O número de candidaturas coletivas nas eleições gerais caiu 73% entre 2022 e 2026, passando de 215 para 58 casos confirmados. A participação desse formato no conjunto das candidaturas também recuou, de 0,80% para 0,28%. A queda foi muito superior à redução de 24,2% registrada no universo total de candidaturas no mesmo período, de 26.979 para 20.448. Os dados integram estudo do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), em parceria com o CommonData, e mostram a maior retração já registrada pela série histórica acompanhada pelas organizações.
A pesquisa considera como coletivas aquelas em que há proposição prévia de divisão do cargo político por dois ou mais cocandidatos(as), identificáveis em materiais de campanha, nas redes sociais e/ou em matérias produzidas pelos partidos políticos ou por veículos de comunicação. Em 2026, 275 registros foram inicialmente selecionados pelos marcadores da metodologia. Após a checagem, 51 foram confirmados e outros sete casos foram identificados por busca ativa, chegando a pelo menos 58 candidaturas coletivas.
“A retração das candidaturas coletivas é muito mais intensa do que a queda observada no conjunto das candidaturas. O dado mostra que houve um enfraquecimento específico desse formato entre dois pleitos gerais comparáveis. A pesquisa, porém, não permite atribuir esse movimento a uma causa isolada”, afirma Carmela Zigoni, assessora política do Inesc.
Mulheres deixam de ser maioria, mas coletivas seguem mais diversas
A redução também alterou o perfil das pessoas que encabeçam as candidaturas. Pela primeira vez na série, as mulheres deixaram de ser maioria: representavam 51,6% das cabeças de chapa em 2022 e passaram a 46,5% em 2026. Em números absolutos, as candidaturas coletivas lideradas por mulheres caíram de 111 para 27, recuo de 75,7%, enquanto as lideradas por homens passaram de 104 para 31, queda de 70,2%.
Mesmo com essa mudança, as coletivas continuam registrando presença proporcionalmente maior de mulheres e pessoas negras do que o conjunto das candidaturas de 2026. As mulheres representam 46,5% das cabeças de chapa coletivas, ante 34,8% no universo geral. Entre pessoas negras, a diferença é de 60,3% contra 49,8%.
No cruzamento entre gênero e raça, homens brancos passaram a ser o maior grupo isolado, com 13 candidaturas, ou 22,4%. Mulheres pretas aparecem logo depois, à frente de 12 candidaturas, ou 20,7%. No conjunto de todas as candidaturas, homens brancos representam 32,7% e mulheres pretas, 6%. Nas coletivas, portanto, a distância entre esses dois grupos é muito menor.
“Pelo que os dados mostram, uma estratégia que surge por iniciativa de mulheres, LGBTs, pessoas negras e indígenas para ganhar maior competitividade na disputa eleitoral, unindo forças e pautando a coletividade, foi incorporada justamente por aqueles que sempre tiveram maior vantagem nas disputas, ou seja, os homens brancos com mais de 40 anos”, avalia Carmela.
Sete em cada dez estão em partidos de esquerda
A esquerda continua sendo o principal espaço partidário das candidaturas coletivas, embora tenha perdido participação relativa. Em 2022, reunia 166 casos, ou 77,2% do total. Em 2026, são 41, equivalentes a 70,7%. O centro passou de 8,4% para 12,1% e a direita, de 14,4% para 17,2%. O avanço dos dois últimos campos é proporcional: em números absolutos, todos os espectros registraram queda.
O PSOL lidera entre as legendas, com 12 candidaturas, ou 20,7% do total, seguido pelo PT, com nove (15,5%). Juntos, os dois partidos concentram 36,2% dos casos identificados. PDT, PSB e PSTU têm quatro candidaturas cada; PCdoB e UP, três. Ao todo, as candidaturas coletivas aparecem em 19 dos 30 partidos registrados no TSE. Em 2022, estavam presentes em 22 legendas.
Nordeste lidera; São Paulo e Maranhão concentram um terço dos casos
O Nordeste reúne 20 das 58 candidaturas coletivas de 2026, ou 34,5%, e mantém a liderança observada nas eleições gerais de 2022. O Sudeste aparece em seguida, com 14 casos (24,1%), seguido pelo Norte, com dez (17,2%), Sul, com oito (13,8%), e Centro-Oeste, com seis (10,3%). Em números absolutos, todas as regiões registraram menos candidaturas do que em 2022.
Na distribuição por unidade da Federação, São Paulo lidera com 11 candidaturas, equivalentes a 19% do total, seguido pelo Maranhão, com nove (15,5%). Bahia e Pará têm cinco cada (8,6%), enquanto Distrito Federal e Rio Grande do Sul registram quatro casos (6,9% cada). As candidaturas coletivas foram identificadas em 19 das 27 unidades da Federação.
