A Convenção do trilhão de dólares

Entre os dias 2 e 13 de fevereiro de 2026, ocorreu na sede das Nações Unidas, em Nova York, a quarta rodada de negociações para a criação da Convenção-Quadro da ONU sobre Cooperação Tributária Internacional (UNFCITC, na sigla em inglês).

Participaram 137 países, dos 197 que integram a Assembleia Geral das Nações Unidas, empenhados na construção de um novo sistema tributário global, mais justo e progressivo, capaz de mobilizar recursos para enfrentar as desigualdades sociais e a crise climática que afeta o planeta. Embora avanços tenham sido alcançados, ainda há um longo caminho até a conclusão da Convenção, prevista para 2027.

A iniciativa se contrapõe ao atual modelo de governança tributária internacional, estruturado pelos países do Norte Global e centrado na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que tende a favorecer as nações desenvolvidas.

Nesse contexto, o Grupo Africano, em articulação com outros países do Sul Global, levou o tema para o âmbito das Nações Unidas e passou a liderar as negociações da Convenção, organizadas em três grupos de trabalho: um dedicado ao texto da convenção propriamente dita; outro voltado à elaboração de um protocolo sobre a tributação de serviços transfronteiriços em economias cada vez mais digitalizadas; e um terceiro responsável por um segundo protocolo, focado na prevenção e resolução de disputas tributárias.

O Inesc, integrante da coordenação da Rede de Justiça Fiscal para a América Latina e o Caribe, que, por sua vez, compõe a Aliança Global pela Justiça Fiscal, participou ativamente dessa quarta rodada de negociações em Nova York, realizando intervenções no plenário e contribuindo em eventos paralelos organizados pela sociedade civil.

Segundo Nathalie Beghin, do colegiado de gestão do Inesc, “as negociações entraram em uma fase decisiva; o processo está se intensificando com propostas importantes em debate, que vão desde a tributação dos super-ricos até a distribuição justa dos direitos tributários”.

A seguir, apresentamos um resumo dos principais pontos debatidos durante as negociações:

Países desenvolvidos x países em desenvolvimento

Os países desenvolvidos — minoria na ONU e pouco interessados em alterar o atual modelo de governança, já que buscam preservar privilégios historicamente acumulados — têm atuado para manter o status quo. Nesse contexto, reiteram que a nova Convenção não pode desconsiderar os avanços obtidos nos acordos firmados no âmbito da OCDE e defendem que os compromissos sejam definidos por consenso, e não por votação.

Já os países em desenvolvimento destacam que, no modelo atual, são os que mais perdem: deixam de arrecadar volumes significativos de recursos públicos em razão de práticas de abuso fiscal e de regras assimétricas. Assim, por exemplo, multinacionais sediadas no Norte Global, que enriquecem com a extração de recursos naturais do Sul ou com a prestação de serviços digitais às suas populações, pagam muito poucos impostos nos países em desenvolvimento, onde efetivamente geram riqueza.

Isto acontece porque o atual sistema tributário privilegia o pagamento de tributos nos países

onde a empresa tem sede, o que ocorre, frequentemente, em paraísos fiscais. O mesmo acontece com pessoas muito ricas, que engordam suas fortunas com atividades no Sul, mas conseguem contratar escritórios especializados que organizam sofisticados mecanismos para driblar impostos.

Por mais transparência e regras justas

Outro desafio enfrentado pelos países em desenvolvimento diz respeito à falta de transparência. De modo geral, as nações desenvolvidas não compartilham informações sobre empresas ou pessoas que declaram impostos em suas jurisdições, mesmo quando os lucros ou fortunas se originam no Sul Global. E, quando o fazem, são informações incompletas ou pouco úteis.

Além disso, os mecanismos de arbitragem internacional existentes –  que teoricamente visam resolver conflitos tributários, como, por exemplo, uma empresa multinacional que questiona um tributo de um país em desenvolvimento –  acabam penalizando as nações do Sul Global. Isso é resultado das assimetrias de poder político, técnico e financeiro, dos custos elevados dos processos e da prevalência de regras que favorecem investidores estrangeiros em detrimento dos Estados.

Na prática, esses sistemas drenam bilhões de dólares dos cofres públicos desses países, comprometem sua capacidade de cobrar impostos justos e restringem sua soberania para regular investimentos em favor do desenvolvimento.

A Convenção do trilhão de dólares

Por tudo isso, a Convenção é chamada pela sociedade civil da “Convenção do Trilhão de Dólares”, pois em decorrência de novas regras internacionais, mais justas, progressivas e inclusivas, seria possível mobilizar novos recursos públicos para o enfrentamento das múltiplas questões sociais e climáticas que assolam o planeta atualmente.

Apesar dos avanços, persistem preocupações no âmbito da sociedade civil, especialmente quanto à falta de transparência do processo e ao risco de que a Convenção resulte em um instrumento pouco ambicioso. Nos intervalos entre as sessões presenciais, os países seguem negociando em reuniões virtuais fechadas, das quais a sociedade civil não pode participar — o que é motivo de preocupação.

A pressão constante dos países mais ricos para que a Convenção preserve, em grande medida, as regras atuais pode acabar esvaziando seu potencial transformador e resultando em uma peça pífia. Esse posicionamento do Norte Global é, no mínimo, contraditório, já que essas nações também poderiam ampliar sua arrecadação com novas regras mais justas, uma vez que igualmente sofrem com práticas de abuso fiscal por parte de multinacionais e indivíduos super-ricos.

Na quinta rodada de negociações que acontecerá na primeira quinzena de agosto, na ONU, em Nova York, serão discutidas as primeiras versões dos textos da Convenção e dos dois protocolos. O Inesc continuará envolvido nesse processo histórico, que tem potencial para equilibrar relações de poder e pôr em marcha uma estrutura tributária capaz de mobilizar recursos públicos novos para o financiamento da realização dos direitos humanos em todo o mundo, incluindo o financiamento das mudanças climáticas.

 

Podcast dá voz às juventudes periféricas do DF

Juventudes periféricas do Distrito Federal são as protagonistas de um novo podcast Quem fez o Mapa, que apresenta histórias, aprendizados e reflexões construídas a partir da participação no projeto Mapa das Desigualdades, desenvolvido pelo Inesc. A série reúne relatos de jovens que passaram pelo processo formativo do projeto e compartilham suas vivências, perspectivas e expectativas sobre o uso do Mapa em seus territórios.

Os depoimentos revelam não apenas o aprendizado técnico sobre orçamento público e desigualdades sociais, mas também experiências marcantes de troca, fortalecimento coletivo e reconhecimento do próprio papel como agente de transformação.

Ao longo dos episódios, as juventudes refletem sobre o que foi mais significativo durante a formação e apontam como o Mapa das Desigualdades pode contribuir para o enfrentamento das desigualdades em suas comunidades. A ferramenta é apresentada como um instrumento estratégico para compreender a realidade local, fortalecer a incidência política e ampliar a participação social na defesa de direitos.

O podcast reforça o compromisso do Inesc com o fortalecimento do protagonismo das juventudes periféricas do DF, valorizando suas vozes, saberes e experiências. A iniciativa também evidencia a importância da apropriação de dados e do orçamento público como caminhos para a construção de políticas mais justas e conectadas com as realidades dos territórios.

O projeto ‘Mapa das desigualdades: formação e incidência por transparência e redução das desigualdades’ é apoiado pelo Fundo Distrital de Combate à Corrupção, Termo de Fomento Nº 01/2024.

Ouça os episódios:

Sara Lisboa (Ceilândia)

Pedro Rios (Riacho Fundo II)

Paulo Henrique (Estrutural)

Nayane Cruz (Ceilândia)

MC Maju (Mangueiral, Gama, Samambaia)

Victor Queiroz (Paranoá)

Camila Rodrigues (Sobradinho)

Gabriel Lopes (Samambaia)

Leticia Sales e Victor Cardoso (Itapoã)

Micaele Melo (Taguatinga)

 

Por que tem sido tão importante falar sobre a ditadura no cinema?

O Brasil vive um novo momento de orgulho com o cinema nacional. Um ano após Ainda Estou Aqui conquistar a estatueta de Melhor Filme Internacional, o país volta a ganhar destaque com O Agente Secreto, indicado a quatro categorias do Oscar. Além da qualidade cinematográfica e de um elenco de peso, com Wagner Moura e Fernanda Torres como principais expoentes, os filmes têm em comum a denúncia dos horrores vividos durante os anos da ditadura brasileira.

Por que tem sido tão importante falar sobre a ditadura na cultura brasileira? Em um país que nunca responsabilizou seus torturadores – e que segue sofrendo ataques antidemocráticos, como os de 8 de janeiro de 2023 – a arte tem ocupado o papel de revelar feridas abertas e de insistir que memória, verdade e justiça não podem ser adiadas.

Comissão da Verdade

Diferente de outros países latinoamericanos que passaram por ditaduras militares, como a Argentina, o Brasil nunca puniu os algozes dos anos de chumbo. A anistia beneficiou agentes da ditadura, sem  responsabilizá-los por torturas, desaparecimentos e mortes. 

Foi só na gestão da ex-presidenta Dilma Rousseff que a verdade veio à tona como política pública. A Comissão Nacional da Verdade (CNV) ajudou a revelar o passado e acendeu o debate público sobre memória e justiça no Brasil. 

Foram dois anos e sete meses de trabalhos, que deram origem a um relatório em que foram apontados 377 responsáveis por crimes durante a ditadura militar e contabilizadas 434 mortes e desaparecimentos de vítimas do regime.

Eunice Paiva 

É nesse contexto pós-CNV que o setor cultural brasileiro passou a resgatar relatos e histórias, como a de Eunice Paiva, protagonista de Ainda Estou Aqui, que ficou 25 anos sem respostas sobre o paradeiro de seu marido, Rubens Paiva, desaparecido pela ditadura em 1971. 

Eunice conseguiu a primeira certidão de óbito do marido em 1996, mas ela não indicava a causa da morte, sendo retificada mais recentemente, em 2025, para constar como morte violenta causada pelo Estado brasileiro, após uma longa luta por justiça.

O Agente Secreto 

Também é nesse contexto que se situa O Agente Secreto. Ao contar a história de um pesquisador perseguido pelo regime, o longa recém lançado aborda um Brasil que, ainda hoje, descobre e confronta um passado mal resolvido. 

Outro mérito do filme é evidenciar o envolvimento do setor empresarial na articulação e no apoio ao regime militar daquela época. O vilão,  um empresário  representante da indústria, usa seu poder econômico e contrata ex-agentes do Estado para eliminar o protagonista, interpretado por Wagner Moura.

Anistia

Nós conhecemos muito bem essa história. O Inesc também nasceu do trabalho de uma mulher que viveu as violências do período ditatorial. Maria José Jaime,  ou Bizeh, nossa fundadora, chegou a ser exilada e ajudou a criar a Lei da Anistia de 1979.

