mulheres no Congresso brasileiro revela, afirma Moroni, o completo descompasso da nossa democracia representativa com a população. As mulheres, por exemplo, são metade da população do Brasil, mas ocupam cerca de 10% das cadeiras no Congresso (50 das 512 na Câmara e 12 das 81 do Senado).

“Quem está lá (no Congresso) é o homem branco, empresário, rico, heterossexual e cristão, e isso passa pela questão da legitimidade, porque as pessoas olham pro parlamento e percebem que ele não as representa”, diz Moroni.

Fizemos uma análise do resultado das eleições 2016 e revelamos a baixa diversidade das candidaturas com relação ao perfil racial e de gênero dos candidatos. De um total de 465.446 mil candidaturas em todo o Brasil, sendo 156.317 candidaturas do sexo feminino (apenas 14,2%), foram eleitas 638 mulheres (0,3% do total) para o cargo de prefeitas e 107 para o cargo de vereadoras nas capitais. No total das cidades brasileiras, foram eleitas 7.818 mulheres vereadoras, o que representa 4,66% do total.

As mulheres pretas e pardas somaram somente 32 eleitas vereadoras nas capitais e nenhuma para o cargo de prefeita. As capitais São Luís, Recife, Campo Grande, Cuiabá, Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis, Aracaju e São Paulo não elegeram nenhuma mulher preta ou parda para o cargo de vereadora.

“Um debate que precisa ser incorporado ainda à agenda política é o de cotas raciais nas eleições, como já foi iniciado o de gênero, pois olhamos os dados e percebemos que nem mesmo a Lei de Cotas tem impulsionado as eleições de mulheres, e muito menos de mulheres negras”, afirma Carmela Zigoni, assessora política do Inesc.

Em outro levantamento, mostramos como grande parte dos prefeitos eleitos em 2016 fazem parte da elite econômica e racial do país – veja aqui.

A deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP), que há cinco legislaturas investe na pauta da reforma política, compartilha da mesma opinião. A psolista acrescenta que tal ação seria a força motriz de mudanças ainda mais enérgicas que possam radicalizar o sistema e promover o bem-estar social e coletivo.

“Se as nossas distorções não forem corrigidas, um ou outro ponto de mudança não vai significar uma melhoria substantiva da democracia, porque, no fundo, o que buscamos é a consolidação dos direitos humanos, sociais e individuais e da cidadania”, analisou Erundina.

Leia aqui a reportagem completa.

Vamos falar mais sobre reforma política?

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Greve geral dia 28: “Vamos transformar a dor em luta”

Um ano depois da abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff e 21 anos após o massacre de Carajás, movimentos campesinos, organizações de defesa dos povos quilombolas e indígenas, e parlamentares ocuparam o plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília, para marcar o Dia Internacional da Reforma Agrária e renovar a luta pela democracia.

“Tivemos há 21 anos o Massacre de Carajás. Há um ano a deposição da presidenta eleita pelo instrumento mais elementar da expressão da soberania popular, que é o voto. Mas temos a capacidade de transformar a dor em luta. E é por isso que no dia 28 de abril vamos estar em luta “, afirmou José Antonio Moroni, do Colegiado de Gestão do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), convocando todos à greve geral marcada para esta semana em todo o país em protesto contra as reformas trabalhista e previdenciária proposta pelo governo Temer.

O Dia Internacional da Reforma Agrária foi instituído em 2002 como homenagem aos trabalhadores mortos no Massacre de Carajás no dia 17 de abril de 1996, quando 21 trabalhadores rurais foram mortos por policiais militares do Pará em Eldorado de Carajás (PA), durante protestos pela reforma agrária e desapropriação de latifúndios improdutivos da região.

Na avaliação das lideranças e parlamentares presentes à solenidade, as políticas públicas voltadas para o campo sofreram fragilização progressiva, devido à presença ostensiva da bancada ruralista no Congresso Nacional e em cargos de confiança do Poder Executivo. A bancada ruralista tem levado a cabo a “Pauta Positiva-biênio 2016/2017” apresentada a Temer por parlamentares e entidades do agronegócio após a destituição de Dilma.

A reedição da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) Funai-Incra, a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) em maio do ano passado e a reconfiguração da legislação referente à regularização fundiária e reforma agrária são exemplos, na avaliação das lideranças presentes, do aprofundamento de uma política agrária antipopular, consolidando um cenário de injustiça social no campo.

Vamos falar sobre questões socioambientais?

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Novo site conta a história, tradição e lutas dos guarani-kaiowá

A história, tradição e lutas dos guarani-kaiowás agora estão reunidas na página Missão Ecumênica Guarani Kaiowá, que foi lançada no Dia do Índio (19/4) durante o Fórum Ecumênico e Povos Indígenas em Diálogo pelo Bem Viver, realizado em Brasília (DF).

A primeira Missão foi realizada entre os dias 7 e 8 de outubro de 2015, pelo PAD – Processo de Articulação e Diálogo, pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) e o Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI). O trabalho da Missão continua no Mato Grosso do Sul, atuando no fortalecimento das iniciativas do Guarani Kaiowá. E a criação do site é uma das iniciativas para contar a história dos Guarani-Kaiowá, sua tradição e suas lutas.

Saiba mais aqui.

Os caminhos que levam à democracia que queremos

O golpe institucional que retirou Dilma Rousseff da Presidência da República, substituindo-a por Michel Temer, completou um ano nesta segunda-feira (17/4). De lá para cá, parece que uma nuvem de gafanhotos tomou conta do poder, destruindo parte da estrutura do Estado de Bem-Estar social prevista pela Constituição de 1988. E se nada for feito para estancar essa sangria, mais direitos serão retirados. Quais são os caminhos possíveis para impedir novos ataques à democracia e aos direitos dos brasileiros? Como a sociedade civil organizado pode agir para equilibrar as ações? E afinal: qual democracia o Brasil quer? Essas e outras questões fundamentais guiaram os participantes do debate realizado ontem (segunda-feira, 17/4) no Museu da República no evento A Democracia Que Queremos, da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político, com apoio do Inesc e outras instituições.

O mote do encontro foi discutir a democracia brasileira em seu atual estágio, a partir do olhar das mulheres, negros e povos indígenas. Para Lucia Xavier, representante da ONG Criola e Articulação de Organizações de Mulheres Negras do Brasil (AMNB), e uma das palestrantes, é preciso haver um novo pacto, radical e amplo, em que toda a riqueza do país seja usada para reduzir as distorções entre a população. “Queremos compartilhar, mostrar nossa capacidade de construir os pilares da sociedade.” E para isso, afirma Lucia, a participação das mulheres negras no processo é imprescindível. “Sem elas, continuaremos vivendo numa democracia branca. E vocês não sabem o tanto que ela é ruim.”

Mais de 100 pessoas participaram do debate realizado ontem no Museu da República, que teve transmissão ao vivo online pela Mídia Ninja – veja o vídeo completo aqui.

Nas falas dos palestrantes – Lucia Xavier (Criola e AMNB), Sonia Guajajara (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Paulo Rubem Santiago (professor da UFPE) e Romi Bencke (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – Conic) -, e também dos demais que pediram a palavra, a certeza de que povos, matizes e gêneros da população brasileira querem mais voz e participação dos processos de decisão política no país.

Lucia Xavier (ONG Criola)

“O movimento negro tem a agenda política mais antiga do País. Desde o nosso primeiro ancestral brasileiro lutamos por liberdade, por respeito e por oportunidades. O debate sobre a questão racial é um termômetro, pois fala sobre representação, classe social e educação. Queremos compartilhar, mostrar nossa capacidade de construir os pilares da sociedade. Enquanto mulheres negras não forem parte do processo, viveremos em uma Democracia Branca. E vocês não sabem o tanto que ela é ruim.”

Paulo Rubem Santiago (professor UFPE)

“Os governos democráticos e populares eleitos a partir de 2002 não foram capazes de abalar as oligarquias brasileiras presentes no Congresso Nacional. A disputa entre Economia e Democracia foi gradativamente desequilibrada, favorecendo as elites financeiras que hoje retiram direitos da população. Estamos em um momento em que as questões voltam ao solo fértil do debate para que possamos traduzir para o povo as consequências dessas reformas empreendidas pelo governo Temer.”

Sonia Guajajara (Apib)

“A ‘Constituição Cidadã’ veio com o objetivo de remover todo o entulho autoritário legado pela Ditadura Militar e os povos indígenas acreditaram nos dispositivos voltados para as suas demandas. Precisamos unificar a luta, afinal somos todos indígenas. Hoje o ódio é incitado por figuras públicas, parlamentares, que não se envergonham de manifestarem todo o seu preconceito.”

Romi Bencke (Conic)

“Há um ano uma presidenta legitimamente eleita foi deposta em nome de Deus. No Brasil, nota-se uma instrumentalização da Política pela Religião e vice-versa. O fundamentalismo e o conservadorismo não andam isolados. A Religião não pode ser absoluta, somente em consonância com os Direitos Humanos. Existe mais espaço para o ódio do que para a compaixão, basta perceber a permanência da intolerância religiosa em nossa sociedade, em especial àquelas de matriz africana, que perpassa pelo racismo.”

Leia mais aqui, na reportagem da Mídia Ninja.

Na terça e quarta-feira (18 e 19/4), os integrantes da Plataforma promoveram reflexões sobre os cinco eixos da proposta de Reforma do Sistema Político:

– Democracia Direta

– Democracia Representativa

– Democracia Participativa

– Democratização dos Meios de Comunicação

– Democratização do Sistema de Justiça

Veja outros depoimentos nesta playlist Qual a Democracia Que Queremos? Tem Vitor Guimarães (MTST), Lucia Xavier (ONG Criola), Cinthia Abreu (Marcha Mundial de Mulheres), a deputada Luiza Erundina (PSOL-SP) e muito mais.

“Precisamos formular questões que possam não apenas questionar/tensionar a institucionalidade que temos mas que sejam capazes de criar novas institucionalidades democráticas”, afirma José Antonio Moroni, do Colegiado de Gestão do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc).

Para Moroni, um dos principais obstáculos à criação de novas institucionalidades é o monopólio do Congresso para fazer a reforma política. Não há  praticamente mecanismo algum de soberania popular para se fazer transformações quando o Congresso não quer e o povo quer – com exceção da iniciativa popular, que é um instrumento limitado e que não pode propor mudanças constitucionais.

“Em outras palavras, temos um sistema político que não é alicerçado no poder popular, e sim no poder econômico. E, em termos de poder político, a base está nas oligarquias, tanto as velhas como as novas. Além disso, temos um Congresso dominado por bancadas com interesses particulares e de seus grupos de interesse, inviabilizando que se tenha uma discussão aprofundada sobre o tema. Os congressistas pensam em seus próprios interesses e de seus grupos, e não em qual o melhor sistema político  para atender aos interesses do povo.”

Vamos falar sobre Reforma do Sistema Político?

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Jovens da Cidade Estrutural produzem fotonovela para discutir direitos da mulher

A galerinha do Coletivo da Cidade encontrou uma maneira bem interessante pra discutir e problematizar situações cotidianas de violência entre os jovens da Cidade Estrutural. A partir das oficinas de educomunicação realizadas na comunidade, eles decidiram produzir uma fotonovela, tomando a frente de todo o processo – da escolha da linguagem à criação da narrativa e figurinos, passando pela direção, montagem dos cenários e registro fotográfico.

