“Padronizar. Sinônimo elegante de apagar. Apagar uma cultura, uma identidade, uma tradição, uma história inteira escrita nas mãos, na fala e nos costumes. Há quem diga que melhora. Há quem diga que é progresso, que o certo é caber na mesma forma, na mesma língua, na mesma maneira de existir.” O trecho do poema ‘Apagar uma História” foi lido pela jovem Evelyn Oliveira, no lançamento do livro “Conservadorismos e Militarização da Escola Pública: desafios para a educação brasileira”.
Fruto de iniciativa do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e da Rede Nacional de Pesquisa sobre Militarização da Educação (RePME), a publicação foi lançada nesta terça-feira (29/9) no Memorial Darcy Ribeiro, na Universidade de Brasília. Publicada pela editora Mercado de Letras, a obra tem 468 páginas e reúne pesquisas, análises e relatos de pesquisadoras e pesquisadores, profissionais da educação, ativistas e estudantes de diferentes regiões do Brasil.
O livro aprofunda o debate sobre a militarização das escolas públicas e seus impactos sobre a educação, a gestão democrática, o trabalho docente e os direitos de crianças e adolescentes. E também dá continuidade aos debates realizados no II Seminário Nacional “Conservadorismos e Militarização da Escola Pública: desafios para a educação brasileira”, promovido pelo Inesc e pela RePME, em maio passado, também na Universidade de Brasília (UnB).
O que é o livro?

Organizado pela assessora política do Inesc, Cleo Manhas, e pelas pesquisadoras Catarina de Almeida Santos, da RePME, e Miriam Fábia Alves, da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), o livro investiga diferentes dimensões da militarização das escolas públicas no país. O prefácio é da pesquisadora Iana Gomes de Lima.
O ponto de partida da obra é uma pergunta feita por um estudante de 14 anos à mãe: “Pra que ir para a escola se eu vou ser tirado de sala?” O adolescente estudava em uma escola pública militarizada do Distrito Federal e, segundo o relato apresentado na introdução, passou a ser frequentemente retirado das aulas após a chegada dos agentes militares à instituição.
A publicação, que contou com financiamento do Fundo Malala, discute como a adoção de normas, hierarquias, rituais e mecanismos de vigilância inspirados na cultura militar interfere no cotidiano escolar e reproduz preconceitos e injustiças.
“Abrimos um edital de chamamento e recebemos artigos de pesquisadores de vários estados, que enriqueceram a obra com experiências de militarização de escolas públicas de todo Brasil”, apontou Cleo Manhas.
“Esse livro significa um projeto de vida, um projeto de luta por um mundo onde caibam todos os corpos, todas as pessoas, todas cores e todas as vidas”, ressaltou Catarina Santos no lançamento.
“Sai agora um livro e sai no momento certo para a gente divulgar e difundir esse tema”, acrescentou Miriam Fábia.
Militarização vai além da gestão das escolas
Um dos aspectos analisados pelo livro é que a militarização das escolas públicas não se resume à presença de policiais, bombeiros ou militares da reserva na administração das unidades.
Ela também aparece em regras sobre como estudantes devem se vestir, cortar o cabelo, circular pela escola, dirigir-se às autoridades e expressar suas identidades.
Os capítulos discutem como essas práticas podem alterar as relações dentro do ambiente escolar e confrontam o modelo militarizado com princípios previstos na Constituição Federal, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
A publicação também questiona a chamada “gestão disciplinar”, utilizada para justificar a atuação de agentes de segurança no controle do comportamento, da aparência e da rotina de estudantes, apesar de essa categoria não integrar a legislação educacional brasileira.
Conservadorismos e militarização
A publicação dedica ainda uma parte às relações políticas, econômicas e religiosas envolvidas na expansão das escolas militarizadas. Os capítulos analisam a relação entre o crescimento desse modelo e agendas neoliberais e neoconservadoras, além de discursos que associam problemas de violência no ambiente escolar a uma suposta crise de autoridade e de valores.
A discussão busca compreender a militarização não como uma mudança isolada na gestão escolar, mas como parte de transformações mais amplas que afetam a concepção de educação pública e o papel da escola na formação cidadã.
Experiências de estudantes com a militarização das escolas públicas
A parte final do livro abre espaço para as vozes de estudantes. Três jovens relatam a mobilização contra a implantação de escolas cívico-militares em Minas Gerais, em 2025.
Eles contam como pesquisaram o programa, consultaram documentos oficiais, produziram vídeos, organizaram manifestações e mobilizaram estudantes, professores e familiares.
Os relatos reforçam um dos aspectos centrais da publicação: crianças, adolescentes e jovens não são apenas pessoas afetadas pelas mudanças no modelo de gestão das escolas, mas sujeitos que participam do debate sobre os rumos da educação pública.
Acesso gratuito
A primeira tiragem da versão impressa teve 400 exemplares, encontrados apenas em Brasília. Mas é possível ter acesso completo à versão digital. Acesse aqui!