Vale lembrar que o debate sobre a anistia ganha hoje outro significado. Em 8 de janeiro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou integralmente o Projeto de Lei nº 2.162/2023, conhecido como “PL da Dosimetria”, que previa a redução de penas de condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. A decisão sinaliza um avanço na responsabilização das pessoas  que tentaram implementar um golpe de Estado, embora ainda permaneça o desafio de alcançar aqueles que financiaram e deram sustentação política às ações golpistas.

E é preciso ir além: fortalecer a participação popular e garantir o controle civil sobre as forças armadas.  É por isso que desde 1979, o Inesc luta por uma democracia brasileira efetiva, que mude a vida das pessoas. Sempre de olho no orçamento público.

Ditadura nunca mais!

É verdade que o trabalho de recontar os horrores da ditadura não é novidade no cinema brasileiro. Filmes como Marighella, O que é isso companheiro?, Cabra Marcado Para Morrer, Zuzu Angel, Batismo de Sangue e muitos outros compõem uma longa lista de um cinema engajado com a luta pela memória e verdade. 

Mas os sucessos de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto são sinais de que o Brasil se recusa a varrer para debaixo do tapete um passado cruel, violento e não superado (muito menos reparado). Porque recontar o passado é também proteger o futuro. 

Projeto Poderosas da Amazônia fortalece organizações e lideranças na defesa dos direitos das mulheres

Organizações da sociedade civil desempenham um papel fundamental na promoção de direitos e no atendimento a populações vulnerabilizadas, especialmente em contextos em que o Estado não consegue responder plenamente às demandas sociais. No entanto, muitas dessas organizações enfrentam desafios estruturais, como dificuldades na captação de recursos, fragilidade na gestão institucional, ausência de instrumentos de transparência e limitação na mensuração de resultados.

Foi nesse contexto que nasceu o Poderosas da Amazônia, uma iniciativa do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) desenvolvida em parceria com o UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas) e a Embaixada da França no Brasil.  

“O projeto teve como principal objetivo o fortalecimento de organizações e lideranças que atuam na promoção dos direitos das mulheres nos estados do Amazonas e Roraima, regiões marcadas por altos índices de violência de gênero, mortalidade materna, dificuldades de acesso à saúde, à moradia e à proteção social — especialmente entre mulheres migrantes, indígenas, negras, trans e periféricas”, explica José Moroni, do colegiado de Gestão do Inesc. 

Uma resposta política às desigualdades na Amazônia

A região Norte segue sendo o principal território de acolhimento de mulheres migrantes e refugiadas venezuelanas, indígenas e não indígenas, incluindo povos Warao, E’ñepá, Kariña, além de mulheres trans e travestis. O relatório Moverse 2025 evidenciou um cenário persistente de violações de direitos, racismo, xenofobia e transfobia institucionais, sobretudo em Boa Vista (RR) e Manaus (AM).

As mulheres que participaram do projeto Poderosas da Amazônia relataram barreiras linguísticas e culturais, precariedade no acesso aos serviços públicos e múltiplas formas de violência. Diante dessa realidade, o Poderosas da Amazônia se consolida como uma ação política e coletiva, que reconhece essas mulheres como protagonistas de suas histórias e lutas, ampliando suas vozes e fortalecendo a mobilização social.

Ciclo de formação das organizações: gestão, projetos e sustentabilidade

Entre outubro de 2024 e agosto de 2025, o projeto realizou um ciclo de formação institucional com 11 organizações — seis em Boa Vista e cinco em Manaus — incluindo associações de mulheres migrantes, indígenas, negras, trabalhadoras domésticas e coletivos comunitários.

As atividades envolveram planejamento participativo, realização de diagnósticos institucionais, encontros presenciais e virtuais sobre elaboração de projetos, planejamento físico-financeiro, prestação de contas e avaliação, além de mentorias presenciais individualizadas, voltadas ao desenvolvimento de propostas para editais. O processo incluiu ainda a elaboração coletiva de uma cartilha de fortalecimento institucional, construída em parceria com o Núcleo de Mulheres de Roraima (NUMUR).

Como resultado, o ciclo contribuiu para desmistificar os processos de captação de recursos, fortalecer a segurança das participantes na escrita de projetos e ampliar a autonomia das organizações, respeitando os diferentes contextos e ritmos de cada território.

Ciclo de formação das lideranças: direitos e mobilização política

Paralelamente, o projeto realizou um ciclo de formação de lideranças, envolvendo 93 mulheres em Manaus e Boa Vista, com encontros presenciais e atividades virtuais voltadas à saúde integral, aos direitos das mulheres e à comunicação como ferramenta de mobilização.

A metodologia participativa incluiu rodas de conversa, dinâmicas corporais, facilitação visual e escuta ativa, promovendo um ambiente acolhedor e intercultural, com tradução entre português e espanhol. O cuidado com as crianças e a ajuda de custo foram fundamentais para garantir a participação das mulheres, evidenciando a importância de políticas de acessibilidade nos processos formativos.

As atividades abordaram temas como maternidade, trabalho doméstico, violência de gênero, racismo, xenofobia, transfobia institucional e acesso às políticas públicas, fortalecendo a consciência de direitos e o papel das lideranças comunitárias.

Outra conquista foi a produção de mais uma cartilha desenvolvida no âmbito do projeto, mas, desta vez, com foco nos direitos das mulheres, cujo intuito foi subsidiar a continuidade da mobilização de lideranças e multiplicadoras.

Transformações que seguem ecoando nos territórios

Mais do que números e atividades, o projeto Poderosas da Amazônia deixou como legado o fortalecimento de vínculos, a ampliação da confiança das mulheres em seus próprios saberes e a consolidação de organizações mais preparadas para seguir lutando por direitos.

Ao investir na formação, na escuta e na construção coletiva, o projeto reafirmou que a transformação social começa quando as mulheres são reconhecidas como sujeitas de direitos — e protagonistas das mudanças que desejam ver em seus territórios. 

“O projeto também reafirmou a luta por trabalho digno, valorizando as trabalhadoras domésticas e lembrando que direitos conquistados são fruto de mobilização contínua. E defendeu, com firmeza, os direitos das mulheres migrantes, que muitas vezes deixam seus países não por escolha, mas por sobrevivência — enfrentando xenofobia, exclusão e silenciamento”, destaca Moroni.

Projeto Mulheres Amazônidas fortalece incidência política e conquista avanços históricos junto ao MPF

O acesso a informações sobre quanto foi arrecadado de Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), como esses recursos são aplicados e a exigência de maior transparência e controle social sobre seu uso têm se mostrado fundamentais para a luta das famílias e comunidades atingidas pela mineração no sudeste do Pará. É nesse contexto que o projeto Mulheres Amazônidas vem se consolidando, ao longo de cinco anos, como uma iniciativa estratégica de formação, produção de dados e incidência política protagonizada por mulheres diretamente impactadas pelo modelo mineral-extrativista na Amazônia.

Liderado pelo Inesc, em parceria com a Faculdade de Educação do Campo, Administração e Economia da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o projeto produziu estudos que mostram como a CFEM movimenta valores extremamente elevados em Marabá, Parauapebas e Canaã dos Carajás. Nos dois últimos municípios, a arrecadação ultrapassou R$ 1 bilhão em 2021, por exemplo. Apesar disso, esses recursos não têm se traduzido em políticas públicas capazes de enfrentar as desigualdades de gênero e raça aprofundadas pela mineração.

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Incidência por mais orçamento para políticas públicas

Um dos destaques recentes do projeto foi a atuação do grupo de mulheres de Marabá (PA), que também integra o movimento negro local. A partir das formações promovidas  pelo Inesc, no âmbito do projeto Mulheres Amazônidas, o grupo se organizou para demandar políticas públicas de igualdade racial e de gênero no município. Em março de 2025, foi realizada uma atividade específica voltada à construção de um Plano de Incidência, com atenção especial ao Plano Plurianual (PPA) local, além da atualização dos dados da CFEM, identificando esse recurso como uma possibilidade concreta de financiamento das políticas públicas reivindicadas.

Construído com apoio da assessora política do Inesc, Carmela Zigoni, e da consultora do projeto, Larissa Alves, o plano foi apresentado ao Ministério Público Federal (MPF), que  recebeu o grupo de mulheres em uma reunião. Como resultado, o Ministério recomendou formalmente ao município de Marabá a criação do Conselho Municipal de Igualdade Racial e a adesão ao Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (SINAPIR), citando explicitamente as análises sobre a CFEM elaboradas no âmbito do projeto. O mesmo plano foi apresentado na Câmara Municipal de Marabá.

Outro desdobramento importante foi a adesão do campo da educação municipal à pauta da igualdade racial. Este foi justamente o tema do IV Encontro Municipal do Censo Escolar de Marabá realizado no município em 2025

Cinco anos de formação, mobilização e resultados concretos

O Projeto Mulheres Amazônidas teve como objetivo fortalecer mulheres líderes impactadas pela mineração nos municípios de Marabá, Parauapebas e Canaã dos Carajás, capacitando-as para a defesa de políticas públicas que promovam direitos socioambientais, raciais e de gênero. Entre 2020 e 2025, foram realizadas oficinas sobre orçamento público, justiça fiscal e alocação dos recursos da CFEM, além da produção de estudos sobre os impactos da mineração na vida das mulheres, utilizados como base para ações de incidência.

Mesmo durante a pandemia de Covid-19, o projeto manteve suas atividades de forma virtual, fortalecendo vínculos e culminando na publicação do livro Mulheres Amazônidas: ecofeminismo, mineração e economias populares. A partir de 2023, com o retorno das atividades presenciais, avançou-se na elaboração de diagnósticos socioeconômicos, na produção de evidências quantitativas e na realização de visitas de campo, rodas de conversa e encontros comunitários.

Essas ações têm resultado na ampliação da capacidade de mobilização das mulheres. Além da conquista junto ao MPF, o projeto também realizou incidências em instâncias nacionais e internacionais, como o Ministério das Mulheres, o Ministério do Desenvolvimento Social, o Mercosul Social e Participativo e a Relatoria Especial da ONU sobre Violência contra Mulheres e Meninas. Na COP 30, realizada em Belém em 2025, as mulheres participaram da Cúpula dos Povos, compartilhando saberes sobre adaptação climática desde os territórios, dialogando com o Movimento de Quebradeiras de Côco e Babaçu, mulheres quilombolas, ativistas e pesquisadoras. 

Vozes das mulheres

Para Margarida Negreiros, participante do projeto, a iniciativa teve um papel central na consolidação da organização coletiva das mulheres na região. “ Possibilitou espaços de formação, de debate, de publicação e de visibilidade da nossa organização. O Inesc apoiou e esteve presente no Tribunal Internacional da Natureza e na produção do livro Mulheres Amazônidas, que foi uma produção muito bonita. A formação durante a pandemia foi fundamental para manter os laços orgânicos e o debate ativo. Essa atuação é fundamental em uma região da Amazônia muito agredida por grandes empreendimentos”, destaca.