“Mais importante do que o produto em si são os processos durante a produção, a discussão sobre os direitos, como os das mulheres”, explica Diego Mendonça, educomunicador que trabalha com o projeto Observatório da Criança e do Adolescente (OCA) na Cidade Estrutural, em Brasília, e que deu apoio à atividade de produção da fotonovela ‘Maria’.

“As situações retratadas na fotonovela são comuns na vida dos adolescentes do projeto e a fotonovela problematiza essas situações e ideias, buscando sempre caminhos que construam pontes para ações emancipatórias e de protagonismo na comunidade.”

O resultado final da fotonovela é forte mas ao mesmo tempo lúdico, contribuindo para fortalecer a discussão sobre os direitos de cada um e também o protagonismo de quem vive no seu cotidiano as questões levantadas.

Na história criada pelos jovens, uma mulher sofre violência doméstica por parte do marido e um dia fica sabendo de seus direitos. Resolve então se separar e denunciar todos os abusos que sofreu. Confira abaixo:


Créditos da Fotonovela:

Roteiro: Davi Alves, Raquel Sousa, Wesley Matheus e Willian Batista;

Figurino: Grazielly Damasceno, Igor Francisco, Iago Rickelme, Nágylla Nayhara e Willian Batista;

Elenco: Juliana Teixeira, Laís Jesus, Nágylla Nayhara, Pablo Souza e Samara dos Santos;

Direção: Davi Alves, Iago Rickelme, Juliana Teixeira e Willian Batista;

Fotografia: Davi Alves, Iago Rickelme, Nathilon Nathan e Grazielly Damasceno;

Educadores: Diego Mendonça e Fátima Lopes – Educom OCA/Coletivo da cidade.

Nova Base Nacional Comum Curricular nasce em falso, parcial e sem legitimidade

O Ministério da Educação enviou, no início do mês, uma nova proposta de Base Nacional Comum Curricular (BNCC) ao Conselho Nacional de Educação (CNE), revelando alguns dos tortuosos caminhos tomados pelo atual governo brasileiro em relação ao tema. O texto, que está em sua terceira versão, propõe estabelecer os objetivos de aprendizagem de cada ano da educação infantil e do ensino fundamental, visando a padronização dos currículos escolares no país. Mas o seu conteúdo vem sofrendo pesadas críticas – e com razões de sobra.

Em artigo publicado nesta terça-feira (11/4) no site Nexo, os professores Salomão Ximenes e Fernando Cássio, ambos da Universidade Federal do Grande ABC (SP), afirmam que a nova proposta de Base Nacional Comum Curricular “nasce em falso, parcial, sem condições institucionais de implementação e sem legitimidade capaz de lhe assegurar a adesão genuína de educadores e gestores”. Para os professores, é uma “evidente contradição” lançar uma BNCC parcial, que exclui o ensino médio.

“A conclusão dessa etapa deve ser atribuída, sobretudo, aos movimentos empresariais que incidem na educação pública, reunidos no Movimento pela Base Nacional Comum. Segundo o próprio movimento, a BNCC servirá como “espinha dorsal” para os direitos de aprendizagem de cada aluno, para a formação dos professores, os recursos didáticos e as avaliações externas. Embute, portanto, um projeto de reforma da educação brasileira, assim como uma concepção reducionista que descaracteriza o direito à educação.”

Cleo Manhas, assessora política do Inesc, concorda com os professores e critica ainda o fato de a BNCC praticamente engavetar o Plano Nacional de Educação (PNE) e as resoluções das Conferências Nacionais de Educação realizadas até agora. “Houve a vitória da aprendizagem sobre a educação de qualidade e da responsabilização de professores e professoras pelos resultados, em vez de se responsabilizar o sistema como um todo.”

Para Cleo, o governo está definitivamente promovendo a mercantilização da educação. “A BNCC é uma vitória das empresas de educação, que produzem materiais didáticos e estão à frente de instituições privadas de educação. Como bem disseram Salomão Ximenes e Fernando Cássio, “estão viabilizando a comoditização definitiva da educação”.

Ximenes e Cássio afirmam ainda que o documento apresentado não foi construído democraticamente:

“Abraçado ao discurso da gestão anterior, o MEC e o campo empresarial que o apoia se esforçam para convencer a sociedade brasileira de que a BNCC foi construída democraticamente e, mais do que isso, que não houve alterações no processo de construção da Base com a mudança de governo. O MEC defende que a consulta pública à primeira versão, os seminários estaduais e os pareceres especializados são a garantia da participação de amplos setores da sociedade na elaboração do texto curricular. O caso é que esses “amplos debates” se deram quase que exclusivamente na seara dos conteúdos/objetivos de ensino/aprendizagem.”

Leia aqui a íntegra do artigo dos professores da UFABC.

Todos querem educação de qualidade. Mas o que exatamente vem a ser isso?


A democracia brasileira a partir do olhar das mulheres, negros e povos indígenas

O que os povos indígenas, as mulheres, a população negra e defensores do Estado laico pensam a respeito da reforma do sistema político e da situação atual do país? Quais suas perspectivas e demandas? Esses e outros assuntos serão debatidos nesta segunda-feira (17/4) no encontro A Democracia Que Queremos, a ser realizado no Museu Nacional da República, a partir das 19 horas, em Brasília.

O tema central do encontro é a relação entre democracia, reforma do sistema político e economia, com a proposta de ser um espaço de construção de novos conteúdos e estratégias para o debate sobre a  reforma do sistema político.

Haverá transmissão ao vivo online do encontro pela página da Mídia Ninja.

“Precisamos formular questões que possam não apenas questionar/tensionar a institucionalidade que temos mas que sejam capazes de criar novas institucionalidades democráticas”, afirma José Antonio Moroni, do Colegiado de Gestão do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), um dos organizadores do encontro, por meio da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político.

O painel de debate pretende estimular uma reflexão para a compreensão da democracia brasileira a partir do olhar das mulheres, indígenas, negros, coletivos e movimentos sociais, e articular propostas para o enfrentamento das desigualdades, sejam elas de classe, gênero, raça, étnica ou orientação sexual.

“Estas desigualdades refletem no sistema político e ao mesmo tempo este sistema político é também um elemento de reprodução das desigualdades”, afirma Moroni.

Participam do painel de debate do dia 17:

* Lucia Xavier – coordenadora técnica da ONG Criola e integrante da Associação de Organizações de Mulheres Negras do Brasil (AMNB)

* Paulo Rubem Santiago – professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

* Sônia Guajajara – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)

* Romi  Bencke – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic)

Fizemos uma pequena entrevista com José Antonio Moroni sobre alguns aspectos da reforma do sistema político eleitoral que devem nortear as discussões no encontro de segunda-feira. Leia abaixo:

Muito se fala em reforma política e eleitoral, mas pouca coisa mudou praticamente no sistema nos últimos anos. Quais são os principais obstáculos para que alguma mudança positiva seja efetivamente realizada?

Primeiramente temos um limite da nossa institucionalidade que é o monopólio do  Congresso para fazer a reforma política. Não temos praticamente mecanismo algum de soberania popular para se fazer transformações quando o Congresso não quer e o povo quer. O único instrumento que temos é a iniciativa popular, que é super limitada, pois não pode propor mudanças constitucionais. E são necessárias 1,5 milhão de assinaturas, numa  burocracia enorme, e quem vota, de qualquer maneira, é o próprio Congresso. Em outras palavras, temos um sistema político que não é alicerçado no poder popular, e sim no poder econômico. E, em termos de poder político, a base está nas oligarquias, tanto as velhas como as novas. Além disso, temos um Congresso dominado por bancadas com interesses particulares e de seus grupos de interesse, inviabilizando que se tenha uma discussão aprofundada sobre o tema. Os congressistas pensam em seus próprios interesses e de seus grupos, e não em qual o melhor sistema político  para atender aos interesses do povo.  

Você diz que política não se esgota nos processos eleitorais ou na vida partidária. Pode dar exemplos práticos de outras importantes formas de atuação política?

O direito a participar ativamente das decisões do seu país deve ir muito além do voto ou da militância partidária. Precisamos criar outros mecanismos de expressão da soberania popular que não seja apenas o voto. Isso é muito limitado. Na verdade, precisamos ter um sistema político alicerçado no poder popular, na soberania popular, e para isso é necessário ter instrumentos para processar esta participação. A Constituição de 1988 criou três instrumentos de democracia direta: o plebiscito e referendo, que somente o Congresso pode convocar, e a iniciativa popular (coletar 1,5 milhão de assinaturas para apresentar um projeto de lei ao Congresso, que vai aprovar ou não). Chamar isso de democracia direta é meio que um deboche. Precisamos pensar como a força das organizações autônomas e independentes da sociedade civil (movimentos sociais, coletivos, organizações etc), que são formas de atuação política, podem tensionar de tal forma essa  institucionalidade a ponto de provocar rupturas e possibilitar a construção de novas institucionalidades  realmente democráticas. Essas novas institucionalidades precisam ser capazes de romper com o machismo, com o racismo, com a desigualdade de renda e riquezas, com a homofobia, com a lesbofobia, com o personalismo, com as oligarquias etc. Só vamos conseguir isso se tivermos um nível alto de participação política nos movimentos da sociedade, tensionando a institucionalidade.

A direita e demais forças conservadoras conseguiram mobilizar milhões de pessoas nas ruas nos últimos anos, e obtiveram significativas vitórias no campo político, como a derrubada do governo Dilma. Eles estão sabendo fazer política melhor do que a esquerda?

O que realmente mobilizou as pessoas não foi a direita e sim os meios de comunicação  tradicionais, que atuam como partido político. A mídia tem um poder grande de manipulação, fizeram isso a vida toda. As redes sociais também tiveram um papel importante neste processo. Além isso, tivemos um fator importante, que foi a perda da base social do governo Dilma em função da não implementação do programa que saiu vitorioso nas urnas, nas eleições de 2014. Esta base social não tinha motivos para defender um governo que o traiu. A direita soube explorar essas contradições.

Temos ainda um Poder Judiciário que age para destruir forças de esquerda e suas lideranças. Age de forma seletiva, pois o mesmo rigor não se aplica a partidos de direita e suas lideranças. Mas bastou a mídia não apoiar, como aconteceu na última manifestação (março de 2017), que a direita não consegui colocar meia dúzia nas ruas. A questão, para nós do campo da esquerda, é saber quando o povo não militante vai entrar nesta luta, e de que lado. Quem a direita conseguiu mobilizar foi a classe média reacionária, conservadora e que tem um ódio quase mortal das forças populares. Mas hoje, a ofensiva das disputas das ruas retornou para nós – a questão é se vamos ter unidade suficiente para fazer desta uma disputa com o conservadorismo, e não entre os diversos movimentos de  esquerda.

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Reformas como a da Previdência intensificam o racismo estrutural e institucional

As entidades que compõe a Convergências da Luta de Combate ao Racismo no Brasil, a Convergência Negra, vêm a público manifestar o seu mais veemente repúdio às reformas e outras medidas que estão sendo impostas pelo governo golpista de Michel Temer por considerar que elas intensificam o racismo estrutural e institucional, que, historicamente, se abate sobre negras e negros brasileiros, conforme indica um estudo do Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas (DIEESE) sobre a PEC 287, que propõe uma outra previdência pública,  e a população negra.

POPULAÇÃO RURAL NEGRA SEGUNDO O RELATÓRIO DAS DESIGUALDADES DO INSTITUTO DE PESQUISA ECONOMICA APLICADA (IPEA) 2015:

• Homem negro idoso: 82,5% recebem benefício previdenciário.

