A transição para um novo modelo de geração e consumo de energia é uma das principais respostas à crise climática. Mas como garantir que essa transformação não reproduza as desigualdades existentes?
Essa é uma das perguntas que orientam o podcast “Justiça na Transição Energética”, que estreia no dia 7 de outubro e terá oito episódios, publicados semanalmente até 25 de novembro. A série é uma realização do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e do Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS), com participação de pesquisadores, especialistas e representantes da sociedade civil.
O podcast nasce do projeto Justiça na Transição Energética, que busca promover uma reflexão crítica sobre o modelo energético vigente e seus impactos nos territórios. Embora a expansão das fontes renováveis seja necessária para enfrentar o aquecimento global, grandes empreendimentos de geração de energia, produção de combustíveis e extração mineral podem reproduzir problemas já conhecidos: conflitos por terra, expulsão de comunidades, racismo ambiental, violação de direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais, precarização do trabalho e concentração de benefícios econômicos.
“Fazer a transição energética não significa apenas substituir uma fonte de energia por outra. É preciso discutir quem produz, quem se beneficia, quem paga os custos e quem participa das decisões. É uma questão central que atravessa a série”, explica a jornalista e apresentadora do podcast, Tatiane Matheus.
Ao longo dos episódios, o podcast aborda temas como justiça energética, geopolítica, tarifas de energia, financiamento climático, trabalho, estratégias de mobilização social , litigância climática e hidrogênio de baixo carbono. “A proposta é ampliar o debate sobre os caminhos possíveis para uma transição energética que seja não apenas de baixo carbono, mas também socialmente justa, democrática e comprometida com os direitos dos territórios”, informa o assessor político do Inesc, Rarisson Sampaio.
O que significa uma transição energética justa?
A urgência climática colocou a expansão das energias renováveis no centro das políticas de enfrentamento ao aquecimento global. No entanto, uma verdadeira transição energética envolve muito mais do que a substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis.
“A crescente demanda por minerais, a instalação de usinas eólicas e solares, a construção de linhas de transmissão e o desenvolvimento de novas cadeias produtivas podem gerar impactos sobre comunidades e territórios. Sem participação efetiva das populações afetadas e sem mecanismos capazes de distribuir os benefícios e os custos da transição, existe o risco de reproduzir velhas desigualdades em nome de uma economia de baixo carbono”, acrescenta Bruno Milanez.
O projeto Justiça na Transição Energética busca justamente fortalecer a articulação entre movimentos sociais, comunidades tradicionais, povos indígenas e organizações da sociedade civil, como ONGs, sindicatos e instituições de pesquisa. A iniciativa também procura ampliar a capacidade de incidência política e contribuir para a construção de uma narrativa comum sobre o que significa uma transição energética justa no Brasil.
Como parte desse esforço, o projeto fomenta o Observatório da Transição Energética, plataforma realizada e produzida em parceria com a Repórter Brasil, que reúne informações sobre empreendimentos e territórios afetados pela expansão da infraestrutura energética e das cadeias relacionadas à transição.
Oito episódios para entender a transição energética
A primeira temporada do podcast terá oito episódios, publicados semanalmente:
07/10 — Episódio 1 | O que é Justiça na Transição Energética?
Com Rárisson Sampaio, Bruno Milanez e Tatiane Matheus, o episódio apresenta os conceitos fundamentais de justiça e transição energética e discute por que a transformação do sistema energético precisa considerar as desigualdades existentes nos territórios.
Ouça agora:
14/10 — Episódio 2 | Geopolítica da transição energética
Com o engenheiro Nicolás Malinovsky (UFABC), o episódio aborda a disputa internacional por recursos, tecnologias e poder associada à transição energética e o papel da América Latina nesse cenário.
21/10 — Episódio 3 | Energia, tarifas e justiça socioambiental
Com Clarice Ferraz (UFRJ), a discussão aborda o acesso à energia, as tarifas e as desigualdades que estruturam o sistema energético.
28/10 — Episódio 4 | Financiamento climático
Com Alessandra Cardoso (Inesc), o episódio discute o financiamento da transição energética e os interesses envolvidos na mobilização de recursos para enfrentar a crise climática.
04/11 — Episódio 5 | Trabalho e transição energética justa
Com Cloviomar Cararine (DIEESE), a conversa aborda os impactos da transição sobre trabalhadores e trabalhadoras e os desafios para garantir trabalho decente e direitos nesse processo.
11/11 — Episódio 6 | Mobilização social e defesa dos territórios
Com Luiz Jardim (UFJF), o episódio apresenta a cartografia social como ferramenta de organização, produção de conhecimento e defesa dos territórios.
18/11 — Episódio 7 | Litigância climática para uma transição energética justa
Com Rhavena Madeira (Filha do Sol), a discussão aborda o papel da litigância climática na defesa de direitos e na disputa por uma transição energética mais justa.
25/11 — Episódio 8 | Hidrogênio de baixo carbono na transição energética
Com Flávia Collaço (USP), o episódio discute as possibilidades, os desafios e os impactos associados à expansão do hidrogênio de baixo carbono no Brasil.