Rosemayre Bezerra, mobilizadora local do projeto, ressalta a importância da produção de dados e da incidência qualificada. “Foi uma das primeiras iniciativas aqui na região de produção de dados ligados a mulheres e à mineração, mostrando que a riqueza gerada não se reverte na qualidade de vida das mulheres. Pelo contrário, a mineração acirra a violência, aprofunda a degradação ambiental e violenta os corpos das mulheres. Esses dados são fundamentais para fortalecer a luta por políticas públicas”, afirma. 

Ao articular formação política, produção de evidências e incidência política, o projeto Mulheres Amazônidas reafirma o protagonismo das mulheres na defesa de direitos, da justiça fiscal e de um modelo de desenvolvimento que respeite os territórios, os corpos e os modos de vida na Amazônia.

Inesc manifesta preocupação com aprovação provisória do Acordo Mercosul-UE

Os embaixadores dos países membros da União Europeia aprovaram provisoriamente o Acordo Mercosul-União Europeia, concluindo uma negociação iniciada há mais de 25 anos entre os dois blocos. A decisão abre caminho para a assinatura do tratado e posterior tramitação nos parlamentos nacionais, apesar das resistências manifestadas por setores da sociedade civil e por alguns governos europeus.

O Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) recebeu a notícia com preocupação e avalia que o processo de negociação foi marcado pela falta de transparência e pela exclusão dos setores diretamente afetados.

“O acordo vinha sendo negociado há mais de 25 anos pelos blocos, com diversos setores da economia dos países dos dois lados do Atlântico e organizações da sociedade civil expressando suas preocupações em relação ao texto. A começar pela ausência de transparência das negociações que foram feitas a portas fechadas, sem o envolvimento amplo dos setores afetados ou o entendimento sobre os termos uma vez que o texto só foi traduzido após a finalização das negociações em dezembro de 2024”, explica Carolina Alves, assessora política do Inesc.

Comércio internacional desigual
O objetivo central do acordo é a liberalização comercial entre os países dos dois blocos, orientada pelos interesses da balança comercial. No entanto, de acordo com o Inesc, tratados dessa natureza tendem a aprofundar uma divisão desigual do comércio internacional. “Esse modelo reforça a exploração da capacidade produtiva do Mercosul em produtos primários, enquanto concentra na União Europeia a produção de bens manufaturados e a prestação de serviços de maior valor agregado, comprometendo o desenvolvimento dos países sul-americanos e impactando negativamente as condições de vida da população”, alerta Carolina.

O Instituto também aponta que o acordo incentiva a expansão da atividade agropecuária voltada à exportação, estimulando a desindustrialização, a perda de empregos no setor industrial e a reprimarização da economia. Além disso, o foco no agronegócio limita as possibilidades de melhoria social e econômica para pequenos agricultores, agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais.

Outro ponto de alerta diz respeito à redução e à eliminação de tarifas de importação para minerais, com o objetivo de abastecer o mercado europeu com insumos necessários à sua transição energética. Esse cenário tende a ampliar a atividade mineradora no Brasil e em outros países do Mercosul, gerando impactos ambientais significativos no solo e na água, além de afetar diretamente comunidades tradicionais e povos indígenas que vivem em territórios ricos em minério ou em suas proximidades. O Inesc ressalta ainda os riscos associados às barragens de rejeitos, lembrando tragédias como Mariana e Brumadinho, que resultaram na morte de mais de 300 pessoas, no deslocamento de famílias e na contaminação de rios.

Devastação ambiental e agrotóxicos
O mecanismo de solução de controvérsias previsto no acordo também preocupa a instituição, pois pode ser utilizado para contestar normas nacionais consideradas restritivas ao comércio, inclusive aquelas voltadas à proteção ambiental ou ao fortalecimento de setores estratégicos da economia. Já o capítulo de Comércio e Desenvolvimento Sustentável, embora reafirme compromissos ambientais e climáticos, não estabelece dispositivos juridicamente vinculantes.

Sobre esse ponto, Carolina Alves afirma: “A expansão da atividade agropecuária no Brasil vai contribuir com o aumento da emissão de gases de efeito estufa, uma vez que a atividade vai estimular a expansão da fronteira agrícola e o aumento de áreas para a pecuária, que são alguns dos maiores vetores de desmatamento. É esperado também uma ampliação da devastação ambiental e do uso de agrotóxicos, o que afeta a saúde dos trabalhadores e a qualidade do alimento e do solo.”

O Inesc destaca ainda que muitos dos agrotóxicos utilizados no Mercosul são proibidos na União Europeia, mas seguem sendo comercializados livremente nos países sul-americanos. Para a instituição, esse conjunto de fatores dificulta o cumprimento dos compromissos ambientais e climáticos assumidos pelo Brasil em acordos internacionais, como o Acordo de Paris.

Diante da aprovação provisória do tratado, o Inesc reforça a necessidade de ampliar o debate público, garantir transparência e assegurar que acordos comerciais estejam alinhados ao desenvolvimento sustentável, à proteção ambiental e à redução das desigualdades sociais.

Projeto Grito das Periferias forma jovens e leva demandas das periferias ao orçamento público do DF

Durante todo o ano de 2025, o projeto Grito das Periferias consolidou-se como uma importante iniciativa de formação política, mobilização social e incidência institucional protagonizada por adolescentes e jovens periféricos do Distrito Federal (DF). A ação teve como objetivo formar e capacitar jovens de 16 a 29 anos das regiões administrativas de Ceilândia, Estrutural e Itapoã nos temas de orçamento público, direitos humanos e direito à cidade, a partir de uma perspectiva interseccional de raça e gênero, contribuindo para que elas e eles influenciassem diretamente o orçamento público do DF.

“Ao longo do projeto, foram realizadas 13 oficinas em cada região, organizadas em cinco eixos temáticos: raça, gênero e interseccionalidade; direitos humanos e políticas públicas; direito à cidade e à cultura; orçamento público e direitos humanos; e metodologia de pesquisa em educação popular”, explica Thallita Oliveira, assessora política do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos). De acordo com ela, as atividades buscaram articular teoria e prática, sempre partindo das vivências dos territórios e das realidades dos jovens participantes.

Além disso, o projeto promoveu uma oficina de formação em produção cultural, com 30 jovens (10 de cada região), e cinco oficinas de educomunicação, que garantiram o protagonismo juvenil também na comunicação e na cobertura das ações coletivas. Toda a divulgação e registro das atividades político-culturais e a produção dos eventos foi realizada pelos próprios adolescentes e jovens envolvidos.

Cultura, política e incidência

Um dos destaques do projeto foram as três ações político-culturais realizadas nos territórios: Sábado de Quebrada no Itapoã, Passado do Amanhã na Ceilândia e Sustenta Baile na Estrutural. Cada evento reuniu mais de 100 pessoas e combinou cultura, lazer e debate político sobre o direito à cidade, ampliando o alcance das discussões e fortalecendo o vínculo com as comunidades locais.

O processo formativo culminou em importantes momentos de incidência política, construídos coletivamente pelos jovens, como os encontros de elaboração das propostas, a realização de uma Audiência Pública na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), com mais de 100 pessoas presentes, e um Seminário, que reuniu cerca de 90 adolescentes e jovens do DF.

Inclusão, diversidade e empoderamento

No total, o projeto beneficiou 94 adolescentes e jovens, sendo 50 mulheres (4 trans), 36 homens (1 trans), 6 pessoas não binárias e 2 que preferiram não se identificar. Do ponto de vista racial, participaram 50 pessoas pretas, 31 pardas, 12 brancas e 1 que não se identificou.

Apesar do curto período de execução, os resultados foram expressivos. Na avaliação geral do projeto, os participantes destacaram que se sentem mais seguros para pautar suas demandas, ocupar espaços de decisão e se colocar no mundo a partir de suas identidades. A formação política foi apontada como fundamental.

“O Grito das Periferias mostrou que a nossa voz tem valor. O projeto foi um espaço de formação, escuta e fortalecimento coletivo, que me ajudou a compreender meus direitos, ganhar confiança para ocupar espaços de participação política e transformar a minha história, e a do meu território, em força e resistência”, afirma Aline Lopes de Souza, moradora do Itapoã e participante do projeto.

O tema do orçamento público apareceu como o mais desafiador, mas também como aquele que gerou mais aprendizados. A metodologia baseada na educação popular foi essencial para tornar um conteúdo complexo mais acessível e conectado ao cotidiano dos participantes, fortalecendo a compreensão de que o orçamento impacta diretamente suas vidas e seus territórios.

O fortalecimento da participação política também se refletiu em mobilizações autônomas dos jovens, como a participação em incidências contra o projeto de construção de uma usina termelétrica na região de Samambaia. Outro resultado relevante foi o protagonismo juvenil na construção e realização das ações político-culturais, da audiência pública e do seminário.

“O Grito das Periferias aproximou a política do nosso cotidiano e mostrou que ela é uma ferramenta real de luta e transformação. Como jovem da Ceilândia, encontrei um espaço de formação política feito com escuta, afeto e responsabilidade social, que fortaleceu minha confiança, o valor da minha voz e o sentimento de pertencimento à periferia”, destaca Raquel Adla Freitas de Aguiar, participante do projeto.

As propostas elaboradas coletivamente foram apresentadas na Audiência Pública da Câmara Legislativa do DF, e os deputados presentes se comprometeram a criar um grupo de trabalho com as juventudes para dialogar com o Governo do Distrito Federal (GDF) e encaminhar as demandas apresentadas. No Seminário Grito das Periferias, essas propostas foram ampliadas e aprofundadas por jovens de diferentes regiões do DF, com o objetivo de fortalecer futuras incidências junto ao GDF e também aos candidatos e candidatas nas eleições de 2026.

Um dos produtos políticos do seminário foi a Carta-Manifesto da Rede de Juventudes e Adolescências (JUÁ) de Olho no Orçamento Público: Por um Distrito Federal que Garanta Direitos, construída coletivamente por 95 participantes, dos quais 65 assinaram o documento. A carta reafirma o papel das juventudes periféricas como sujeitas políticas, denuncia as desigualdades estruturais do DF e apresenta propostas organizadas por eixos temáticos, com metas, indicadores, prazos e responsáveis, a partir do olhar de quem vivencia as políticas públicas no cotidiano.

“O Grito das Periferias rompe com a lógica que trata a periferia como número e coloca nossas vozes no centro. Para mim, foi um processo transformador, que ampliou minha consciência política, fortaleceu minha atuação cultural e reafirmou meu compromisso com a defesa dos direitos humanos na Cidade Estrutural. É um espaço de escuta, formação e fortalecimento coletivo, que valoriza os saberes do território e mostra que é possível ocupar espaços de decisão e lutar por políticas públicas mais justas”, afirma Ronnalty Cordeiro Batista, morador da Estrutural e participante do projeto.