• Mulher negra idosa: 88,4% recebem benefício previdenciário.

• Com o aumento da idade mínima e com a exigência da contribuição de 25 anos, a cobertura da previdência para esta população (que ainda é menor do que para a população branca rural) tende a diminuir.

• Empobrecimento da família rural, pela impossibilidade de acumular aposentadoria e pensão.

COBERTURA DIRETA E INDIRETA DA PREVIDÊNCIA PÚBLICA NA POPULAÇÃO EM IDADE ATIVA , SEGUNDO COR/RAÇA E SEXO, BRASIL 2015

• percebe-se que a população negra tem uma cobertura 10% menor da previdência do que a população branca. Em média, de cada 10 (dez) pessoas negras em idade ativa, 4 (quatro) não tem nenhum tipo de cobertura (aposentadoria ou pensão).

A INSERÇÃO NEGRA NO MERCADO DE TRABALHO

• Maior período fora do mercado de trabalho, ou seja, maior tempo para se recolocar e mais tempo sem contribuir.

Alta rotatividade nos empregos, muito ligado à vulnerabilidade nos vínculos empregatícios;

• Maior informalidade (sem carteira assinada), o que significa não ter nenhum direito garantido pela previdência social.

• Terceirização.

Uma reforma que beneficia a Casa Grande.

Esses dados informados pelos estudos do DIEESE, somados a outras questões presentes na PEC 287, como a exigência da idade mínima de 65 anos entre os homens e as mulheres para ter direito ao benefício integral, mostram que a reforma proposta inclui regras rígidas e iguais para uma sociedade muito desigual, que agravam ainda mais a desigualdade social do país, principalmente a desigualdade racial, geracional e de gênero.

A regra atual da Previdência Pública permite que as mulheres se aposentem cinco  anos antes que os homens devido as suas diferentes condições de trabalho. A nova proposta torna igual o tempo de aposentadoria entre as mulheres e os homens.

A juventude, se a reforma for concretizada, deverá começar a trabalhar com 16 anos, contribuindo com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), sem nenhuma interrupção, até os 65anos de vida para ter direito a aposentadoria integral.  Com essa regra  os jovens e as jovens trabalhadoras não terão mais acesso a aposentadoria.

As regras dessa reforma acabará com a condição de segurado especial para os trabalhadores rurais, entre eles os indígenas e quilombolas.

A PEC 287, o desmonte da Previdência, terá como consequência, se aprovada pelo Congresso Nacional, o aumento da pobreza e do desemprego que afetarão diretamente a população negra que é 53%, ou seja, a maioria, da população brasileira.

A proposta da Reforma da Previdência do governo  golpista de Michel Temer significa o fim da aposentadoria no Brasil.

É uma versão contemporânea da Lei dos Sexagenário,  de 28 de setembro de 1885, que concedia liberdade aos escravos com mais de 60 anos. Uma lei perversa que   beneficiou poucos trabalhadores escravizados: eram raros os que atingiam essa idade devido a vida sofrida do trabalho escravo; os que atingiam essa idade já não tinham força e condição de trabalho. Além disso, um de seus artigos determinava que o trabalhador escravizado, ao atingir os 60 anos, deveria trabalhar por mais 3 (três) anos, de forma gratuita, para seu proprietário.

A soma das maldades: a Reforma da Previdência mais a terceirização e a reforma trabalhista.

Vai na mesma direção o PL 4302/98 que regulamenta a terceirização aprovado na Câmara dos Deputados e que torna ainda mais precária as relações de trabalho no país e a reforma trabalhista que estabelece que os acordos coletivos negociados prevalecem sobre os direitos trabalhistas previstos na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) que o governo golpista pretende aprovar no primeiro semestre de 2017.

Em uma situação de desemprego crescente, o poder de mobilização dos sindicatos se reduz e as categorias profissionais que têm um contexto maior de precarização e, por isto, menos organizadas, tenderão a ser prejudicadas.

Lembramos ainda que muito recentemente o movimento negro conquistou a extensão de direitos trabalhistas para trabalhadoras domésticas, conquista esta que pode ser anulada caso esta reforma seja aprovada. São negras e negros os trabalhadores que se encontram nestas condições e, portanto, são alvos desta reforma.

Nenhum direito a menos.

Fora Temer!

O governo golpista de Michel Temer aplica uma política recessiva que levou o desemprego para a casa de 13 milhões de pessoas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego no Brasil foi de 12% em dezembro do ano passado, sendo que entre negros foi de 14,2% e entre brancos, 9,5%.

A política externa de submissão aos interesses do imperialismo, a destruição das políticas de nacionalização das cadeias produtivas, a redução da capacidade de investimentos por parte do Estado, a privatização do pré-sal e o sucateamento de várias cadeias produtivas importantes sinalizam para um aprofundamento deste quadro.

O congelamento dos gastos públicos por 20 anos, imposto pela emenda constitucional aprovada no ano passado, contribuirá para uma retração ainda maior da economia, além de uma piora significativa dos serviços públicos afetando a população mais pobre.

As Universidades públicas que tiveram políticas de inclusão social e racial e, com isto, estavam formando profissionais negras e negros para ocupar empregos mais qualificados, estão sendo sucateadas e tendo a qualidade de ensino seriamente comprometida. A Reforma do Ensino Médio aprovada a toque de caixa em dezembro de 2016, mais um golpe travestido de reforma, retira de nossas escolas disciplinas fundamentais para a vida democrática e para um processo de formação mais crítico e integral para a juventude brasileira.

Os Estados e municípios, com contas falidas, estão sendo pressionados a adotarem ajustes fiscais que irão piorar ainda mais os serviços públicos. Por isto, crescem paralisações de funcionários públicos na saúde, educação, segurança pública, entre outros, prejudicando ainda mais a população.

O governo golpista de Temer se legitima pela repressão aos movimentos sociais e às periferias. Não é a toa que nomeou Alexandre Moraes para o Supremo Tribunal Federal. Ele foi o  gerente da política de extermínio da população negra na periferia quando foi secretário da segurança pública em São Paulo. E como ministro da Justiça dos golpistas defendeu aumentar ainda mais a repressão como medida para enfrentar a crise do sistema penitenciário que eclodiu com força no início deste ano.

As ruas são o caminho para derrotarmos a Casa Grande

As mobilizações recentes organizadas pelos movimentos de mulheres, as Centrais Sindicais, as Frentes Brasil Popular e Povo sem Medo, no dia de 8 de março, dia Internacional da Mulher; com mais de um milhão de pessoas que realizaram atos e manifestações em todo o país, no 15 de março, Dia Nacional de Paralização; as mobilizações do dia 31 de março que serviram para um “esquenta” para uma greve geral; apontaram o caminho para derrotarmos a Casa Grande:  as ruas.

Nesse contexto, será importante a greve geral que está sendo convocada por 9 (nove) centrais sindicais no dia 28 de abril, com o apoio dos partidos e das organizações do movimento social brasileiro que integram a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo.

A Convergências da Luta de Combate ao Racismo no Brasil, a Convergência Negra, soma-se a luta de todos os trabalhadores e da população brasileira para barrar o projeto golpista que está sendo implementado pelo governo ilegítimo de Michel Temer.

Assinam esse manifesto as entidades que integram a Convergências de Luta de Combate ao Racismo no Brasil:

ABPN – Associação Brasileira de Pesquisadores Negros

APNs – Agentes de Pastorais Negros

CEN – Coletivo de Entidades Negras

Círculo Palmarino

CONAJIRA – Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Racial

CONAQ – Coordenação Nacional das Comunidades Rurais Quilombolas

CONEN – Coordenação Nacional de Entidades Negras

ENEGRECER – Coletivo Nacional de Juventude Negra

FNMN – Fórum Nacional de Mulheres Negras

FONAJUNE – Fórum Nacional de Juventude Negra

MNU – Movimento Negro Unificado

Rede Afro LGBT

Rede Amazônia Negra

Rede Quilombação

UNEAFRO

UNEGRO – União de Negros Pela Igualdade

 

NÃO A REFORMA DA PREVIDÊNCIA E TRABALHISTA.

NENHUM DIREITO A MENOS.

FORA TEMER.

RUMO À GREVE GERAL NO DIA 28 DE ABRIL DE 2017!

 

Convergências da Luta de Combate ao Racismo no Brasil

Abril de 2017

O que podemos fazer para acabar com os paraísos fiscais?

Para marcar o primeiro aniversário do Panamá Papers, escândalo relacionado com paraísos fiscais, organizações e movimentos do mundo todo articuladas por meio da Campanha Multinacionais Paguem o Justo organizaram esta semana uma ação global pelo fim dos paraísos fiscais.

Um paraíso fiscal é um país ou território que tem sigilo bancário quase absoluto, baixa ou nenhuma tributação e que permite que corporações e pessoas muito ricas se utilizem de artifícios como elisão e evasão fiscal para pagarem menos impostos, por meio da transferência de renda ou ativos de um determinado país para o paraíso fiscal.

A elisão fiscal, apesar de não ser ilegal, é imoral. Ocorre por meio de um planejamento tributário agressivo, fazendo uso de brechas nas leis para dar vantagens indevidas às empresas, com o apoio de consultorias, especialmente de escritórios de Direito Tributário, que costumam cobrar grandes valores pela assessoria. Já a evasão ou sonegação fiscal é crime e consiste em realizar procedimentos que violam a lei ou um regulamento tributário com o objetivo de suprimir ou reduzir tributos.

Os paraísos fiscais são hoje um dos principais instrumentos para que corporações multinacionais e os super-ricos evitem e soneguem parte do que devem em tributos. Isso resulta em menos recursos para os países onde esses tributos deixam de ser pagos. Com o orçamento reduzido devido à sonegação e evasão fiscais, os países ficam limitados em sua capacidade de financiamento de políticas e serviços públicos essenciais, que promovem direitos e cidadania.

Cada Real perdido para um paraíso fiscal é um Real que poderia ter sido investido para garantir direitos, como construir e manter unidades de saúde e escolas, garantir moradia e transporte público acessível, fazer o saneamento básico das cidades, entre outras medidas. As receitas perdidas para os paraísos fiscais estão aprofundando a pobreza e aumentando as desigualdades pelo mundo. A Tax Justice Network estima que entre U$ 21 trilhões e US$ 32 trilhões estão escondidos em contas de paraísos fiscais, sendo que a maior parte desse dinheiro nunca foi taxada.

É por isso que é tão importante chamar a atenção dos governantes pelo mundo para que atuem pelo fim dos paraísos fiscais e façam com que as corporações multinacionais e os super-ricos paguem o que devem, o justo.

Quanto maior a sonegação fiscal, maior é a carga tributária de um país, para compensar as receitas perdidas. Em países com uma carga tributária regressiva, como é o caso do Brasil, onde mais da metade da arrecadação é feita por meio da tributação do consumo em vez da renda e patrimônio, o resultado é um peso cada vez maior sobre a classe média e os pobres, enquanto grandes empresas e os milionários têm maiores facilidades. Isso inverte completamente a lógica do princípio de capacidade de contribuição e isonomia que deveria reger qualquer sistema tributário. Se todos contribuíssem, não sonegando e melhor distribuindo a carga tributária, esta poderia ser inclusive mais leve para a classe média e os pobres.