58 candidaturas mobilizam 272 pessoas
O número de pessoas envolvidas ajuda a dimensionar o alcance do formato para além da candidatura formal. Os 58 grupos identificados reúnem 272 participantes. Além das 58 cabeças de chapa registradas no TSE, outras 214 pessoas participam como cocandidatas. A média é de 4,7 integrantes por candidatura, acima dos 3,9 observados nas eleições gerais de 2022.
“A redução do número de candidaturas não ocorreu na mesma proporção da capacidade de mobilização dos grupos. Há menos candidaturas confirmadas, mas cada uma reúne, em média, mais pessoas do que em 2022. É um dado importante para compreender a dimensão coletiva para além de quem aparece formalmente no registro”, destaca a assessora política do Inesc.
Cabeças de chapa têm escolaridade mais alta e perfil mais velho
Em 2026, 67,2% das pessoas que encabeçam candidaturas coletivas têm ensino superior completo. Somadas às que possuem superior incompleto, 77,6% tiveram alguma experiência nesse nível de ensino. Apenas 22,4% não ingressaram no ensino superior.
O perfil etário também mudou. A média de idade é de 47,1 anos e 53,4% das cabeças de chapa terão entre 46 e 65 anos na data da posse. A pessoa mais jovem terá 21 anos, caso seja eleita, e a mais velha, 80. Entre 2020 e 2026, a participação de pessoas com até 35 anos recuou 14,5 pontos percentuais, enquanto a proporção das que têm 56 anos ou mais aumentou 17,2 pontos.
Nome de urna é a principal vitrine da identidade coletiva
A análise dos nomes de urna mostra que 31 das 58 candidaturas, ou 53,4%, utilizam “coletivo”, “coletiva” ou formas aglutinadas. A palavra “bancada” aparece em nove casos (15,5%). Quando entram também expressões como “chapa”, “mandato”, “mandata” e “frente”, 42 candidaturas, equivalentes a 72,4%, apresentam ao menos uma referência explícita à organização coletiva.
Há, porém, seis casos, ou 10,3%, em que o nome de urna não faz referência à dimensão coletiva. A taxa de confirmação dos registros inicialmente selecionados também caiu: era de 40,9% em 2022 e passou para 21,1% em 2026, mesmo com a manutenção dos descritores, procedimentos de busca e critérios de validação. O estudo ressalta que essa diferença não autoriza atribuir às pessoas candidatas a intenção de simular um arranjo coletivo.
Nas redes sociais, 31 candidaturas (53,4%) utilizam perfis criados especificamente para os coletivos, enquanto 27 (46,6%) têm perfis individuais como principal referência. Segundo a pesquisa, são estratégias distintas de construção de visibilidade e não permitem, por si só, medir o grau de compartilhamento interno das decisões.
Formato segue sem categoria jurídica autônoma
A pesquisa também destaca a distância entre a organização coletiva na prática política e a estrutura do registro eleitoral. A Justiça Eleitoral permite que a pessoa candidata acrescente ao nome de urna a designação de um grupo ou coletivo social, mas o registro continua individual. Em abril de 2026, o TSE reafirmou que não há previsão legal expressa para candidaturas coletivas e que as etapas do processo eleitoral têm como parâmetro a candidatura individual.
O estudo situa a retração de 2026 nesse ambiente de indefinição jurídica, mas ressalta que os dados não permitem estabelecer relação causal entre a ausência de regulamentação e a redução das candidaturas. A série descreve mudanças e tendências, sem determinar os motivos das decisões tomadas por partidos, candidatos ou coletivos.
Metodologia
O levantamento utiliza dados do repositório do Tribunal Superior Eleitoral acessados em 16 de agosto de 2026, às 12h30. A pesquisa dá continuidade à série produzida pelo Inesc e pelo CommonData nas eleições de 2020, 2022 e 2024. Para a comparação principal, o estudo considera 2022 e 2026, por serem eleições gerais; os pleitos municipais de 2020 e 2024 são usados como referência histórica.
Foram analisados os 20.448 nomes de urna disponíveis no repositório do TSE. A partir dos marcadores definidos pela metodologia, 275 registros foram classificados como potenciais candidaturas coletivas. A confirmação exigiu evidências públicas de divisão da candidatura ou do mandato entre duas ou mais pessoas identificáveis como cocandidatas. Ao final, foram confirmados pelo menos 58 casos. Como a Justiça Eleitoral não possui campo específico para registrar a coletividade, o número corresponde às candidaturas para as quais a pesquisa conseguiu reunir evidências públicas suficientes.