Parcerias que fortalecem

Para Thallita, o projeto foi fortalecido pelas parcerias construídas nos territórios: Jovem de Expressão, na Ceilândia; Coletivo da Cidade, na Estrutural; e Casa Batukenjé, no Itapoã, fundamentais para garantir enraizamento territorial, escuta qualificada e protagonismo juvenil.

O Projeto Grito das Periferias foi realizado com apoio da Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal (Sejus), por meio do Termo de Fomento nº 18/2024, e reafirma o compromisso do Inesc com a formação política, a defesa dos direitos humanos e o fortalecimento das juventudes periféricas como agentes centrais na construção de políticas públicas mais justas e democráticas.

Emendas parlamentares seguem na contramão do financiamento climático, revela estudo do Inesc

O Brasil vive uma era de extremos climáticos que já não podem mais ser tratados como eventos isolados. Enchentes devastadoras no Sul, ciclones no Sudeste, secas históricas na Amazônia e queimadas em larga escala aprofundam desigualdades raciais, de gênero, regionais e socioeconômicas. Ao mesmo tempo, políticas fundamentais de mitigação, adaptação e gestão de riscos continuam subfinanciadas, pouco articuladas entre entes federados e desalinhadas entre Executivo e Legislativo. 

É nesse contexto que o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) lança a Nota Técnica “Emendas parlamentares na era dos extremos climáticos: na contramão do financiamento climático”,  que analisa 11 programas e 97 ações orçamentárias diretamente vinculados à política ambiental e climática – incluindo gestão ambiental, gestão de riscos e desastres, enfrentamento da emergência climática e iniciativas urbanas de adaptação, como os programas Cidades Melhores e Periferia Viva. Esses programas somam R$ 6,15 bilhões no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) 2026.

>> Leia a íntegra da nota técnica

Emendas individuais alheias à crise climática    

O novo estudo do Inesc avaliou a destinação de recursos via emendas parlamentares individuais e descobriu que de um total de 284 ações emendadas apenas 17 delas fazem parte do conjunto de 97 ações que compõem o coração da política ambiental e climática no país. Isso quer dizer que dos R$ 26,56 bilhões reservados para emendas individuais no orçamento de 2026, somente R$ 154,03 milhões estão sendo destinados pelos deputados e senadores ao conjunto de ações climáticas e ambientais – o equivalente a 0,58% do total de emendas individuais e um acréscimo de apenas 2,5% ao orçamento desses programas. Para efeito de comparação, só o valor total das emendas individuais em 2026 (R$ 26,56 bilhões) corresponde a mais de quatro vezes o orçamento federal previsto para eventos climáticos.

“Esta nota técnica demonstra um descompasso estrutural entre a urgência imposta pelos extremos climáticos e a forma como o Parlamento tem se apropriado dos  recursos públicos. Os dados evidenciam que o atual modelo de emendas reforça a insuficiência do financiamento climático, em especial em áreas que dependem integralmente de investimento público não reembolsável”, afirma Alessandra Cardoso, assessora política do Inesc. 

Federalismo orçamentário paralelo

O estudo parte do cenário de crescente captura do orçamento público pelo Legislativo. Em 2025, emendas individuais, de bancada e de comissão somam R$ 50,3 bilhões, quase 22% de todas as despesas discricionárias do governo federal. No caso das transferências a estados e municípios, 99,9% da parcela discricionária é hoje executada via emendas. Essa configuração revela, segundo o Inesc, um “federalismo orçamentário paralelo” guiado por interesses político-eleitorais, sem mecanismos adequados de planejamento ou controle social.

Somado a isso, os limites impostos pelo Novo Arcabouço Fiscal  e o histórico estrangulamento das despesas discricionárias deixam ainda menos espaço para viabilizar políticas de adaptação, mitigação, prevenção de desastres e fortalecimento de capacidades locais.

Conclusões e recomendações

A análise evidencia o total descompromisso do Congresso Nacional com o financiamento climático público, cujos recursos escassos e 100% discricionários são cada vez mais  comprimidos. Ao mesmo tempo em que fragiliza a legislação ambiental, o Legislativo movimenta bilhões em emendas sem aderência a prioridades urgentes para enfrentar os extremos climáticos.

Para o Inesc, é urgente regular a destinação das emendas parlamentares, garantindo que contribuam para metas climáticas nacionais e respeitem critérios territoriais de risco e vulnerabilidade. Também cabe ao Executivo explicitar, no Novo Plano Clima, quais programas e ações devem ser considerados prioritários como meios de implementação.

“Sem uma regulação que vincule as emendas às metas climáticas e à redução de vulnerabilidades, o país continuará preso a um modelo de alocação orçamentária que ignora a realidade da emergência climática. O Brasil não pode enfrentar a era dos extremos mantendo um orçamento estrangulado e desconectado das prioridades socioambientais”, conclui Alessandra.

Juventudes periféricas do DF se apropriam do orçamento público para enfrentar desigualdades

Ao longo de 2025, jovens de diferentes periferias do Distrito Federal (DF) protagonizaram um intenso processo formativo e político voltado ao enfrentamento das desigualdades sociais, raciais e territoriais. Por meio do projeto Mapa das Desigualdades: formação e incidência por transparência e redução das desigualdades, jovens periféricos e prioritariamente negros foram formados em orçamento público, transparência e direitos humanos, com foco nas políticas de educação, mobilidade urbana, raça e gênero.

O projeto Mapa das Desigualdades: formação e incidência por transparência e redução das desigualdades é apoiado pelo Fundo de Combate à Corrupção, por meio do Termo de Fomento nº 01/2024 (Processo nº 00480-00005913/2023-43).

O projeto teve como objetivo fortalecer a capacidade de jovens para monitorar políticas públicas e incidir junto ao poder público do DF, contribuindo para o aumento da transparência fiscal e para a ampliação de recursos destinados às populações historicamente vulnerabilizadas. Mais do que lidar com dados e números, o processo colocou a juventude no centro da produção de narrativas sobre suas próprias realidades. “Mais do que dados e números, o Mapa é transformação, é voz, é luta e é a potência da juventude periférica construindo narrativas sobre suas próprias realidades”, sintetiza Markão Aborígine, educador social do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos).

Ao todo, foram realizadas 11 oficinas de formação em orçamento, direitos e políticas públicas; duas oficinas de educomunicação; seis oficinas de análise de dados e pesquisa; dois saraus político-culturais e uma audiência pública. O projeto formou 30 jovens, dos quais 15 passaram a compor um Comitê de Monitoramento do Orçamento Público, Transparência e Direitos Humanos, com ênfase nas políticas de educação, mobilidade urbana, raça e gênero do DF. “Este Comitê, apoiado pela equipe do Inesc, foi responsável pela análise dos dados que deram origem ao Mapa e definiram as ações de incidência e territoriais ao longo do projeto”, explica Cristiane Ribeiro, do colegiado de gestão do Inesc.      

O contexto que mobilizou a iniciativa é marcado por profundas desigualdades no próprio território do DF. Enquanto o Lago Sul concentra a maior renda média do Distrito Federal e do Brasil, o Itapoã, região vizinha, apresenta uma das menores rendas médias, além de graves déficits no acesso a serviços públicos como creches, hospitais, transporte e saneamento básico. Essas desigualdades também se expressam racialmente: o Lago Sul tem maioria da população autodeclarada branca, enquanto o Itapoã é majoritariamente negro.

>> Clique aqui para acessar o Mapa das Desigualdades <<

Nesse cenário, adolescentes e jovens se afirmam como sujeitos centrais na mobilização e no enfrentamento às desigualdades, tanto por serem fortemente impactados pela negação de direitos quanto pela potência política que carregam. Um dos pontos altos do projeto foi justamente a apropriação, por parte das juventudes, dos conhecimentos sobre o funcionamento da máquina pública e do orçamento, fortalecendo a luta popular e a incidência política.

Mapa das Desigualdades 2025

O Mapa das Desigualdades reuniu jovens de inúmeros territórios periféricos do DF e do entorno, como Sobradinho, Gama, Santa Maria, Riacho Fundo II, Samambaia, Ceilândia, Estrutural, São Sebastião, Mangueiral, Taguatinga, Itapoã, Paranoá e Águas Lindas de Goiás (GO). Para os participantes, o processo foi marcado por aprendizado, fortalecimento coletivo e transformação pessoal.

“Para mim, o mapa é uma nova fase da minha vida, porque foi quando comecei a pesquisar sobre o meu território. A gente não tem dimensão de como o DF é desigual até ter acesso aos números”, relata Evelyn Oliveira, do Riacho Fundo. 

Já Eli José, de São Sebastião, destaca a dimensão coletiva da experiência: “o aprendizado foi enorme, mas, além disso, a união fez com que tudo ao meu redor melhorasse. Sou muito grato a esse projeto”. Camila Rodrigues, de Sobradinho, define o Mapa como “conexão, afeto, encontro e potência”, enquanto Pajé Edinaldo Júnior, do Gama, afirma que a experiência representou esperança e reconhecimento da própria voz: “Quando a gente se une e luta por nós, isso é gratificante demais”.

A partir das oficinas para a construção do Mapa e do uso do Portal da Transparência, os participantes identificaram dificuldades no acesso e na compreensão das informações sobre gastos públicos, especialmente pela ausência de dados regionalizados. Como resultado desse processo, os jovens, com o apoio do Inesc, elaboraram e encaminharam à Controladoria-Geral do DF uma Carta de Recomendações ao Portal da Transparência, com propostas para ampliar a transparência fiscal e garantir o cumprimento da Lei de Acesso à Informação, colocando a juventude no centro da produção de narrativas sobre suas próprias realidades.

Audiência pública mobilizada pelas juventudes debate desigualdades no DF

Toda essa trajetória culminou na audiência pública realizada em 18 de novembro, na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), como parte da programação da Semana Distrital do Hip Hop. 

O espaço foi dedicado à apresentação das análises e reivindicações construídas coletivamente pelos jovens ao longo do projeto. “Escolhemos essa data, pois não há como vivenciar integralmente os direitos humanos sem a garantia orçamentária para políticas públicas e o enfrentamento às desigualdades”, explica Markão Aborígine. A audiência reuniu cerca de 90 participantes.

Assista a íntegra da audiência:

Próximos passos

Como próximos passos, está prevista a realização de encontros autônomos do coletivo de jovens para multiplicação dos conteúdos e divulgação do Mapa das Desigualdades. O grupo também dará continuidade às ações de incidência por meio de estratégias educomunicativas, com o lançamento de dois videoclipes — que reúnem sete artistas participantes do projeto — e de um podcast, ampliando o alcance das vozes e das pautas construídas ao longo do processo.

Assista a um dos videoclipes produzidos por participantes do projeto Mapa das Desigualdades: formação e incidência por transparência e redução das desigualdades.

Edital para II Seminário Nacional Conservadorismos e Militarização da Escola Pública

Data: 20, 21 e 22  de maio de 2026
Local: Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB) – Brasília/DF
Evento presencial

A Rede de Pesquisa sobre Militarização da Educação no Brasil (RePME) e o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) convidam você para participar do II Seminário Nacional “Conservadorismos e Militarização da Escola Pública: desafios para a educação brasileira”.