Historicamente, os mais ricos não contribuíram – e continuam não querendo contribuir – com a construção de um orçamento público adequado e justo, que promova a redução da pobreza e das desigualdades. Em um cenário de crise econômica como a que o Brasil vive no momento, é insustentável a manutenção dessa injustiça fiscal. Está mais do que na hora de as grandes corporações e os super-ricos pagarem seus tributos de maneira justa, contribuindo assim para o financiamento da infraestrutura pública, a garantia de direitos e a construção de uma sociedade mais justa e solidária.

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Para conseguir fazer uso dos paraísos fiscais, as corporações multinacionais e os super-ricos, em parceria com advogados tributaristas, contadores, banqueiros, lobistas, montaram um esquema internacional sofisticado para reduzir os tributos devidos sobre seu lucro, renda e fortuna. Apesar de não quererem pagar tributos, as corporações e super-ricos são completamente dependentes da infraestrutura e das instituições públicas. Por exemplo, fazem uso das rodovias, portos e aeroportos construídos pelo Estado; e dependem dos trabalhadores que recebem educação pública como mão de obra que produz riqueza para eles.

O atual sistema de elisão e evasão fiscal faz a riqueza de um país fluir do fundo público para o privado, sendo então escondida em paraísos fiscais. Isso promove uma grande distorção na economia, enfraquece a democracia e priva as pessoas de terem seus direitos adequadamente financiados por meio de políticas e serviços públicos tão essenciais a uma existência com dignidade.

Paraísos fiscais prejudicam direitos humanos e ODS

Todos os países têm obrigação de respeitar os direitos humanos, que incluem os civis e os sociais, e para isso devem investir o máximo de recursos disponíveis. Entretanto, a prática de elisão e sonegação fiscal, e o uso dos paraísos fiscais, reduzem significativamente os recursos financeiros disponíveis dos países, inviabilizando o adequado financiamento dos direitos e retirando a dignidade na existência das pessoas. A ONU e diversos especialistas em direitos humanos defendem que políticas e legislações fiscais e tributárias que permitem elisão e sonegação fiscal estão em desacordo com as obrigações que os países assumiram nos tratados de direitos humanos.

Os países se comprometeram a reduzir a pobreza e as desigualdades até 2030 os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Para isso, é essencial que exista um financiamento adequado, e os países devem levantar progressivamente mais receitas internas. A ONU estima que irá custar U$ 1 trilhão por ano para alcançar os Objetivos nos países de baixa e média renda. Porém, de onde virá esse dinheiro? É essencial que grandes corporações e super-ricos paguem sua parte devida e justa de tributos nos países em que operam, e que os governantes usem esses recursos para financiar as políticas e serviços públicos que promovem os direitos humanos para alcançar os ODS.

Mulheres pagam o preço mais alto

Quando as políticas e serviços públicos não são adequadamente financiados e executados, são as mulheres que mais sofrem, especialmente as mulheres negras. Isso ocorre porque as mulheres dependem mais dos direitos garantidos por meio dessas políticas públicas, uma vez que são elas que gastam 2,5 mais tempo que os homens executando trabalhos não remunerados como os de cuidado com a casa, com crianças, com idosos e doentes. Nos países em que não há orçamento público suficiente para financiar serviços públicos essenciais que garantem os direitos à saúde, educação, creche, é bem mais frequente que sejam as mulheres que assumam essa responsabilidade, reduzindo seu tempo de estudo, de trabalho remunerado e de descanso. O que muitos insistem em ignorar é que esse trabalho não remunerado, porém essencial, das mulheres tem subsidiado a economia dos países, e deve ter um retorno por meio da garantia de seus direitos.


Como mudar esse cenário de crime contra a humanidade?

Vamos construir um momento público e político pelo Fim dos Paraísos Fiscal, solicitando que nossos governantes adotem as seguintes medidas:

1. Exigir relatórios públicos país-por-país de todas as corporações multinacionais. Esta seria uma medida importante para evitar a evasão fiscal em grande escala realizada por empresas multinacionais – como foi revelado por exemplo pelo escândalo LuxLeaks. Esses relatórios permitiriam que a sociedade pudesse ver onde cada empresa está fazendo negócio e quanto ela paga de tributos em cada país onde atua. Isso tornaria mais difícil para as empresas multinacionais burlarem a tributação dos países onde atuam. Alguns documentos ajudam a entender essa questão: 10 razões para adotar os relatórios país-por-país e Nota sobre a necessidade do relatório país-por-país.

2. Estabelecer registros públicos sobre quem são os verdadeiros donos ou os beneficiários finais dos trusts e empresas. Esta seria uma resposta aos problemas revelados por exemplo nos escândalos Panamá Papers, Bahamas Leaks e Lavanderia global. Esses registros públicos permitiriam que a sociedade pudesse ver quem realmente detém os trusts e as empresas que operam em nossos países. Isso tornaria mais difícil para os sonegadores de impostos e outros criminosos esconderem suas fortunas em fundos corporativos e empresas de fachada nos paraísos fiscais. Esses registros já foram introduzidos no Reino Unido e Eslováquia, e em breve serão uma realidade na Dinamarca e Eslovênia, por exemplo.

3. Apoiar o estabelecimento de um Organismo Intergovernamental sobre Sistema de Tributos na ONU, onde todos os países teriam igualdade de opinião e voto na definição de normas fiscais internacionais. Os paraísos fiscais são um problema global, o que requer uma solução global, esse organismo na ONU seria o fórum essencial de negociação fiscal e tributária para os governos, da mesma forma que o fórum de negociações climáticas da ONU é o espaço essencial para o combate às alterações climáticas. Hoje, no entanto, as normas gerais sobre impostos e transparência são estabelecidas, habitualmente de forma não transparente, por organismos como o G20 e a OCDE – também conhecidos como o Clube dos ‘países ricos’. Enquanto isso, todos os demais, que sofrem diversas consequências advindas das normas tributárias internacionais defasadas, não têm direito de voz e voto nesses espaços. Veja esse relatório sobre porque precisamos de um organismo intergovernamental na ONU sobre tributos e esse de Perguntas e Respostas sobre as questões mais frequentes a respeito desse tema.

4. Utilizar as receitas tributárias para financiar os serviços públicos e as proteções sociais com o objetivo de acabar com a pobreza e reduzir as desigualdades. Os governos devem se comprometer a assegurar que essas novas receitas obtidas serão utilizadas para a garantia de direitos.

5. Proteger os denunciantes que expõem globalmente esses crimes tributários internacionais. Os Panama Papers e os Luxemburgo Leaks só vieram a público graças aos denunciantes que agiram em prol do interesse público para promover justiça e revelaram essas sonegações fiscais em grande escala. Hoje, denunciantes não são protegidos contra processos e correm o risco de enfrentar severas sanções. Este foi, por exemplo, o caso dos denunciantes do Lux Leaks, que foram recentemente condenado pelo Tribunal do Luxemburgo.

Sumário dos escândalos tributários internacionais

* O Escândalo da Lavanderia Global

Corte bilionário no Orçamento 2017 tem o tamanho da ‘insanidade’ do governo

Em meio à pior recessão da história do país, com altos índices de desemprego e aumento acelerado da pobreza e das desigualdades, o governo anunciou um corte de mais de R$ 42 bilhões no orçamento público federal, atrofiando gastos públicos que poderiam evitar perda de direitos e garantir uma retomada econômica. E mais: os cortes serão feitos por cada órgão afetado, sem garantia alguma de transparência.

O Decreto de Contingenciamento, publicado no último dia 30 de março, estabelece que os órgãos setoriais, os fundos e entidades terão o prazo de até 30 dias para informar à Secretaria de Orçamento Federal (SOF) do Ministério do Planejamento onde farão os cortes. Cada órgão tem “autonomia” para decidir onde reduzirão os gastos dentro de suas despesas discricionárias, mas nenhuma obrigação de informar a população sobre o que deixará de ser feito com os 42,1 bilhões cortados pelo Decreto.

O contingenciamento é anunciado e vendido pelo governo, e pela grande mídia, como mais um remédio amargo para a situação de crise fiscal brasileira. A verdade, no entanto, é outra: trata-se de um corte que tem o tamanho da “insanidade” de um governo que promete, em um quadro de crise tão profunda, gerar um resultado primário (déficit de R$ 139 bilhões) que o país não é capaz de cumprir nesse momento.

A solução mais adequada seria assumir para a sociedade que a meta de resultado primário deste ano não poderia ser cumprida devido ao grave momento econômico do país. E não destruir políticas públicas que atendem milhões de pessoas. Em alguns casos, o Decreto de Contingenciamento proposto pelo governo federal prevê uma redução de 50% de recursos em órgãos que já têm orçamento enxuto, quase todo comprometido com despesas de pessoal, sem capacidade de executar políticas públicas. Isso é uma sentença de morte.

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(clique nas imagens para ampliar)

Como funciona o contingenciamento?

O Decreto estabelece os valores de movimentação e empenho para cada órgão. Esses valores consideram somente as despesas que podem ser efetivamente contingenciadas (cortadas). Ou seja, os cortes são feitos em cima de despesas chamadas discricionárias, aquelas que dependem da decisão de gasto do órgão e gestor. As demais despesas, as obrigatórias e grande parte das despesas financeiras, são preservadas. As obrigatórias são despesas com pessoal efetivo e despesas estabelecidas em leis. Por exemplo, não se pode contingenciar despesas com Transferência Constitucionais como Fundo de Participação de Estados e Municípios, como também não se pode contingenciar pagamento de pessoal, pensões e aposentadorias.

Logo, os cortes de R$ 42,1 bilhões são feitos sobre as despesas discricionárias de cada órgão.  Mas para se executar as políticas públicas não basta ter somente funcionários, é preciso ter recurso para pagamento de aluguel, luz, telefone, compra de equipamentos, gasolina, realização de chamadas públicas para a execução de uma série de serviços e iniciativas, etc.

São as despesas discricionárias que garantem a execução da uma enorme gama de políticas públicas: políticas de ação afirmativa e enfrentamento à desigualdade racial, políticas para povos indígenas, para quilombolas, para mulheres, para jovens, para idosos, políticas de preservação do meio ambiente, boa parte da política de ensino superior, entre muitas outras.  Logo, os efeitos reais do contingenciamento serão sentidos em especial pela população mais pobre que mais necessita da presença do Estado.

Vamos falar sobre Orçamento Público?

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A desconstituição ética, moral, cultural e institucional do Estado

Por José Antonio Moroni, do Colegiado de Gestão do Inesc, publicado originalmente no Le Monde Diplomatique Brasil.

Com o tempo fica desnudada, inclusive para setores da sociedade que entraram na onda de “todos contra a corrupção”, a verdadeira natureza do golpe que sofremos em 2016. Um golpe que articulou setores da institucionalidade (Parlamento, Judiciário e Executivo), partidos políticos, mídia, Igrejas, setores empresariais e “movimentos de rua”. Lembrando que, com início em 1989, esse foi o maior período histórico que vivemos sem golpes, aqui entendido como governo eleito terminando seu mandato. Houve no período o impedimento do presidente Collor, com comprovado crime de responsabilidade. O golpe demonstra que a elite brasileira não tem nenhum apreço pela democracia, mesmo a formal, nem respeito aos resultados eleitorais.

