Direita conquista 61,7% dos cargos eleitos; mulheres ficam com apenas 20,7% das vagas em 2026

21/10/2026, às 17:15 (updated on 21/10/2026, às 17:20) | Tempo estimado de leitura: 8 min
Estudo do Inesc e do CommonData aponta que homens brancos representam 55,9% dos eleitos no primeiro turno, enquanto pessoas negras são 29,7%; PL lidera com 357 representantes

A direita elegeu 1.016 representantes no primeiro turno das eleições de 2026, o equivalente a 61,7% dos 1.646 eleitos, segundo o levantamento “Perfil dos Eleitos (1º Turno)”, realizado pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) em parceria com o CommonData. O estudo revela que a predominância de partidos de direita ocorre em paralelo à sub-representação de mulheres e pessoas negras: homens brancos ocupam 920 vagas (55,9%), enquanto as mulheres conquistaram 340 (20,7%) e pessoas pretas e pardas, juntas, 488 (29,7%).

O levantamento utiliza dados do repositório do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), consultados em 5 de outubro de 2026, às 10h14min11s, e considera 19.972 candidaturas aptas. Ao todo, 8,2% dessas candidaturas foram eleitas. A pesquisa examina o perfil dos eleitos por gênero, cor/raça, espectro político e partido, entre outros recortes.

Pouca diversidade entre os eleitos

As mulheres responderam por 35,1% das candidaturas, mas por apenas 20,7% dos eleitos. Entre as candidaturas femininas, 4,8% resultaram em eleição, ante 10,1% das masculinas. Isso significa que, proporcionalmente, os homens tiveram cerca de 2,1 vezes a chance de eleição das mulheres. Embora a participação feminina entre os eleitos tenha crescido de 17,8% em 2022 para 20,7% em 2026, a desigualdade permanece expressiva. Entre os 20 governadores contabilizados na tabela geral do levantamento, somente uma é mulher.

“Os números mostram que a desigualdade não está apenas em quem se candidata, mas principalmente em quem consegue transformar a candidatura em mandato. Quando mulheres representam mais de um terço das candidaturas e ocupam apenas uma em cada cinco vagas, fica evidente que a participação política ainda enfrenta barreiras profundas”, avalia Carmela Zigoni, assessora política do Inesc.

O recorte racial também revela diferenças expressivas. Pessoas brancas representam 50,1% das candidaturas e 69,6% dos eleitos. Entre as candidaturas de pessoas brancas, 11,4% resultaram em eleição, ante 5,7% das candidaturas de pessoas pardas e 3,3% das de pessoas pretas. Em outras palavras, candidaturas de pessoas brancas tiveram aproximadamente o dobro da chance de eleição das de pessoas pardas e 3,4 vezes a chance das de pessoas pretas. Pretos e pardos, somados, respondem por 48,4% das candidaturas e 29,7% dos eleitos.

Na intersecção de gênero e raça, homens brancos somam 920 eleitos (55,9%); 13,7% de suas candidaturas resultaram em eleição. Mulheres pardas, por sua vez, somam 69 eleitas (4,2%), com 2,9% das candidaturas eleitas. Isso equivale a uma chance de eleição aproximadamente 4,7 vezes maior para homens brancos do que para mulheres pardas. Mulheres pretas são 41 (2,5%) e homens pretos, 49 (3,0%). O estudo registra ainda oito pessoas indígenas eleitas no recorte de cor/raça.

“A combinação entre gênero e raça torna as desigualdades ainda mais visíveis. A participação dos homens brancos entre os eleitos é muito superior à de mulheres pardas e pretas. Não basta observar o número total de candidaturas: é fundamental analisar quais grupos conseguem efetivamente chegar aos espaços de decisão”, afirma a assessora política do Inesc.

Direita concentra quase dois terços dos eleitos; PL tem maior bancada

Na classificação político-ideológica adotada pela pesquisa, os partidos de direita elegeram 1.016 representantes (61,7%) para todos os cargos, enquanto a esquerda conquistou 406 vagas (24,7%) e o centro, 224 (13,6%). A direita representa 65,3% dos eleitos para a Câmara dos Deputados, 63% dos senadores eleitos e 75% dos governadores considerados pelo estudo.

A classificação político-ideológica utilizada pelo levantamento tem como referência o estudo de Sardinha e Costa (2019), publicado pelo Congresso em Foco, com atualização da nomenclatura de partidos que mudaram de nome desde então. Essa metodologia distribui as legendas entre direita, centro e esquerda, sem distinguir a extrema direita como categoria própria. Assim, o percentual de 61,7% corresponde ao conjunto de partidos classificados como de direita e não representa uma medida específica da presença da extrema direita entre os eleitos.

O PL lidera o ranking partidário, com 357 eleitos (21,7%), seguido por PT, com 220 (13,4%), e MDB, com 156 (9,5%). O PL elegeu 207 deputados estaduais, 121 deputados federais, 19 senadores, cinco governadores e cinco deputados distritais. A pesquisa também registra que os 19 senadores eleitos pelo partido elevam sua bancada total a 28 das 81 cadeiras do Senado.

Assembleias e outras candidaturas revelam concentração da representação

Nas Assembleias Legislativas e na Câmara Legislativa do Distrito Federal, 632 dos 1.059 eleitos são de partidos classificados como de direita (59,7%). Homens brancos representam 578 cadeiras (54,6%). O estudo aponta que a Assembleia Legislativa do Acre não terá nenhuma mulher e que a de Santa Catarina será composta exclusivamente por pessoas brancas, com 87,5% de homens brancos.

O levantamento identificou 90 eleitos com nomes de urna associados a patentes ou ocupações militares e de forças de segurança, dos quais 85 (94,44%) são de direita. Entre os eleitos com nomes de urna que fazem referência religiosa, foram identificados 11 homens. Duas candidaturas coletivas foram eleitas em São Paulo, ambas do PSOL e encabeçadas por mulheres pretas.

“Os resultados mostram a predominância dos partidos classificados como de direita, mas essa categoria não dá conta, sozinha, das diferenças políticas que ganharam destaque no segundo turno. O estudo adota uma metodologia que não separa direita e extrema direita. Nas considerações finais, chamamos a atenção para o avanço da extrema direita, associado ao bolsonarismo, e para os desafios que esse cenário coloca à democracia e à agenda de direitos humanos nos próximos quatro anos”, avalia Carmela Zigoni, assessora política do Inesc.

Sobre o estudo

“Perfil dos Eleitos (1º Turno)” é um levantamento realizado pelo Inesc e pelo CommonData a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral. Para classificar os partidos por espectro político-ideológico, utiliza como referência o estudo de Sardinha e Costa (2019), publicado no Congresso em Foco, com atualização de nomenclaturas partidárias. O recorte considera direita, centro e esquerda, sem uma categoria separada para extrema direita. As disputas de segundo turno estão previstas para 25 de outubro de 2026.

>>> Leia também: Perfil das candidaturas – eleições 2026

Categoria: Notícia
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