O encontro reunirá docentes, pesquisadoras(es), estudantes e ativistas de todo o país para debater criticamente os impactos do avanço do conservadorismo e dos processos de militarização na educação pública brasileira, fortalecendo a produção de conhecimento, o intercâmbio de experiências e a incidência política em defesa de uma educação democrática.

Submeta seu trabalho e/ou garanta sua inscrição no II Seminário Nacional Conservadorismos e Militarização da Escola Pública

Diretrizes para submissão

Modalidade: Resumo expandido (pesquisa ou relato de experiência)

Extensão:
– Até 750 palavras para o texto
– Até 250 palavras adicionais para as referências
– Formato: arquivo Word, conforme o template oficial
– Envio: exclusivamente online, pelo formulário indicado, na abertura das inscrições.

Atenção: trabalhos fora das normas ou com informações incompletas serão automaticamente desconsiderados. Dúvidas sobre submissão devem ser encaminhadas para o e-mail: seminarioeducacao@inesc.org.br

Cronograma

– 12 de janeiro de 2026: início das submissões de trabalhos.
– 30 de março: prazo final para submissão de trabalhos.
– 10 de abril de 2026: divulgação dos trabalhos aprovados (data limite)
– 12 de janeiro a 20 de maio de 2026: período de inscrições no Seminário.

Inscrições abertas

As inscrições para participação no seminário são gratuitas e deverão ser feitas online neste link.

Confira a programação completa:

20/5/2026

14h – Credenciamento

19h – Solenidade de abertura

19h30 às 21h30 – Conferência de abertura: Conservadorismos e militarização da escola pública: desafios para a educação brasileira. 

21/5/2026

10h – Audiência pública no Congresso Nacional: Militarização das escolas públicas- um retrocesso autoritário.

14h30 às 16h – Mesa 1: Desmilitarizar as escolas e lutar por uma educação antirracista e antissexista.

16h30 às 18h30 – Mesa 2: Militarização da educação e as violências na/da/contra a escola pública.

19h – Lançamento do livro e noite cultural

22/5/2026

8h às12h – Apresentação de trabalhos (pôster, relato de experiência, comunicação oral) 

14h às 16h – Roda de Conversa: A militarização da educação: Conhecimento e Militâncias

16h – Sessão de encerramento

Brasil avança no combate ao racismo ambiental com resolução construída com forte atuação da sociedade civil

O Brasil acaba de dar um passo decisivo no enfrentamento ao racismo ambiental. No último dia 3 de dezembro, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) aprovou a primeira resolução brasileira a incorporar de forma estruturante os princípios da justiça climática e do combate ao racismo ambiental: a Resolução nº 26.916/2025.

Segundo Cristiane Ribeiro, do colegiado de gestão do Inesc, “a nova norma não apenas reconhece que a crise climática é uma crise de direitos humanos, mas coloca no centro do debate aqueles que historicamente suportam os impactos mais severos das desigualdades socioambientais.”

Processo democrático e participação social fortalecida

A trajetória que levou à aprovação da resolução é marcada por participação ativa da sociedade civil e articulação estratégica conduzida por um conjunto de organizações da sociedade civil, entre elas, o Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos). 

Em 2023, o Instituto coordenou uma oficina com 20 organizações e movimentos sociais de todo o país, ponto de partida para a construção coletiva de diretrizes para o enfrentamento ao racismo ambiental no Brasil. Dessa mobilização foram construídos consensos que impulsionaram a criação de uma proposta submetida pela  Câmara Técnica de Justiça Climática (CTJC) ao  Conama.

Cristiane destaca que “foi dessa articulação inicial que nasceu a agenda conjunta de incidência que deu corpo e legitimidade à proposta de resolução. O Inesc teve a alegria de facilitar esse processo e de seguir contribuindo tecnicamente em todas as etapas.”

Em maio de 2024, o texto já contava com o apoio de mais de 68 organizações e movimentos de todas as regiões do país. Em seguida, iniciou-se um percurso marcado pela ampliação da transparência e da escuta social: consulta pública pela plataforma Participa+Brasil, um seminário nacional reunindo governo, academia, movimentos e territórios impactados, e debates jurídicos aprofundados na Câmara Técnica de Assuntos Jurídicos.

“A força dessa resolução nasce da pluralidade de vozes que a construíram e sustentaram a cada etapa da tramitação”, afirma Cristiane. “Ela é resultado direto do engajamento de comunidades, especialistas e organizações que vivenciam e estudam as desigualdades ambientais no país.”

Instrumento estratégico para futuras políticas climáticas

As diretrizes aprovadas trazem para o centro das políticas socioambientais os desafios enfrentados por populações negras, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, comunidades tradicionais e periferias urbanas.

Para Cristiane, “a resolução chega em um momento crucial, quando o Brasil desenha novas políticas climáticas para 2026. Ela estabelece parâmetros que obrigam o Estado a considerar justiça social, racial, territorial e intergeracional de forma transversal.”

Inesc reafirma compromisso com a justiça climática

A Resolução nº 26.916/2025 fortalece o Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama) como espaço de construção de respostas mais democráticas e reparadoras frente às mudanças climáticas — num contexto em que retrocessos ambientais seguem violando direitos.

Cristiane conclui: “O Inesc se orgulha de fazer parte desse avanço histórico. Seguiremos trabalhando em unidade com movimentos e organizações para construir uma transição climática justa, inclusiva e transformadora, onde proteção ambiental e direitos humanos caminhem juntos.”

Juventudes periféricas do DF vivem com até R$ 17 por habitante, mostra nota técnica do Inesc

Uma nova nota técnica do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) revela um cenário alarmante: as Administrações Regionais do Distrito Federal com mais crianças, adolescentes e jovens são justamente as que menos recebem orçamento público per capita.

O caso mais crítico é o Sol Nascente/Pôr do Sol, terceira região com maior proporção de população jovem. Em 2025, a área recebeu apenas R$ 17,75 por habitante, o menor valor de todo o Distrito Federal. A falta de infraestrutura básica — como creches, ruas asfaltadas e áreas arborizadas — é uma consequência direta desse cenário. Itapoã e Estrutural, por exemplo, não possuem nenhuma creche pública em funcionamento.

>>> Baixe a Nota Técnica: À margem do orçamento: juventudes periféricas e a distribuição desigual de recursos no DF

Desigualdade orçamentária penaliza juventudes periféricas

A comparação entre as regiões evidencia uma disparidade estrutural. Alguns dados chamam a atenção:

  • Recurso autorizado em 2025 para o Plano Piloto foi 7,5 vezes maior que o autorizado para o Sol Nascente/Pôr do Sol.
  • Investimento por morador no Lago Sul é 13 vezes maior que na região periférica de Sol Nascente/Pôr do Sol e 3 vezes maior que a do Itapoã.
  • A Administração Regional de Ceilândia tem R$ 15,6 milhões em orçamento, mas investimento por morador é de apenas R$ 54.
  • Com menos de 40% das vias arborizadas, Estrutural registra uma das  piores taxas de arborização do DF.
  • Itapoã e Estrutural não têm nenhuma creche pública em funcionamento no DF.
  • Com menos de R$ 30 por habitante, Administração Regional de Arapoanga enfrenta forte escassez de investimentos públicos no DF.

Obras prometidas não saíram do papel

Apesar de constarem no orçamento de 2025, nenhuma das obras essenciais previstas para Itapoã e Estrutural foi executada, incluindo o Centro de Educação da Primeira Infância (CEPI) no Itapoã, com R$ 445 mil autorizados; o CEPI na Estrutural, com R$ 99 mil autorizados, e a Escola de ensino médio na Estrutural, com R$ 2,9 milhões autorizados

Na prática, as duas regiões seguem sem creches públicas e com estrutura educacional insuficiente.

Já nas regiões centrais, os recursos estão voltados para a melhoria da infraestrutura existente. Na Asa Sul, por exemplo, há R$ 398 mil autorizados para a construção de uma quadra coberta no Centro de Ensino Médio (Cem) Setor Leste. No Cruzeiro, R$ 263 mil foram destinados para a construção de uma quadra de badminton no Centro de Ensino Médio Integrado (Cemi).

Para a assessora política do Inesc, Thallita Oliveira, os dados mostram que “o dinheiro dos tributos arrecadados pelo Governo do Distrito Federal não retorna prioritariamente para quem mais precisa”. A falta de investimentos, afirma, “resulta em violações de direitos e compromete o desenvolvimento das juventudes periféricas”.

Infraestrutura urbana: onde há menos orçamento, há piores condições de vida

A análise do Inesc cruzou dados orçamentários com informações da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada (PDAD 2024). Os resultados mostram que regiões com menos recursos de manutenção têm os piores indicadores urbanos.

Entre as seis áreas analisadas — Itapoã, Estrutural, Ceilândia, Cruzeiro, Lago Sul e Plano Piloto — Itapoã e Estrutural registram os piores índices:

  • Apenas 41,6% dos moradores do Itapoã vivem em ruas arborizadas

  • Na Estrutural, o número cai para 37,7%

Enquanto isso, o Plano Piloto, única região com recursos autorizados para reforma de calçadas em 2025, reúne os melhores indicadores de infraestrutura.

“Os dados evidenciam como a desigualdade orçamentária impacta diretamente o acesso de crianças e jovens a ambientes urbanos mais seguros e adequados”, reforça Thallita Oliveira.

O Inesc defende a ampliação urgente de recursos para políticas públicas voltadas à juventude, com prioridade para regiões periféricas do DF — onde vivem milhares de jovens que enfrentam as maiores barreiras para acessar seus direitos.

Marcha das Mulheres Negras coloca 300 mil nas ruas por Reparação e Bem Viver

Centenas de caravanas vindas de todas as regiões do Brasil, além de países da América Latina, Caribe e países africanos, ocuparam Brasília nesta quinta-feira (25) para a 2ª Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver. A estimativa é de que cerca de 300 mil pessoas tenham tomado a Esplanada dos Ministérios em um dos maiores atos de mobilização de mulheres negras da história recente.

Com cantos, palavras de ordem e uma força coletiva pulsante, as marchantes reafirmaram o papel central das mulheres negras na construção do país. “Nós ocupamos a capital federal para dizer para a sociedade racista,  sexista e capitalista que somos 28% da população brasileira e que nada neste país será sem nós”, declarou Cristiane Ribeiro, do colegiado de gestão do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos). 

Reparação como fundamento para o futuro

A Marcha deste ano destacou que não há reparação sem memória. O reconhecimento dos danos estruturais gerados pela colonização e pela escravização, assim como dos lucros acumulados por séculos de exploração, foi apontado como passo indispensável para a construção de uma sociedade democrática e verdadeiramente igualitária.

O Brasil, maior país negro fora da África e último das Américas a abolir formalmente a escravidão, segue atrasado na adoção de medidas de justiça reparatória. “Reparar, então, é pressuposto básico e indispensável para a construção da sociedade de Bem Viver, este que é o nosso paradigma utópico, mas sobretudo nosso farol para marcharmos em direção ao futuro que desejamos para todas as pessoas”, afirma o manifesto da Marcha.