Mafalda, personagem do cartunista Quino, cai na risada com a definição que democracia é o governo em que o povo exerce a soberania. O riso de Mafalda é o riso irônico e de espanto de muitos. Riso de espanto das classes populares, que sabem que sua vontade pouco conta nesse jogo em que a soberania popular não tem lugar. Riso irônico das elites, nada democráticas, que a vivem como instrumento de perpetuação no poder e de seus privilégios. E, quando isso não acontece, rebusca o mesmo formato de sempre, golpe de Estado. Houve uma época em que se precisava dos quartéis; hoje não, basta articular os interesses das castas incrustadas nos aparatos estatais, com interesses ideológicos, políticos e econômicos de setores da sociedade. A leitura do golpe das chamadas classes C e D, conforme pesquisa do Data Popular, foi que era briga da elite, disputa de poder. Realmente o povo sabe das coisas.

Apesar dos limites de nossos processos democráticos e dos poucos avanços que tivemos nos últimos anos no sentido de termos um sistema político alicerçado na soberania popular e de construção de políticas públicas realmente emancipatórias, houve um reconhecimento institucional de sujeitos tradicionalmente “esquecidos” pelo Estado e pelos governos. Esse reconhecimento não foi por acaso, mas fruto de lutas e organização desses sujeitos nas últimas décadas, para não falar séculos. Basta lembrar a luta dos quilombos, dos povos indígenas, das comunidades LGBT, dos jovens e das mulheres.

O golpe precisava deslegitimar esses sujeitos, suas lutas e demandas. Não é à toa que uma das primeiras medidas do governo golpista foi a extinção ou o esvaziamento de estruturas do Estado que possibilitavam certo tensionamento entre esses sujeitos e a definição das políticas públicas. O que melhor espelha isso é a extinção dos ministérios dos Direitos Humanos, da Igualdade Racial, das Políticas para as Mulheres, do Desenvolvimento Agrário; o fim do Ministério da Previdência Social (quem precisa de previdência é a classe trabalhadora); a militarização da questão indígena e o esvaziamento dos espaços de interlocução com a comunidade LGBT e as juventudes. Um momento desses precisa de uma foto, para ficar registrado para a eternidade. A captura foi feita no dia da usurpação do poder. Quem aparece na imagem são todos homens brancos, proprietários, herdeiros do poder, que no Brasil é hereditário e vitalício.

No entanto, o processo de “reconhecimento” desses sujeitos na cena pública e política não foi concluído. O golpe veio também para interromper esse processo. Interessante aqui fazer uma análise curta sobre a composição das manifestações contra o golpe. Majoritariamente, elas eram formadas por mulheres, jovens das periferias, negros e negras, comunidade LGBT, sem-teto e sem-terra. Por que isso? Porque justamente esses segmentos foram aqueles capazes de pressionar o governo para colocar em prática políticas que minimamente atendiam às suas demandas. Em outras palavras, foram para a luta, para a disputa, e as políticas públicas foram construídas graças a essa pressão, assim como foram criados espaços públicos de disputas e de formação.

Por que será que os “beneficiários” do aumento real do salário mínimo (que não foi conectado com a luta do movimento sindical), do Bolsa Família, do Luz para Todos e das demais políticas públicas ficaram vendo, em sua maioria, a banda passar? Porque foram políticas aplicadas sem a participação popular nem mecanismos de formação e de apropriação da política. A política não era deles, era uma benesse do governo. Cito novamente pesquisa do Data Popular que revelou que 53% dos entrevistados identificavam a melhoria de sua vida ao seu esforço; 24%, à fé religiosa; e apenas 5%, a uma ação governamental. E não podemos aqui cair numa explicação simplista, de que o governo não soube comunicar; na verdade, o governo não soube governar com o povo (nem estamos falando aqui de o povo ser o poder).

Lógico que a deslegitimação do nosso já frágil Estado de bem-estar social precisa passar pelo elemento de classe também: o ataque às leis trabalhistas, ao sistema de seguridade social, ao Bolsa Família, aos direitos dos povos indígenas e aos programas de fortalecimento da agricultura familiar e camponesa tem esse objetivo. Do ponto de vista político, trata-se da destruição das esquerdas, do campo popular e de qualquer possibilidade de alguma transformação política, econômica, social, cultural, ambiental. Não podemos esquecer os ataques à agenda civilizatória, à união civil entre pessoas do mesmo sexo, à descriminalização do aborto, ao Estado laico, à educação plural, às políticas afirmativas, às políticas contra a homofobia, contra o armamento da sociedade etc. Saímos de aprendizes de um Estado de direito para pós-graduados em Estado de exceção (ou será que nunca saímos desse lugar?).

Dados do próprio governo, citados por Telma Maranhão, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), mostram uma redução de 35% do orçamento comparando os anos de 2015 e 2016 nas políticas de direitos humanos, mulheres, igualdade racial, LGBT. O que era pouco se tornou invisível.

No que se refere ao Bolsa Família, para esses governantes era necessário reforçar o preconceito que pobre não quer trabalhar, que pobre frauda os benefícios para tirar vantagem de tudo (como se a lei de Gérson – levar vantagem em tudo – não fosse o modus operandi das elites). Em novembro de 2016, o governo Temer cortou 1,1 milhão de beneficiários do Bolsa Família (469 mil cancelados e 654 mil bloqueados). Isso foi comunicado de modo a reforçar o estereótipo de que o pobre é pobre porque é preguiçoso. Acontece que o Bolsa Família sempre teve mecanismos de avaliação (alguns rígidos e burocráticos demais) para a permanência ou não no programa. Cancelamentos e bloqueios eram rotinas do programa.

O Alerta Social, articulação de ativistas e acadêmicos, com o mote “Qual direito você perdeu hoje?”, fez um levantamento dos principais direitos perdidos ou ameaçados no governo Temer. A lista é longa. Selecionamos alguns:

Democracia: interrompido o mais longo período histórico de respeito ao voto popular, 27 anos. Em 126 anos de República, tivemos 36 presidentes; apenas doze eleitos diretamente terminaram seu mandato. De 1926 até hoje, a proporção é ainda pior – de 25 presidentes, apenas cinco eleitos pelo voto popular concluíram seu mandato: Eurico Gaspar Dutra, Juscelino Kubitschek, FHC, Lula e Dilma (primeiro mandato). Isso só confirma a tese de que as elites brasileiras não têm nenhum apreço pelo voto popular e recorrem sistematicamente a golpes de Estado para impor seus interesses. O golpe que colocou Temer no poder segue essa tradição.

Ajuste fiscal: o chamado ajuste fiscal, que começou no governo Dilma, é uma estratégia para fazer a conta ser paga pela base da pirâmide. Central nisso é a Emenda Constitucional n. 95 (EC 95), que congelou por vinte anos os gastos públicos, principalmente os gastos sociais, incluindo os previdenciários. Congelar gastos públicos por vinte anos é congelar o futuro de uma geração inteira. Até a fatídica aprovação dessa emenda constitucional, recursos para a saúde e a educação eram vinculados, isto é, tinha percentual fixo do orçamento. Após a aprovação, os gastos são corrigidos segundo a inflação do ano anterior. Segundo estudos, se esse critério estivesse valendo para 2015, a saúde teria uma perda de recursos da ordem de 32%, e a educação, de 70%. Sem mencionar que os percentuais constitucionais para a educação e a saúde já vinham sendo desrespeitados desde o governo FHC por meio da Desvinculação das Receitas da União, medida essa mantida pelos governos Lula e Dilma. Isso tudo para quê? Para pagar a dívida pública, um mecanismo de repasse de recursos públicos para as elites que aplicam no mercado financeiro. Hoje, mais de 50% do “nosso” orçamento público é comprometido com o pagamento da dívida. O Estado brasileiro cobra impostos dos mais pobres para distribuir para os mais ricos, e um dos mecanismos para fazer isso é o pagamento da dívida pública.

Políticas indigenistas: mesmo reconhecendo que nos governos Lula e Dilma pouco se avançou, no mandato Temer o retrocesso é gritante. Além do desmonte da já fragilizada Fundação Nacional do Índio (Funai), da tentativa de nomear um general para a presidência do órgão, do apoio ao Projeto de Emenda Constitucional n. 215 (PEC 215), que retira o poder do Executivo para a demarcação das terras indígenas, e do desmonte da política da saúde indígena, o orçamento da Funai para 2017 é o menor em dez anos. Na verdade, a PEC 215 inviabiliza qualquer nova demarcação e abre possibilidades de rever demarcações já realizadas. A proposta de emenda equipara as terras tradicionais às propriedades rurais, podendo ser arrendadas, divididas e receber “investimentos” do agronegócio e das mineradoras.

Agricultura familiar e reforma agrária: a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e sua incorporação ao Ministério de Desenvolvimento Social, além de ser um retrocesso na luta pela reforma agrária, é uma evidente opção ideológica e política pelo agronegócio. A concepção de que as políticas voltadas para a agricultura familiar devem ser concebidas no âmbito do social, apartado do econômico, é de um modelo de desenvolvimento arcaico, que faz o Brasil retroceder para o início do século passado. O governo Temer, nesse período, retirou o desenvolvimento agrário da Câmara de Comércio Exterior (lógico, só quem pode exportar é o agronegócio), acabou com a Diretoria de Políticas para as Mulheres Rurais e extinguiu a Ouvidoria Agrária, que tinha como tarefa a negociação de conflitos no campo. Como se não bastasse, extinguiu a Coordenação Geral de Cooperação Humanitária e Combate à Fome do Itamaraty, que tinha a atribuição de construir a agenda contra a fome no mundo.

Segundo estudos do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), em 2016 o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) da agricultura familiar para a alimentação escolar, hospitais e etc. gastou R$ 428 milhões. O orçamento para 2017 prevê apenas R$ 330 milhões, o que equivale a uma perda de 28%.

No que diz respeito à reforma agrária, o governo encaminhou a Medida Provisória 759/2016 (MP 759) com o objetivo basicamente de liberar terras para o mercado e enfraquecer os movimentos sociais que lutam por uma reforma agrária popular. Libera terras para o mercado quando concede títulos de propriedade para os assentados individualmente, permitindo a venda dos imóveis. Enfraquece os movimentos quando prevê abertura de editais amplos para as candidaturas a receber terras.

Reforma trabalhista: com o argumento de modernizar as relações de trabalho (quem não se lembra do discurso de modernização da era Collor?), o governo enviou projeto de lei em regime de urgência, que deve ser aprovado no primeiro semestre deste ano. Uma das propostas é que a jornada de trabalho diária possa ser de até 12 horas. Outra é que o que for acordado entre as empresas e sindicatos fica valendo acima da legislação. Na prática, isso acaba com a Consolidação das Leis de Trabalho (CLT). Num país com um sindicalismo ainda frágil, parte dele atendendo aos interesses dos patrões, os acordos dificilmente irão além dos direitos já conquistados na CLT. Em outras palavras, os acordos vão retirar direitos.

Educação: para além do corte de recursos, há grandes atrasos com as discussões puxadas pelos adeptos da escola sem partido (proposta educacional político-pedagógica conservadora que se apresenta como antipartidária, mas na verdade é representante do “pensamento único”, equivalente ao partido único nas escolas); a reforma do ensino médio, editada por medida provisória, que retoma a velha divisão entre educação para ricos e cursos técnicos voltados para a demanda da economia, para a empregabilidade dos mais pobres; o afunilamento do acesso ao ensino superior, com o encolhimento das universidades públicas e o enfraquecimento dos Institutos Federais de Educação; e, por fim, a fragilização da formação de professores e a retirada de disciplinas críticas do currículo escolar. Além disso, há um desprezo ao conhecimento produzido de modo descentralizado pelas diferentes regiões do país, ao estipular uma base nacional curricular comum, com 60% de conteúdo fixo e outros 40% variáveis – como todos os exames são nacionais, contudo, o que será solicitado neles terá como referência os 60%.