Inesc na construção da Marcha

O Inesc esteve presente em todo o processo de construção da 2ª Marcha das Mulheres Negras, contribuindo politicamente e institucionalmente para sua realização.

“Marchamos juntas por reparação social, econômica e política. O Inesc está em marcha nesse movimento que não é apenas um dia nas ruas, mas um processo contínuo de transformação social”, destacou Cristiane.

Para contribuir com o debate técnico e político, o Inesc apresentou e distribuiu o guia “Desigualdade no Bolso – Justiça Fiscal para Mulheres Brasileiras”, durante a atividade “Diálogos Globais por Reparação e Bem Viver”, realizada na Universidade Federal de Brasília entre os dias 22 e 24 de novembro.  

Organizado pelo Comitê Impulsor Global da Marcha, o evento reuniu mais de 100 mulheres negras de diversas partes do mundo. “O guia produzido pelo Inesc examina as desigualdades de gênero e raça no sistema tributário brasileiro e propõe reformas para promover justiça fiscal”, relatou Cristiane. De acordo com ela, cinco são as mensagens principais: (i) O sistema tributário brasileiro é regressivo e penaliza especialmente as mulheres negras; (ii) cortes de gastos públicos perpetuam a submissão econômica das mulheres na sociedade; (iii) a reforma tributária trouxe avanços, mas ainda precisa garantir conquistas específicas para as mulheres; (iv) muitas renúncias fiscais brasileiras beneficiam elites econômicas, como o setor financeiro, o agronegócio e a mineração, em detrimento das mulheres; (v) é necessário repensar a economia com foco na justiça social, racial e de gênero.

Para apoiar a realização da Marcha, o Inesc firmou parceria com a Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal (Sejus), por meio do Termo de Fomento nº 11/2025. Uma das ações estruturantes do projeto foi a realização da Feira de Empreendedoras Negras (Feira das Ganhadeiras), que reuniu mulheres de todas as regiões do Brasil para promover visibilidade, geração de renda, circulação de saberes e valorização da economia criativa.

“Essa parceria reforça nosso compromisso com a luta das mulheres negras, que seguem apontando caminhos para um país mais justo, igualitário e plural”, sublinhou.

O Inesc também apoiou a participação de lideranças com as quais trabalha nos projetos executados pelo Instituto, entre eles, o Mulheres Amazônidas, mulheres negras impactadas pela mineração no Pará, além de adolescentes e jovens do Distrito Federal participantes do Malala, Mapa das Desigualdades e Grito das Periferias.

A 2ª Marcha das Mulheres Negras deixa sua marca na história ao reafirmar que a luta por Reparação Histórica e Bem Viver segue viva — e conduzida por quem há séculos sustenta o país.

COP 30 termina com resultado abaixo do necessário, apesar de avanços históricos na participação social

A 30ª Conferência do Clima da ONU (COP 30), realizada em Belém, entre os dias 10 e 21 de novembro, terminou com decisões consideradas insuficientes diante da gravidade da crise climática. Temas centrais como a eliminação dos combustíveis fósseis e o enfrentamento ao desmatamento ficaram de fora dos resultados, enquanto o financiamento climático — elemento crucial para reparação histórica e apoio aos países em desenvolvimento — avançou pouco e segue distante do que seria um compromisso justo, público e acessível.

“As decisões tomadas não respondem com a ambição necessária ao tamanho do desafio climático. Seguiremos defendendo que o financiamento climático deve ser público, justo, acessível e livre de dívida, porque só assim será possível uma transição verdadeiramente equitativa”, destacou Cristiane Ribeiro, do colegiado de gestão do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos).

A incapacidade de avançar em temas considerados meios de implementação — como regras, instrumentos e prazos para os acordos — mais uma vez foi marcada pela disputa entre os países ricos e os países em desenvolvimento, gerando impasses e dificultando o trabalho da diplomacia brasileira.

O Mutirão Global e os limites do consenso

Ainda nos primeiros dias, a COP30 aprovou sua agenda de trabalho em tempo recorde, mas à custa da retirada de temas sensíveis, enviados para consulta direta com a presidência da conferência. Apenas na segunda semana tornou-se claro como seriam incorporados ao debate, com a divulgação do texto do “Mutirão Global”, iniciativa brasileira para fortalecer a governança climática por meio da mobilização coletiva.

Embora avance na organização do debate global e estabeleça meta de triplicar o financiamento para adaptação até 2035, o documento final não menciona combustíveis fósseis, o que gerou críticas de movimentos e organizações.

Sociedade civil protagoniza mobilização histórica

Se nas negociações formais os avanços foram limitados, fora delas a COP30 registrou conquistas históricas. Após quatro conferências em países com restrições à participação social, Belém se tornou palco de uma mobilização global inédita.

A Cúpula dos Povos reuniu 25 mil pessoas e mais de mil organizações do mundo inteiro em cinco dias de plenárias, debates e articulações na UFPA (Universidade Federal do Pará). A presença indígena também foi marcante: cerca de 3 mil representantes formaram uma grande aldeia na cidade. A Marcha Global pelo Clima levou 70 mil pessoas às ruas sob o lema “A resposta somos nós!”.

“A sociedade civil mostrou sua força e capacidade de articulação. Os movimentos ocuparam Belém e apontaram caminhos concretos para a justiça climática”, avaliou José Moroni, do colegiado de gestão do Inesc. 

Racismo ambiental ganha centralidade histórica

Pela primeira vez na história das COPs, o tema do racismo ambiental ganhou destaque oficial. A presidência brasileira publicou uma declaração conclamando todas as nações a enfrentar as desigualdades que impactam de forma desproporcional pessoas negras, povos indígenas e comunidades tradicionais.

O termo “afrodescendente” apareceu em documentos oficiais relativos à Transição Justa, ao Plano de Ação de Gênero (GAP, na sigla em inglês) e aos Objetivos Globais de Adaptação — um marco sem precedentes. O tema também foi transversal em diversos eixos da Cúpula dos Povos.

Militarização e déficit democrático

Apesar da ampla participação social, organizações e movimentos sociais denunciaram a militarização dos espaços oficiais da ONU após manifestações indígenas, reforçando preocupações sobre o déficit democrático no processo.

Persistem problemas como critérios pouco transparentes de credenciamento e ausência de mecanismos para lidar com conflitos de interesse, especialmente diante do peso crescente de representantes do setor privado nas negociações também foram persistentes. 

Financiamento climático: sinalizações tímidas

O financiamento climático, tema central para países do Sul Global, avançou pouco. O texto não responsabiliza diretamente os maiores emissores históricos – os países do Norte Global – nem estabelece metas claras de aporte financeiro.

Entre os pontos positivos, destaca-se:

  • compromisso de escalar o financiamento para países em desenvolvimento em pelo menos US$ 1,3 trilhão;
  • convocação de uma reunião ministerial de alto nível sobre a Nova Meta Coletiva Quantificada (NCQG);
  • criação de um programa de trabalho de dois anos para alinhamento ao Artigo 9 do Acordo de Paris.

Na Meta Global de Adaptação, o convite para triplicar o financiamento até 2035 — e não mais 2030 — recebeu críticas por falta de compromissos vinculantes.

Indicadores de Adaptação de Belém

Um avanço relevante foi a aprovação dos Indicadores de Adaptação de Belém, conjunto de métricas globais para medir vulnerabilidades e progresso em resiliência climática. Entre eles, está o monitoramento do financiamento para adaptação fornecido por países desenvolvidos.

Plano de Ação de Gênero avança com conquistas inéditas

O Plano de Ação de Gênero 2026-2034 foi aprovado com vitórias importantes após forte incidência de movimentos feministas, negros e latino-americanos. O documento reconhece defensoras ambientais, o trabalho de cuidados, a violência de gênero e, pela primeira vez, mulheres e meninas afrodescendentes como centrais na ação climática.

Apesar dos avanços, o plano não estabelece metas de participação nem prevê recursos específicos para implementação, e o embate sobre o próprio conceito de “gênero” ainda divide países.

Transição justa: inclusão inédita, mas sem ambição suficiente

A criação do Mecanismo de Ação de Belém (BAM) foi celebrada por ampliar a participação de povos indígenas, mulheres, comunidades locais e grupos vulnerabilizados como atores da transição justa.

O texto reconhece a centralidade dos direitos humanos, dos trabalhadores e dos povos indígenas, além da necessidade de ampliar o acesso à energia limpa, especialmente na cocção.

No entanto, expectativas mais ambiciosas foram frustradas: desapareceram do texto final referências a um mapa de saída dos combustíveis fósseis e à eliminação de subsídios ineficientes ao setor.

Entre frustrações e conquistas

Para o Inesc, a COP30 deixa um balanço marcado por contrastes. Houve avanços históricos em temas como justiça de raça e gênero, participação social e transição justa. Mas o resultado final ficou longe da urgência necessária para enfrentar a crise climática, sobretudo na eliminação dos fósseis, no combate ao desmatamento e no financiamento climático.

“As divisões geopolíticas ficaram expostas. O mundo saiu de Belém sabendo que avançou em temas importantes, mas ainda sem a ambição necessária para garantir um futuro seguro e justo. Continuaremos lutando para que a justiça climática seja o centro das decisões internacionais”, concluiu Cristiane.

Inesc destaca protagonismo de mulheres amazônicas na adaptação climática durante atividades da COP 30

O Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) tem atuado na defesa dos direitos humanos e da justiça socioambiental a partir da centralidade das desigualdades de gênero e raça. Ao longo de 2025, o Instituto desenvolveu um projeto voltado à adaptação climática com enfrentamento às desigualdades de gênero e raciais no Brasil.

“Como parte dessa iniciativa, nós participamos das atividades da COP 30, levando mulheres de diferentes territórios amazônicos para o centro do debate sobre adaptação climática e justiça climática”, conta Sheilla Dourado, assessora política do Inesc. Segundo ela, o objetivo foi fortalecer vozes historicamente silenciadas e reconhecer os saberes construídos nos territórios como parte fundamental das soluções para a crise climática.

Durante os encontros, lideranças femininas destacaram que os impactos das mudanças do clima recaem de forma mais intensa sobre mulheres negras, ribeirinhas, povos originários e comunidades tradicionais. Ao mesmo tempo, são essas mulheres que acumulam conhecimentos, experiências e práticas capazes de apontar caminhos concretos para enfrentar a emergência climática.

“A crise climática não foi provocada por nós, mas somos nós que a vivemos e sofremos de forma mais pesada. Ainda assim, somos as soluções”, afirma Carmen Foro, da Comunidade Amazônica, ressaltando o caráter político e transformador do encontro entre mulheres de diferentes regiões da Amazônia.

Representantes de movimentos sociais compartilharam experiências de organização coletiva nos territórios. Integrantes do Movimento das Mulheres das Ilhas de Belém (MIB), por exemplo, relataram como rodas de conversa e articulações comunitárias têm sido fundamentais para pensar a adaptação climática na área insular de Belém, sempre a partir da construção coletiva e da realidade local.

Pesquisadoras, ativistas e lideranças comunitárias também chamaram atenção para a necessidade de traduzir o debate sobre adaptação climática para uma linguagem acessível, conectada às vivências cotidianas dos territórios. Segundo elas, a adaptação precisa ser “semeada” localmente, respeitando os saberes tradicionais, a ancestralidade e as tecnologias sociais desenvolvidas por mulheres, povos originários e comunidades afrodescendentes.

Entre os relatos, mulheres quebradeiras de coco babaçu denunciaram a devastação dos babaçuais e reforçaram a importância do reconhecimento econômico, social e ambiental dessa atividade, que garante sustento a inúmeras famílias e contribui para a preservação dos biomas.

Ao promover esses espaços de escuta, troca e articulação, o Inesc reafirma seu compromisso com uma agenda climática que enfrente as desigualdades estruturais e reconheça o protagonismo das mulheres dos territórios como agentes centrais na construção de soluções justas e sustentáveis para o Brasil e para o mundo.

Assista ao resumo das atividades:

Último dia de COP 30: Brasil, mostra sua cara!

Depois da surpresa positiva com o governo brasileiro na defesa firme por um mapa do caminho de transição para longe dos combustíveis fósseis, com o esperado protagonismo da Colômbia, e com a adesão de mais de 80 países, o que temos de rascunho do texto final da COP 30, divulgado na madrugada do dia 21 de novembro, é aterrador. 

Às vésperas do fim do maior evento climático do mundo, o mapa se perdeu pelo caminho. Foi suprimida toda e qualquer menção aos combustíveis fósseis.

Contudo, mesmo às portas de um fracasso retumbante dessa COP nesse tema que, todos sabemos, é o centro nervoso da crise climática, não é fácil interpretar o que virá nas próximas horas. A COP 30 ainda não acabou.

Mas como entender o aparente desfecho frustrante do mapa do caminho? É só a mais pura expressão do poder da indústria fóssil e dos países grandes produtores de petróleo? É a morte já anunciada do multilateralismo climático? Ou, pode ser o tiro que sairá pela culatra dos combustíveis fósseis?

A conferência liderada pela Colômbia nesta manhã do dia 21 de novembro, com apoio de vinte e cinco países, pode ser o ponto de virada para a Conferência. “Esta COP não pode terminar sem um mapa claro para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis”, disse a ministra do Meio Ambiente colombiana, Irene Velez-Torres. A mensagem é clara, o chamado é forte! 

A adesão e firme atuação do Brasil para que o mapa do caminho para longe dos combustíveis fósseis retorne ao texto é o que esperamos da liderança do governo brasileiro na COP30 na Amazônia.

Não estamos clamando por uma liderança que desconsidere a complexidade da geopolítica global da indústria fóssil, mas sim que coloque no centro do debate que uma transição justa, equitativa, ordenada para longe dos combustíveis fósseis deva ser construída com base em responsabilidades comuns, porém diferenciadas. 

Estamos clamando por uma liderança que, a despeito das complexidades e contradições domésticas, não se furta da responsabilidade e oportunidade histórica de entregar um grande legado latino-americano para as futuras gerações!

Sem participação, não há clima: a COP 30 precisa ouvir as ruas

A 30ª edição da Conferência das Partes (COP) da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima prometeu desde o começo que seria uma COP de ampla participação social. Porém, o que se observou logo nos primeiros dias é que talvez as Nações Unidas não estejam tão preparadas assim para garantir essa  participação de forma efetiva. 

A começar pela  alocação de cotas de credenciais para as organizações observadoras acessarem a Blue Zone, espaço oficial das negociações, que se mostrou um desafio de saída. Por outro lado, lobistas do petróleo conseguiram 1.602 credenciais, a maior presença proporcional deste grupo em relação ao número total de participantes já registrada (dados são da coalizão Kick Big Polluters Out). Apesar disso, os movimentos sociais, organizações, representantes de povos indígenas e de comunidades tradicionais vieram a Belém, com a esperança de fazer dessa a maior conferência de clima dos últimos anos. 

Contudo, em contraste com a prometida participação social, veio a adoção da operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) pelo governo Federal, com a militarização ostensiva do espaço da conferência e da cidade de Belém. 

Diante desse cenário, povos indígenas, povos e comunidades tradicionais, fizeram um protesto dentro da zona azul. Entraram na conferência do clima demandando que suas vozes sejam ouvidas e incluídas nos espaços de negociação. A resposta veio em forma de aumento da presença das tropas do exército na entrada da conferência, garantindo uma suposta segurança aos delegados. E uma maior restrição à entrada em espaços como a zona verde, que tecnicamente era uma zona com entrada livre. 

Ainda assim, as ruas e os diversos espaços comunitários foram tomados pelas vozes dos movimentos e dos diferentes povos que vieram a Belém. Com o objetivo de que as lutas não passassem despercebidas, e que as negociações não deixassem para trás pontos cruciais no debate pela justiça climática. 

Mobilização Global pelo Clima

Bruno Peres/Agência Brasil

A maior expressão desse momento foi a mobilização global pelo clima, que levou mais de 50 mil pessoas às ruas da capital da COP 30, demandando justiça climática, transição justa, combate ao racismo ambiental, demarcação de terras indígenas e o combate aos combustíveis fósseis. 

No início da segunda semana da COP, observou-se um aumento das forças de segurança na entrada do espaço de conferência e uma maior restrição na entrada, evidenciando a falta de “boa vontade” da ONU com processos de participação popular.

Isso ficou ainda mais explícito quando Simon Stiell, secretário executivo da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, enviou uma carta ao presidente Lula demandando que medidas fossem tomadas em relação à segurança e, pasmem, ao calor excessivo e às chuvas em Belém. 

É verdade que o calor excessivo e as chuvas torrenciais – exacerbados pelas mudanças climáticas – foram personagens ilustres da COP 30. Mas não é justamente sobre isso que trata a conferência? Estes fenômenos não escancaram a necessidade de financiamento para a adaptação climática?

É espantoso que a carta classifique como violentos os povos indígenas que fizeram protestos. Essa fala ignora as lutas e as vozes dos povos, e os anos de exclusão desses espaços, além de estigmatizar um povo que já sofre com o racismo. E coloca-os nesse imaginário popular de violência e que, portanto, devem ser reprimidos e controlados, com todo o aparato das forças de violência estatal.

Se tem debate climático, tem mobilização

A sociedade civil pretende entregar uma carta exigindo que Simon Stiell revogue sua declaração anterior, e reconheça que as manifestações são parte fundamental de qualquer processo democrático. As mobilizações são inerentes ao debate climático, sobretudo, porque afeta de forma desigual povos e comunidades tradicionais, mulheres e comunidades periféricas. 

Além disso, Relatores Especiais da ONU emitiram uma declaração criticando a UNFCCC e a Presidência brasileira pelo aumento da segurança armada na COP 30 após os protestos pacíficos da primeira semana, alertando para o fato de que o ambiente de intimidação compromete princípios básicos de participação democrática. 

Se um país democrático foi escolhido para sediar uma conferência, é natural e legítimo que protestos e mobilizações sociais ocorram, principalmente no Brasil, onde a sociedade tradicionalmente vai às ruas quando não está de acordo com uma situação. Olhar para essas manifestações com medo de seu resultado revela que o processo que estamos inseridos nas negociações não têm sido suficientemente participativo ou democrático, e, portanto, não tem sido capaz de  ouvir as demandas daqueles que historicamente protegem mais a natureza e tem alternativas de soluções para a crise climática. 

É urgente transformar as conferências de clima em espaços participativos, com a presença de cada vez mais povos indígenas e povos e comunidades tradicionais que têm o real lugar de fala, e detém o conhecimento das alternativas às questões climáticas. E que as vozes da rua não sejam impedidas de falar. 

 

Unidade global e força popular marcam Cúpula dos Povos

A Cúpula dos Povos, que mobilizou a sociedade civil, movimentos sociais e povos tradicionais entre 12 e 16 de novembro, em Belém, encerrou suas atividades com um saldo inédito de organização e conquistas políticas. Em um contraponto direto ao caráter negocial da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30), o encontro popular celebrou a unidade global, reunindo cerca de 25 mil pessoas de mais de 65 países, reforçando que a resposta à crise climática brota dos territórios e não dos mercados.

O Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) participou ativamente dos cinco dias de debates, atuando nos seis eixos temáticos propostos pela Cúpula e fortalecendo alianças. 

As vozes que sentem os impactos exigem protagonismo

Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil

As reflexões e propostas levantadas na Cúpula dos Povos destacaram que enfrentar a crise climática é, antes de tudo, defender a democracia e combater as desigualdades históricas.

José Moroni, do colegiado de gestão do Inesc, sublinhou a potência do encontro:

“Foram dias intensos, potentes e cheios de beleza, reunindo organizações, movimentos e povos diretamente impactados por um modelo de desenvolvimento que devasta territórios e vidas. Acreditamos que as soluções reais para a crise climática nascem desses espaços — onde quem mais sente os impactos tem voz, protagonismo e poder de decisão. Sem povo, não há justiça climática, e sem participação popular, não há democracia verdadeira.”

O Inesc e parceiros estiveram presentes e atuantes em diversas atividades, articulando e defendendo agendas cruciais.

Financiamento climático: público, justo e acessível

O debate sobre financiamento climático foi central. Segundo Carolina Alves, assessora política do Inesc, a democratização do financiamento é imperativa. O Inesc denunciou que a maior parte dos recursos globais ainda é dominada por fluxos privados, empréstimos e mecanismos de endividamento que reproduzem a dependência do Sul Global.

“O Inesc defende que o financiamento climático deve ser público, justo e acessível. Isso significa garantir que o dinheiro venha de fontes públicas, não de novos endividamentos; que seja destinado prioritariamente às populações vulneráveis e aos territórios impactados; e que os processos de decisão envolvam participação popular e mecanismos de controle democrático,” defendeu.

Gênero, raça e adaptação climática nos territórios

Em plenárias e oficinas, como a que debateu Gênero e Adaptação Climática, o Inesc reforçou que a adaptação é essencialmente local e deve enfrentar desigualdades de gênero, classe e raça. Carmela Zigoni, assessora política da organização, destacou a importância do conhecimento local:

“Os saberes locais são valiosos e podem trazer soluções verdadeiras para os territórios. Se eles tiverem o devido  apoio governamental, podem ser ajustados a outras realidades locais, replicadas e ganhar escala. Os saberes das mulheres são especialmente importantes para a adaptação climática e o seu papel protagonista tem sido cada vez mais reconhecido.”