Vê-se, pois, que a era Temer, porta-voz do 1%, de elites imediatistas, racistas, machistas, sexistas, lesbo-homofóbicas e patrimonialistas, é a rápida desconstrução, institucional e cultural, da ideia de justiça social que referenciava nosso Estado de bem-estar social. Este era frágil, incompleto, imperfeito, mas vinha progressivamente se consolidando desde a Constituição de 1988. Os tempos que nos aguardam são sombrios. Os retrocessos já se fazem sentir: o próprio Banco Mundial,1 aliado eterno dessas elites, já anunciou o aumento da pobreza no Brasil. Mais do que nunca, urge a união das forças populares em torno de uma agenda de radicalização da democracia e de inclusão socioambiental dos 99%!

Como podemos perceber, o golpe teve endereço e CEP certos: os direitos dos trabalhadores, das mulheres, das juventudes periféricas, da população negra, dos povos indígenas, da comunidade LGBT. Mas podemos ter a certeza de que os trabalhadores e as trabalhadoras não vão retornar ao chão de fábrica, que as mulheres não vão retornar à cozinha, que os jovens não vão retornar ao “gueto” e vão ocupar as vagas das universidades públicas, que a comunidade LGBT não vai voltar para o armário e que o povo negro não vai retornar à senzala.

1 “Banco Mundial: crise pode levar 3,6 milhões de brasileiros de volta à pobreza”, Agência Brasil, 13 fev. 2017.

Vamos falar sobre Reforma do Sistema Po

Corte no Orçamento 2017 é a segunda pancada do governo nos gastos sociais

O duplo teto sobre gastos sociais que previmos para o Orçamento deste ano se confirmou esta semana com o anúncio de corte de R$ 42,1 bilhões feito pelos ministros Henrique Meirelles (Fazenda) e Dyogo Oliveira (Planejamento). Em estudo publicado há 15 dias alertamos para o fato de que agora temos duas barreiras contra os gastos sociais: uma decorrente da Emenda Constitucional 95, aprovada em dezembro do ano passado, e outra da Lei de Responsabilidade Fiscal de 2000, que impõe agora ao governo federal o corte bilionário nas despesas primárias do orçamento, além de aumento de impostos.

As chamadas despesas primárias são o conjunto de gastos que possibilita a oferta de serviços públicos à sociedade (gastos com pessoal, investimentos, pagamento de salário etc). Conforme antecipamos no estudo, os gastos sociais foram deprimidos de maneira inédita para abrir mais espaço no bolo orçamentário para as despesas financeiras:

Aprovada em dezembro de 2016, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 55/241 – agora Emenda Constitucional no 95 (EC 95) – já revela sua essência: limitar despesas com políticas públicas e programas sociais para liberar recursos para pagamentos de juros, priorizando o sistema financeiro em vez dos cidadãos brasileiros.

Seus efeitos já são visíveis no Orçamento de 2017 e mais cortes ainda virão. Isso porque os gastos sociais estão agora submetidos a um duplo teto: a EC 95 e a meta de superávit primário.

Em apenas um ano, de 2016 para 2017, a parte do Orçamento da União comprometida com despesas financeiras* cresceu, passando de 45% para 53%, totalizando R$ 1,85 trilhão em 2017, o que equivale a um acréscimo de R$ 645 bilhões. Em contrapartida, as despesas primárias, apesar de terem tido um aumento de R$ 77 milhões, encolheram de 55% para 47%.

Não bastasse o inédito e draconiano teto de gastos imposto pela Emenda Constitucional aprovada em dezembro passado, o governo federal ainda exagerou na dose do contingenciamento de parte da despesa prevista na lei orçamentária. Segundo Grazielle David, assessora política do Inesc e uma das responsáveis pelo estudo que prevê o duplo teto para os gastos sociais no Brasil, o governo federal foi insensível com o momento econômico do país, estipulando um resultado primário desproporcional, obrigado um corte tão gigantesco quanto o anunciado nesta quinta-feira.

“Assim, os gastos sociais além de não poderem ter um crescimento real, estando limitados a uma correção monetária, também devem estar dentro da meta de resultado primário. Quanto mais exagerada for essa meta, mais os gastos sociais serão cortados. Esse é o caso de 2017, como havíamos indicado.”

Do total de R$ 42,1 bilhões cortados, R$ 10,5 bilhões são do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), prejudicando investimentos públicos que possam contribuir para a recuperação econômica do país. E com exceção da Saúde e Educação, todos as demais políticas públicas e direitos sociais serão impactados com a redução orçamentária.

Os ministros Meirelles e Oliveira anunciaram também a retirada da desoneração da folha de pagamento de vários setores da economia, e a iniciativa foi considerada boa por Grazielle. “Os imensos gastos tributários adotados nos últimos anos afetaram de forma importante a economia do país e especialmente a base de financiamento do orçamento da seguridade social. Isso num momento de tanta ameaça à previdência social.”

Vamos falar sobre Orçamento Público?

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Novo Banco de Desenvolvimento: realmente novo ou mais do mesmo?

Será que o bloco Brasil-Rússia-Índia-China-África do Sul (BRICS) é capaz de desafiar a atual ordem financeira mundial? Há controvérsias.

Um bom momento para avaliar os rumos do bloco será o II Encontro Anual da cúpula do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), em Nova Déli, que começa nesta sexta-feira (31/3).

Para alguns, esta fase inicial de implementação da nova instituição financeira conseguiu obter alguns avanços importantes. A estratégia geral aprovada dois anos depois da criação do NBD em 2014, no Brasil, definiu que o banco concentraria seus esforços na área de infraestrutura sustentável – entendida como infraestrutura que incorpora critérios ambientais e sociais. Isso significa apoiar projetos em áreas como energia renovável (solar, eólica, hidrelétrica), administração sustentável da água, tratamento de esgotos, transporte limpo e eficiência energética.

Segundo depoimentos oficiais, o NBD apoiará também a infraestrutura tradicional, mas a ênfase será dada a iniciativas que assegurem o desenvolvimento sustentável.

Até o momento, foram aprovados sete projetos nos cinco países[1] que fazem parte do BRICS, envolvendo recursos da ordem de US$ 1,5 bilhão, a maior parte deles em energia renovável.

Novo Banco de Desenvolvimento: realmente novo ou mais do mesmo?

A proposta de sustentabilidade do banco também se estende às formas de captação de recursos, com grande esforço para explorar mercados de bônus verdes, isto é, mecanismos destinados a gerar recursos para projetos que preservam ou recuperam o meio ambiente. Nesse sentido, o primeiro bônus, emitido em 2016 na China, foi um bônus verde de cinco anos, em yuan, no valor de 3 bilhões, o equivalente a cerca de US$ 450 milhões.

Também são listadas como conquistas a aprovação das políticas de empréstimo, as de tesouraria e administração de riscos, as salvaguardas ambientais e sociais, as políticas de recursos humanos e recrutamento, entre outras.

Passada essa fase inicial, a direção do Banco tem pretensões de por em marcha um processo gradual de ampliação do número de países membros, buscando transformar o NBD aos poucos em um banco global, que inclua nações de todas as regiões do mundo — países desenvolvidos, países de renda média e também países mais pobres.

Se é bem verdade que na sua primeira infância o Banco vem dando sinais de que é para valer, também é verdade que ainda enfrentamos inúmeros desafios em relação à sua implementação. Com efeito, o banco está imerso em enorme nevoa que torna opaca e pouco transparente sua atuação.

Novo Banco de Desenvolvimento: realmente novo ou mais do mesmo?

O conceito de desenvolvimento sustentável utilizado pelo Novo Banco de Desenvolvimento é impreciso, e as políticas publicadas são vagas, sem referenciais claros para o monitoramento de todo o ciclo dos projetos – dos critérios de aprovação à execução e avaliação. Neste particular, o adjetivo “novo” que cunha o nome do banco nada tem de inédito. Em vez de erguer uma instituição financeira realmente preocupada em assegurar a inclusão socioambiental daqueles que serão beneficiados pela sua atuação, a partir de padrões internacionalmente acordados em espaços multilaterais de negociação, vê-se um organismo que afrouxa as condições de empréstimos. Os executivos do NBD[2] alegam que é preciso manter os custos baixos para ser mais competitivos, e oferecer serviços eficientes e céleres, com menos condicionalidades na concessão de empréstimos, para agilizar os processos de aprovação e, segundo eles, respeitar a soberania nacional dos países.

O NBD também não ousa quando se trata de incluir no seu cotidiano as vozes daquelas e daquelas que serão diretamente afetados pelos seus projetos. Não há qualquer sinal da institucionalização de mecanismos de participação social. A impressão que se tem é que o NBD é mais portador de velhas práticas do que promotor de iniciativas inclusivas, que efetivamente garantam o principal lema do Banco, a saber, o desenvolvimento sustentável.

Às margens do II Encontro Anual do Banco, organizações e movimentos da sociedade civil estão reunidos em Nova Déli para debater os rumos da instituição e elaborar propostas para seu aprimoramento. Aparentemente há brechas: importantes executivos do Banco, como os Vice-Presidentes Paulo Nogueira Batista Jr.[3] e Vladimir Kazbecov[4], estariam abertos ao diálogo. Reuniões foram realizadas em outras oportunidades e irão

acontecer novamente em paralelo ao II Encontro Anual do Banco. O principal desafio é o de instalar mecanismo formal de interação crítica no NBD, facilitando e fortalecendo a participação e o diálogo com movimentos e organizações da sociedade civil. Caso contrario, ficará evidente o novo banco, na verdade, é mais do mesmo.

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[1] A esse respeito, ver: http://www.ndb.int/projects/list-of-all-projects/

[2] A esse respeito, ver: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142016000300179

[3] Vice-Presidentes de Pesquisa Econômica, Estratégia, Parcerias e Riscos.

[4] Vice-Presidente de Recursos Humanos e Comunicação.

Novo Banco de Desenvolvimento: realmente novo ou mais do mesmo?

Será que o bloco Brasil-Rússia-Índia-China-África do Sul (BRICS) é capaz de desafiar a atual ordem financeira mundial? Há controvérsias.

Um bom momento para avaliar os rumos do bloco será o II Encontro Anual da cúpula do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), em Nova Déli, que começa nesta sexta-feira (31/3).

Para alguns, esta fase inicial de implementação da nova instituição financeira conseguiu obter alguns avanços importantes. A estratégia geral aprovada dois anos depois da criação do NBD em 2014, no Brasil, definiu que o banco concentraria seus esforços na área de infraestrutura sustentável – entendida como infraestrutura que incorpora critérios ambientais e sociais. Isso significa apoiar projetos em áreas como energia renovável (solar, eólica, hidrelétrica), administração sustentável da água, tratamento de esgotos, transporte limpo e eficiência energética.

Segundo depoimentos oficiais, o NBD apoiará também a infraestrutura tradicional, mas a ênfase será dada a iniciativas que assegurem o desenvolvimento sustentável.

Até o momento, foram aprovados sete projetos nos cinco países[1] que fazem parte do BRICS, envolvendo recursos da ordem de US$ 1,5 bilhão, a maior parte deles em energia renovável.

Novo Banco de Desenvolvimento: realmente novo ou mais do mesmo?