Sheilla Dourado, também assessora política do Inesc, defendeu que “a adaptação climática é essencialmente local”, e as desigualdades de gênero, classe e raça precisam ser enfrentadas, com participação ativa de grupos vulneráveis. Ela alerta para o descompasso entre os recursos para adaptação e os destinados à mitigação — muitos chegando a municípios sob a forma de empréstimos, o que limita a ação local.

Transição energética e a luta contra os combustíveis fósseis

O Inesc também levou para o centro dos debates a transição energética justa, destacando a necessidade urgente de abandonar os combustíveis fósseis. Cássio Cardoso Carvalho, assessor político do Instituto, alertou sobre a contradição brasileira: “mesmo com o colapso climático dando sinais severos, o Brasil ainda adota uma política de subsídios que privilegia o petróleo, carvão mineral e o gás natural em detrimento das fontes renováveis.” Ele citou que, em 2024, para cada R$ 1 investido em renováveis, R$ 2,52 foram destinados a fósseis.

Rárison Sampaio complementou, “a transição energética não se resume à descarbonização da matriz. Ela exige enfrentar e erradicar a pobreza energética, garantir direitos humanos nos territórios impactados e assegurar a soberania energética do país.”

Além das atividades autogestionadas e das plenárias gerais, o Inesc também participou da Barqueata, que abriu as atividades da Cúpula, reunindo mais de 200 embarcações transportando cerca de 5 mil pessoas de 62 países. Outro momento marcante da Cúpula dos povos foi a Marcha Global por Justiça Climática. O ato reuniu cerca de 50 mil pessoas que ocuparam as ruas de Belém. 

Carta final: um chamado à ação e solidariedade

O encerramento foi marcado pela entrega ao presidente da COP 30 da Carta Final, um documento contundente elaborado por mais de mil organizações. O texto rejeita veementemente as “falsas soluções de mercado”, como mecanismos de compensação e a financeirização da natureza.

O documento convoca para uma organização global dos povos para enfrentar as estruturas que alimentam as desigualdades e o colapso ambiental, reafirmando que a crise climática é resultado direto do modo de produção capitalista. A principal tarefa política, segundo o documento, é enraizar o internacionalismo em cada território.

Cristiane Ribeiro, do Colegiado de Gestão do Inesc, resumiu os dias de luta:

“Não há justiça climática sem o enfrentamento ao racismo ambiental e às desigualdades raciais, de gênero, de classe e territoriais. É imperativo que o financiamento climático seja público, justo e acessível e com ações que promovam a reparação histórica de injustiças. A COP 30 é uma oportunidade para incorporar a dimensão étnico-racial e reafirmar a dimensão de gênero nas decisões oficiais.”

A Cúpula dos Povos se consolidou como a resposta política à forma como as COPs têm sido conduzidas, priorizando o mercado. O Inesc segue empenhado em lutar por um futuro construído de baixo para cima, onde a participação popular é a chave para a verdadeira justiça climática. 

Para saber mais sobre a Cúpula dos Povos, clique aqui e acesse o site

Jovens das periferias expõem a face da desigualdade no DF em audiência pública

O DF tem uma das maiores desigualdades regionais e raciais dentro do próprio território. O Lago Sul é o bairro com maior renda média do DF e do Brasil e o Itapoã, cidade vizinha, é a região com menor renda média. A primeira tem a maioria da população autodeclarada branca e a segunda negra. Em termos de acesso, a população do Itapoã não tem serviços públicos básicos como creches e hospitais. O transporte é precário e há muitas localidades sem saneamento básico. 

Esses dados e análises, foram coletados durante o projeto Mapa das Desigualdades, trabalho realizado pelo Inesc, apoiado pelo Fundo de Combate a Corrupção, Termo de Fomento No 01/2024, Processo: 00480-00005913/2023-43  junto às juventudes periféricas do DF.  Esses adolescentes e  jovens são sujeitos centrais no enfrentamento e na mobilização pelo combate às desigualdades, por serem grupos fortemente afetados pela falta de direitos, quanto pela energia em prol do ativismo político. 

>>> Confira aqui um resumo informativo com a prévia dos dados

Audiência Pública na CLDF

O ponto alto do projeto de 2025, que reúne jovens de diversas periferias de Brasília para analisar o orçamento e as desigualdades do DF, é a apropriação dos saberes sobre o funcionamento da máquina pública e o incentivo para a luta popular. E uma audiência pública será a oportunidade para apresentarem suas reivindicações.

A audiência acontecerá na terça-feira, dia 18 de novembro, das 18h30 às 21h30, na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) e compõe a programação da Semana Distrital do Hip Hop. Já a publicação Mapa das Desigualdades, com a sistematização dos dados mais atuais da PDAD (2024), que escancara a manutenção dessas desigualdades, será disponibilizada em 10 de dezembro, data em que celebramos o Dia Internacional dos Direitos Humanos.  

“Escolhemos essa data, pois não há como vivenciar integralmente os direitos humanos, sem a garantia orçamentária para políticas públicas e enfrentamento às  desigualdades”, explica Markão Aborígine, educador social do Inesc. 

O evento também contará com a participação de meninas do projeto Malalas do Cerrado, estudantes do CED 1 do Riacho Fundo 2, jovens ativistas por uma educação antirracista e antisexista.

A audiência será conduzida pelos deputados Max Maciel e Fábio Félix e contará com o protagonismo dos adolescentes e jovens formados pelo projeto, que apresentarão dados, gráficos, poesias e músicas, que traduzem essa reflexão, além de apresentarem propostas e recomendações ao poder público, exigindo, além de propostas concretas para superação das desigualdades, maior transparência.

Programação

18h15: Coquetel e sarau

19h15: Abertura com Deputado Max Maciel

19h25: Apresentação musical com Pajé, Camila MC e Nerd do Gueto

19h30: Deputado Fábio Félix

19h35: Cleo Manhas, assessora política do  Inesc

19h40: Exibição do vídeo Mapa das Desigualdades 2025 e apresentação do projeto e dados com Sara Lisboa (Ceilândia) e Victor Queiróz (Paranoá Parque)

20h00: Inscrições público 

20h10: Convidados poder público

20h25: Inscrições público

20h45: Respostas da Mesa

21h00: Apresentação musical com Medusa, Maju, Micaele Melo e Nayane Cruz

21h05: Considerações finais da mesa 

21h15: Encerramento com poesia de jovens do projeto.

COP 30: “Sem financiamento, não há implementação”, afirma Inesc

Começou nesta segunda-feira (10/11), em Belém (PA),  a COP 30 – um marco na história das Conferências de Clima que,  pela primeira vez, terá a Amazônia como palco. Conhecida como a “COP da Implementação”, o encontro gera expectativas em torno das negociações globais sobre o futuro da humanidade. Contudo, o Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômico) alerta que esta precisa ser também a “COP do Financiamento”, ainda que o tema não tenha entrado na agenda de negociações formais, apenas nas consultas informais. 

“Sem financiamento não é possível implementar as ações e planos climáticos. O financiamento é crucial para garantir que os países possam se adaptar aos efeitos das mudanças climáticas e compensar as perdas e danos àquelas pessoas ou grupos de pessoas afetados pelo clima”, afirma Carolina Alves, assessora política do Inesc. 

O Inesc participa com uma delegação de nove pessoas, que levarão aos espaços de debate uma agenda centrada na justiça climática. As principais pautas são: financiamento climático, adaptação climática e gênero, racismo ambiental, transição justa e democracia.

Financiamento: o coração da implementação climática

O Inesc defende que os países desenvolvidos, principais responsáveis pelas emissões históricas de gases de efeito estufa, cumpram as obrigações do Acordo de Paris e financiem as ações climáticas nos países em desenvolvimento — com recursos públicos, não reembolsáveis e acessíveis.

Além disso, para o Instituto, é urgente transferir investimentos de atividades poluentes, como os incentivos aos combustíveis fósseis, para modelos produtivos sustentáveis e inclusivos, que respeitem os direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais.

Outro ponto de atenção é o Fundo de Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), lançado pelo governo brasileiro durante a Cúpula de Líderes da COP 30. Embora celebrado por alguns governos e setores privados, o fundo não foi negociado entre as partes da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima), o que levanta dúvidas sobre sua legitimidade.

“O TFFF pode reforçar a financeirização da natureza, com baixa participação social e recursos insuficientes para povos indígenas e comunidades tradicionais”, alerta Carolina.

Parte da equipe do Inesc em Belém, na COP 30. Foto: Carolina da Mata

Adaptação climática: prioridade e sobrevivência

A adaptação se tornou uma questão de sobrevivência humana. “Diferente de outras COPs, que a mitigação tinha mais peso, nesta, nós estamos vendo que a adaptação climática assume maior protagonismo”, observa Sheilla Dourado, assessora política do Inesc.

A expectativa é que a COP 30 avance  nas negociações da Meta Global de Adaptação (GGA), com seus indicadores, e dos Planos Nacionais de Adaptação (NAPs). Nesta etapa, o Brasil apresentará o Plano Clima Adaptação, que envolve, também, ações de mitigação..

“A adaptação precisa de mais financiamento para ser executada nos países, principalmente os que já sofrem com situações de vulnerabilidade, passados coloniais e déficit histórico no desenvolvimento, agravado pelas mudanças climáticas”, defende Sheilla. 

A Conferência ainda deve aprovar o novo Plano de Ação de Gênero da UNFCCC, um avanço importante para consolidar a participação das mulheres na agenda climática global.

“Os saberes das mulheres são especialmente importantes para a adaptação climática e o seu papel protagonista tem sido cada vez mais reconhecido pelas políticas climáticas, por mobilização das próprias organizações feministas e de mulheres”, afirma Carmela Zigoni, assessora política do Inesc.. 

Racismo ambiental, transição justa e democracia

A crise climática não é neutra. Seus efeitos se sobrepõem a desigualdades históricas e estruturais, atingindo com mais força povos indígenas, comunidades tradicionais e populações negras e periféricas.

Por isso, o Inesc levará à COP 30 o debate sobre racismo ambiental e democracia, reforçando que não há justiça climática sem justiça e participação social.

“É imperativo, em nível global e doméstico, que o financiamento climático seja público, justo e acessível e com ações de adaptação e de mitigação que promovam a reparação histórica de injustiças e desigualdades entre Norte e Sul global, bem como, reconhecer e enfrentar o racismo ambiental”, sublinha Cristiane Ribeiro, do colegiado de gestão do Inesc. 

Para ela, a COP 30 é uma oportunidade histórica para incorporar a dimensão étnico-racial, assim como reafirmar a dimensão de gênero nas decisões e documentos oficiais da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. 

Outra pauta central é a transição energética justa — que deve enfrentar os subsídios aos combustíveis fósseis e garantir mais recursos para as energias renováveis, sem promover ainda mais desigualdades. 

“O Inesc chega a mais uma COP reforçando a necessidade, cada vez mais urgente, de promover um debate plural e participativo sobre a transição energética, tanto no âmbito global quanto no doméstico”, salienta a assessora política do Inesc Alessandra Cardoso. 

Para saber mais sobre o Inesc na COP 30, clique aqui.  

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