A proposta de sustentabilidade do banco também se estende às formas de captação de recursos, com grande esforço para explorar mercados de bônus verdes, isto é, mecanismos destinados a gerar recursos para projetos que preservam ou recuperam o meio ambiente. Nesse sentido, o primeiro bônus, emitido em 2016 na China, foi um bônus verde de cinco anos, em yuan, no valor de 3 bilhões, o equivalente a cerca de US$ 450 milhões.

Também são listadas como conquistas a aprovação das políticas de empréstimo, as de tesouraria e administração de riscos, as salvaguardas ambientais e sociais, as políticas de recursos humanos e recrutamento, entre outras.

Passada essa fase inicial, a direção do Banco tem pretensões de por em marcha um processo gradual de ampliação do número de países membros, buscando transformar o NBD aos poucos em um banco global, que inclua nações de todas as regiões do mundo — países desenvolvidos, países de renda média e também países mais pobres.

Se é bem verdade que na sua primeira infância o Banco vem dando sinais de que é para valer, também é verdade que ainda enfrentamos inúmeros desafios em relação à sua implementação. Com efeito, o banco está imerso em enorme névoa que torna opaca e pouco transparente sua atuação.

Novo Banco de Desenvolvimento: realmente novo ou mais do mesmo?

O conceito de desenvolvimento sustentável utilizado pelo Novo Banco de Desenvolvimento é impreciso, e as políticas publicadas são vagas, sem referenciais claros para o monitoramento de todo o ciclo dos projetos – dos critérios de aprovação à execução e avaliação. Neste particular, o adjetivo “novo” que cunha o nome do banco nada tem de inédito. Em vez de erguer uma instituição financeira realmente preocupada em assegurar a inclusão socioambiental daqueles que serão beneficiados pela sua atuação, a partir de padrões internacionalmente acordados em espaços multilaterais de negociação, vê-se um organismo que afrouxa as condições de empréstimos. Os executivos do NBD[2] alegam que é preciso manter os custos baixos para ser mais competitivos, e oferecer serviços eficientes e céleres, com menos condicionalidades na concessão de empréstimos, para agilizar os processos de aprovação e, segundo eles, respeitar a soberania nacional dos países.

O NBD também não ousa quando se trata de incluir no seu cotidiano as vozes daquelas e daquelas que serão diretamente afetados pelos seus projetos. Não há qualquer sinal da institucionalização de mecanismos de participação social. A impressão que se tem é que o NBD é mais portador de velhas práticas do que promotor de iniciativas inclusivas, que efetivamente garantam o principal lema do Banco, a saber, o desenvolvimento sustentável.

Às margens do II Encontro Anual do Banco, organizações e movimentos da sociedade civil estão reunidos em Nova Déli para debater os rumos da instituição e elaborar propostas para seu aprimoramento. Aparentemente há brechas: importantes executivos do Banco, como os Vice-Presidentes Paulo Nogueira Batista Jr.[3] e Vladimir Kazbecov[4], estariam abertos ao diálogo. Reuniões foram realizadas em outras oportunidades e irão

acontecer novamente em paralelo ao II Encontro Anual do Banco. O principal desafio é o de instalar mecanismo formal de interação crítica no NBD, facilitando e fortalecendo a participação e o diálogo com movimentos e organizações da sociedade civil. Caso contrario, ficará evidente o novo banco, na verdade, é mais do mesmo.

Organizações da sociedade civil entregaram uma carta conjunta a dirigendes do Banco na abertura do II Encontro Anual da instituição, pedindo um rompimento com modelos de desenvolvimento que tenham impactos socioambientais negativos. Leia aqui em português e aqui em inglês.

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[1] A esse respeito, ver: http://www.ndb.int/projects/list-of-all-projects/

[2] A esse respeito, ver: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142016000300179

[3] Vice-Presidentes de Pesquisa Econômica, Estratégia, Parcerias e Riscos.

[4] Vice-Presidente de Recursos Humanos e Comunicação.

Coletivo da Cidade conta com sua ajuda para manter atendimento a jovens da Estrutural (DF)

O Coletivo da Cidade está em campanha para manter suas atividades de atendimento socioeducativo a crianças e adolescentes na Cidade Estrutural (DF) e conta com sua ajuda. Com custos mensais que chegam a R$ 20 mil, o Coletivo sofreu um grande baque no final do ano passado, devido a um roubo em que levaram praticamente todos os equipamentos e materiais da instituição. Com apoio de voluntários e instituições parceiras como o Inesc, o Coletivo da Cidade prosseguiu com suas atividades. Mas as doações são imprescindíveis.

“Tudo o que era possível passar por uma porta, eles levaram. Computadores, notebooks, utensílios de cozinha, eletrodomésticos”, lembra Jaqueline Sousa, coordenadora de atividades pedagógicas do Coletivo, em entrevista ao portal G1. Ela, porém, afirma que isso não vai impedir a continuidade do trabalho. “Podemos até reduzir as nossas atividades. Mas não vamos fechar. Nossa atividade é também de resistência.”

A instituição oferece atendimento educativo no período do contraturno escolar a crianças e adolescentes de 6 a 17 anos. Atualmente, são 120 pessoas beneficiadas em aulas de estimulo à literatura, artes plásticas, música e dinâmicas de cooperação, convivência e valorização do espaço.

No site e nas redes sociais – onde é possível obter informações como ser um voluntário e doar equipamentos –, os membros lançaram uma campanha para coletar material escolar. Objetivo é garantir material para 150 crianças e adolescentes.

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Jovens do Coletivo da Cidade descobrem o xadrez como atividade esportiva e educativa

Movimento Nossa Brasília vai revelar as muitas cidades da capital federal

As cidades, para serem vivas e democráticas, precisam oferecer mobilidade urbana de qualidade para seus cidadãos e cidadãs, e também incentivá-las a ocupar os espaços públicos, trocando ideias e experiências de como construir uma cidade mais justa, democrática e cidadã. Para isso, o Inesc incentiva e promove discussões temáticas sobre sustentabilidade, democracia, direitos, igualdade, raça, gênero, mobilidade, agricultura urbana e gestão solidária de resíduos sólidos.

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Guia explica como construir Mapas de Desigualdades para sua cidade

Qual o nível de desigualdade em sua cidade? O acesso a serviços públicos como transporte, saúde, educação e equipamentos culturais é amplo e democrático? O problema vai além da distribuição de renda e isso pode ficar claro na construção de um mapa de desigualdades. Para facilitar a vida de cidadãos, coletivos e instituições públicas, foi criado o Guia orientador para a construção de Mapas da Desigualdade nos municípios brasileiros , uma importante ferramenta para reunir indicadores sobre as questões existentes em seu município.

O guia mostra como a desigualdade se revela nos centros urbanos brasileiros, como abismos que separam regiões extremamente pobres de lugares que têm índices de países desenvolvidos. “É como se Japão e Serra Leoa convivesse lado a lado, inseridos no mesmo território.”

O Mapa da Desigualdade de São Paulo foi um dos primeiros a ser produzidos no Brasil. Elaborado há cinco anos pela Rede Nossa São Paulo, o mapa revela que 31 dos 96 distritos da cidade não têm leito hospitalar. Em 34, não há parques; em 36, não há bibliotecas. Quem mora em Cidade Tiradentes, na zona leste da capital paulista, tem um tempo médio de vida de 53,8 anos, enquanto que no Alto de Pinheiros, região nobre da zona oeste, o índice sobe para 79,6 anos.

No ano passado, foi produzido o Mapa das Desigualdades de Brasília, revelando que a capital federal tem oferta desigual de serviços e políticas políticas públicas, contribuindo para amplificar a distância entre o centro (Plano Piloto) e a periferia.

O Mapa das Desigualdades de Brasília foi elaborado pelo Movimento Nossa Brasília em parceria com o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e a Oxfam Brasil. Os dados foram levantados no IBGE, na Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) da Codeplan do DF, e no Fundo de Apoio à Cultura (FAC), também do DF.

Confira a íntegra do estudo Mapa das Desigualdades de Brasília 2016.

Leia também: Mapa das Desigualdades: cinema em Brasília é privilégio de quem mora no Plano Piloto

Todos os dados levantados alimentam a Plataforma Cidades Sustentáveis e são publicados online, ficando disponíveis para consulta e uso pela sociedade civil para incidência com o poder público em temas que envolvam direitos e políticas públicas nas cidades.

Todas as informações reunidas pelos mapas de desigualdades produzidos em diferentes cidades reforçam a importância do enfrentamento à desigualdade na esfera pública e a necessidade de políticas que priorizem os investimentos em locais que mais precisam de recursos.

A Plataforma Cidades Educadoras conversou com Clara Meyer, coordenadora de Indicadores do Programa Cidades Sustentáveis, sobre o desenvolvimento do Guia e produziu um passo a passo metodológico para as cidades interessadas em produzir seu Mapa da Desigualdade.

São sete passos, que vão do levantamento de indicadores e seleção dos dados por região da cidade ao cálculo do desigualtômetro e avaliação das regiões. Confira aqui.

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Brasil confessa na ONU que ajuste fiscal é mais importante do que direitos humanos

O governo brasileiro deu mais uma prova esta semana de que não mede consequências para levar adiante o ajuste fiscal em detrimento da garantia dos direitos de seus cidadãos. Em votação realizada quinta-feira (23/3) na Conselho de Direitos Humanos da ONU, o Brasil se colocou contra resolução que renovou o mandato da organização para monitorar impactos de políticas fiscais de cada país sobre os direitos humanos de seus cidadãos.

Mesmo com o voto contrário brasileiro, a resolução foi aprovada por 31 a 16. Com isso, o Brasil rompe alinhamento que tinha com países em desenvolvimento, que votaram em peso a favor da resolução, alinhando-se aos Estados Unidos, Reino Unido e outros países europeus. Nas três últimas votações da resolução na Conselho, em 2008, 2011 e 2014, o Brasil votou a favor.

Leia aqui a ata da reunião do Conselho que discutiu o assunto.

Baixe aqui o PDF da resolução (em inglês).

“O argumento de que o ajuste fiscal é necessário para continuar e aprofundar as políticas sociais não convence ninguém, nem aqui no Brasil nem na ONU”, afirma Alessandra Cardoso, assessora política do Inesc, que vê o voto brasileiro contra a resolução da ONU como uma “confissão internacional de que o ajuste fiscal estrutural que está sendo imposto de forma autoritária e antidemocrática à sociedade brasileira produzirá graves violações aos direitos humanos”.

O Brasil conta cada vez mais com a ONU e seus mecanismos de monitoramento do cumprimento dessa resolução aprovada e também no monitoramento do Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (Pidesc), do qual o Brasil é signatário desde 1992. “As violações aos direitos produzidas pelas políticas monetária e fiscal do governo Temer têm que ser avaliadas e denunciadas internacionalmente”, diz Alessandra.

Entre as orientações do Pidesc estão a realização progressiva de direitos dos cidadãos, o não retrocesso em direitos e que os países sejam obrigados a aplicar o máximo de recursos públicos para a realização de direitos. Saiba mais sobre o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (Pidesc) aqui.

O voto contrário do Brasil ocorre três meses após Philip Alston, relator especial da ONU para Extrema Pobreza e Direitos Humanos, afirmar em comunicado oficial que a emenda constitucional brasileira que propunha um teto de gastos públicos por 20 anos, à época em discussão no Congresso, colocaria o país numa categoria única no mundo em termos de retrocesso social.

Essa emenda constitucional foi aprovada em dezembro de 2016 e seus efeitos já podem ser sentidos no Orçamento de 2017: forte limite nas despesas com políticas públicas e programas sociais e mais espaço para liberação de recursos para o pagamento de juros da dívida.

Confira aqui a análise que fizemos do Orçamento deste ano à luz do teto de gastos.

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As múltiplas faces da desigualdade na América Latina e Caribe

O relatório “O Escândalo da Desigualdade: as múltiplas faces da desigualdade na América Latina e Caribe”, recém lançado pela Christian Aid, indica que a desigualdade na região baseada na identidade, gênero, situação econômica, mudanças climáticas continua sendo vergonhosa. As desigualdades se conectam e excluem as pessoas, impedindo um desenvolvimento sustentável.

A mulher carrega boa parte do peso das desigualdades na região. São elas que mais sofrem com a violência e os injustos sistemas fiscais. Apesar de muitas terem conseguido sair da pobreza, a desigualdade social se mantém e a região continua sendo a mais desigual do mundo para as mulheres.

Clique aqui para baixar o estudo em arquivo PDF.

Para nós, a justiça social significa uma sociedade mais equitativa, não apenas em termos financeiros, mas também em termos de capacidade das pessoas de exercer seus direitos, em políticas que incluam todas as pessoas e que ajudem a acabar com as desigualdades”, afirma Mara Manzoni Luz, diretora da Christian Aid para a América Latina e Caribe.

O relatório explora a identidade racial e étnica, e dá atenção especial à situação dos povos indígenas e das comunidades quilombolas, que são os mais afetados pela exclusão social e pelo racismo. Examina ainda o tema da desigualdade no contexto da violência de gênero, incluindo a violência sexual e o feminicídio, que fazem da América Latina uma das regiões mais violentas do mundo. Dos cinco países mais perigosos para as mulheres, quatro estão na região, sendo El Salvador o país com a maior taxa de homicídios de mulheres no planeta.

O relatório destaca ainda que a justiça fiscal pode ter um papel chave na redução da desigualdade, não apenas por meio das transferências de impostos, mas também com a implementação de sistemas fiscais progressivos, e o uso dos impostos para financiar serviços públicos universais, garantidos por sistemas mais justos e transparentes.

A sociedade civil tem um papel fundamental no combate das desigualdades e na pressão para que os governos prestem contas, além de exigirem mudanças e denunciarem as desigualdades e divulgarem o que vem sendo feito para superá-las.

O relatório aponta alguns caminhos necessários para enfrentar a desigualdade na América Latina e Caribe:

* Atacar urgentemente a desigualdade dos povos indígenas e quilombolas, garantindo o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS);

* Implementar medidas referentes ao controle do poder político, participação política e o acesso à terra;

* Enfrentar diretamente o crescente problema da violência e da violência de gênero, e suas interrelações com as desigualdades;

* Usar o sistema de impostos para combater a concentração de riqueza e permitir que a região autofinancie seu próprio desenvolvimento. Melhorar o acesso a empregos decentes para superar, de maneira sustentável, a pobreza e a desigualdade;

* Responder aos desafios impostos pelas mudanças climáticas e a necessidade urgente de se avançar para um desenvolvimento de baixo carbono.

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Las múltiples caras de la desigualdad en América Latina y El Caribe

Nuevo informe “El Escándalo de la Desigualdad: las múltiplas caras de la desigualdad en América Latina y el Caribe”, lanzado por Christian Aid, señala que la desigualdad en la región basada en la identidad, género, situación económica, cambio climático y ubicación geográfica sigue siendo vergonzosa. Las desigualdades se conectan y excluyen a las personas, impidiendo un desarrollo sostenible.

La mujer carga con el peso de las desigualdades en la región, son las mujeres quienes más sufren por la violencia, los sistemas fiscales se ensañan contra ellas, las mujeres tienen menos oportunidades a acceder a trabajos dignos y son las más afectadas por el cambio climático.

Desde la publicación del último informe de Christian Aid sobre la desigualdad en el 2012, la región ha experimentado algunos cambios positivos, pero a pesar de que muchos han salido de la pobreza, la riqueza y la desigualdad social se mantienen y la región continúa siendo la más desigual en el mundo.

“Para nosotros la justicia social significa una sociedad más equitativa, no sólo en términos financieros sino en términos de la capacidad de las personas de ejercer sus derechos, en políticas que incluyan a todas las personas y que ayuden a acabar con las desigualdades”, afirma Mara Manzoni Luz, Directora de Christian Aid para América Latina y El Caribe.

El informe explora la identidad racial y étnica y da atención especial a la situación de los pueblos indígenas y las comunidades afro-descendientes, quienes son los más afectados por la exclusión social y el racismo.

El informe examina el tema de desigualdad en el contexto de la violencia de género, incluidos la violencia sexual y el feminicidio, tan prevalentes en la región, hacen de América Latina una de las regiones más violentas del mundo.  De los cinco países más peligrosos para las mujeres, cuatro se encuentran en la región, siendo El Salvador el país con la mayor tasa de homicidios de mujeres en el planeta.

El informe destaca que la justicia fiscal puede jugar un papel clave en reducir la desigualdad, no sólo a través de las transferencias de impuestos, sino también con la implementación de sistemas fiscales progresivos, y la inversión de los ingresos fiscales en la provisión de servicios públicos universales garantizados por sistemas más justos y transparentes de inversión en los países.

Se destaca que la sociedad civil incluidas las organizaciones basadas en la fe y los movimientos sociales tienen un papel fundamental en combatir las desigualdades y en asegurarse que los gobiernos rindan cuentas, exijan cambios, denuncien las desigualdades y lo que se está haciendo para superarlas.

El informe insta a los gobiernos y la sociedad civil a:

• Abordar urgentemente la desigualdad de los pueblos indígenas y afro-descendientes, garantizando el cumplimiento de los Objetivos de Desarrollo Sostenible

• Implementar medidas referentes al control del poder político, participación política y al acceso a la tierra

• Desafiar directamente el creciente problema de la violencia y de la violencia de género y sus interrelaciones con las desigualdades

• Utilizar el sistema de impuestos para combatir la concentración de la riqueza y permitir que la región autofinancie su propio desarrollo.  Mejorar el acceso a empleos decentes para superar de forma sostenible la pobreza y la desigualdad

• Responder a los desafíos que presenta el cambio climático y la necesidad urgente de avanzar a un desarrollo bajo en carbono

Farsa en Brasil y elecciones en Ecuador

Publicado por Agencia Publica de Noticias del Ecuador y Sudamérica (Andes).

El 11 de marzo del presente año, cuatro días después de su gestión como Ministro de Relaciones Exteriores de Brasil, Aloysio Nunes Ferreira dio una entrevista al Blog de Josías. Ahí el nuevo canciller comparó el gobierno del presidente Nicolás Maduro con el régimen militar brasileño establecido después del golpe de 1964, dijo: “Es una dictadura con algunas zonas que aún se conservan, como hemos tenido aquí en el tiempo del autoritarismo en Brasil. Tenías espacios para la oposición utilizándolos para acumular fuerzas…”.

Dicha declaración pública de Aloysio Nunes Ferreira revela claramente la subordinación del actual gobierno de Brasil a las imposiciones del imperio de Estados Unidos. Al hacer coro con ese gobierno a los ataques y conspiraciones contra el régimen y pueblo venezolano no deja sombra de duda respecto a los intereses geopolíticos que guiaron a la derecha en la conspiración que resultó en el derrocamiento del gobierno de Dilma en Brasil en 2016.

Cuatro días después de dicha entrevista, el 15 de marzo, las calles del país fueron tomadas por las protestas contra la retirada de los derechos de los trabajadores en el Congreso Nacional a través de proyectos de reforma constitucional, en especial los relativos a la legislación laboral y seguridad social. Otras iniciativas similares del gobierno golpista de Temer están en curso, las mismas están destinadas a intensificar el despojo de los campesinos y pueblos indígenas.

La radiografía del gasto gubernamental revelada recientemente por INESC también no deja duda sobre el retroceso actual en el país “Aprobado en diciembre de 2016, la Propuesta de Enmienda Constitucional (PEC) 55/241 – ahora Enmienda Constitucional 95 (CE 95) – revela su esencia: limitar el gasto en políticas públicas y programas sociales para liberar recursos para el pago de intereses, priorizando al sistema financiero en lugar de los ciudadanos brasileños. Sus efectos ya son visibles en el presupuesto de 2017 y más recortes están por llegar”.

Los siguientes datos presentados por INESC, muestran claramente lo señalado:

Fuente: https://inesc.org.br/noticias/noticias-do-inesc/2017/marco/orcamento-2017-prova-teto-dos-gastos-achata-despesas-sociais-e-beneficia-sistema-financeiro

Las consecuencias de la farsa engendrada por la conspiración de la derecha golpista en Brasil no se detienen ahí. Un artículo escrito por Marcos Sergio Silva, publicado el 17 de marzo, muestra lo que ya se sabía: el secuestro de la política por el poder privado para el incremento de su patrimonio y la corrupción que les caracteriza, dicho artículo que fue censurado en los medios de comunicación, como muestra nos dice:

Los registros históricos nos indican que recursos para usos ilícitos ya financiaron el golpe militar de 1964 “(…) el dinero en efectivo del llamado ‘caja dos’ (ardides de contabilidad que tienen como propósito ocultar el soborno) alimentó el golpe militar de 1964 ‘Cada uno llevaba dos maletas, una en cada brazo. En total, seis maletas. (…) les pide que abran. Empezó una pelea, pero me miró y vio que era sólo dólar, dólar. Todo lleno de dólares (…) Un millón y 200.000 dólares’. La frase anterior fue dicha por el coronel retirado Erima Moreira Pinheiro en la Comisión de la Verdad de la Cámara Municipal de la ciudad de Sao Paulo el 18 de febrero de 2014. Según él, el dinero – una cantidad ajustada a los valores de hoy sería alrededor de R$ 9.5 millones – fue llevado el 30 de marzo de 1964 por el entonces presidente de la Fiesp (Federación de Industrias del Estado de São Paulo), Raphael de Souza Noschese para financiar el apoyo del general Amaury Kruel, que era el jefe del gabinete militar y ministro de la guerra de João Goulart, que también comandaba al 2º Ejército en Sao Paulo…”

Farsas similares a la que supuso el derrocamiento del gobierno de Dilma en Brasil se sigue replicando en “Nuestra América”. En el caso de Ecuador el discurso utilizado por la derecha contra “Alianza PAIS” repite lo utilizado por la derecha en Brasil. Ojalá que el pueblo ecuatoriano no se deje engañar por los “cantos de sirena” y siga adelante luchando para expandir los logros conquistados en el curso de su heroica resistencia contra el neoliberalismo y neocolonialismo y las fracciones de clase subordinadas a las élites financieras.

Elder Andrade de Paula, es post doctorado en Sociología del Desarrollo de la Universidad Nacional Autónoma de México – UNAM, Profesor e Investigador de la Universidad Federal de Acre, Coordinador del Centro de Investigación: Sociedad Estatal de Desarrollo para la Amazonía occidental. Su accionar se centra en las luchas por la tierra / territorio en la Amazonía desde 1984.

Elder Andrade de Paula,  é Pós Doutor em Sociologia do Desenvolvimento pela Universidad Nacional Autónoma de México – UNAM, Prof e Pesquisador da Universidade Federal do Acre, Coordenador do Núcleo de Pesquisa: Estado Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental. Atua junto às lutas de resistência por terra/território na Amazônia desde 1984.

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