Destaques
- Orçamento ambiental federal cresceu em 2025, mas segue abaixo do necessário
- Despesas discricionárias aumentaram cerca de 15%
- Até 90% dos fundos ambientais permanecem contingenciados
- Fiscalização e combate a incêndios tiveram aumento relevante de recursos
- Especialistas apontam necessidade de fortalecer o financiamento climático público
O orçamento ambiental federal apresentou crescimento em 2025, mas continua limitado diante da escala dos desafios climáticos no Brasil. Dados do relatório “Orçamento e Direitos: balanço da execução de políticas públicas (2025)”, do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), mostram avanços na execução financeira, porém com restrições estruturais relevantes.
Execução orçamentária cresce, mas segue insuficiente
A execução financeira dos órgãos ambientais ligados ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima chegou a R$ 4,15 bilhões em 2025, acima dos R$ 3,73 bilhões em 2024.
Apesar do aumento, o estudo destaca que o financiamento ainda é insuficiente para garantir políticas ambientais robustas.
“Os números mostram uma melhora, mas ainda insuficiente diante dos desafios climáticos e ambientais que o país enfrenta”, aponta o relatório.
Despesas obrigatórias são dominadas por gastos com pessoal
As despesas obrigatórias cresceram de R$ 1,95 bilhão (2024) para R$ 2,11 bilhões (2025). Cerca de 84% desses recursos são destinados ao pagamento de pessoal, refletindo a recomposição do quadro técnico.
Em 2025, foram registrados 986 novos servidores ambientais, frente a 212 no ano anterior.
Aumento das despesas discricionárias
As despesas discricionárias — essenciais para a execução de políticas públicas — cresceram cerca de 15%, passando de R$ 1,54 bilhão para R$ 1,77 bilhão.
Mesmo assim, esses gastos continuam pressionados pelas regras do novo arcabouço fiscal, que limita o crescimento das despesas primárias.
Avanços no combate a incêndios e fiscalização ambiental
O relatório aponta melhora significativa na execução financeira em ações estratégicas:
- Combate a incêndios florestais (Ibama):
- R$ 202,65 milhões em 2025
- R$ 126 milhões em 2024
- Crescimento de aproximadamente 61%
- O reforço contou, em parte, com créditos extraordinários (R$ 148 milhões), utilizados para ampliar a capacidade de atuação preventiva de combate a incêndios florestais.
- Fiscalização ambiental voltada ao combate ao desmatamento (Ibama e ICMBio):
- R$ 533 milhões em 2025
- R$ 440 milhões em 2024
- Crescimento real de cerca de 21%
Federalismo climático ganha espaço
A iniciativa União com Municípios, apoiada pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA), é destacada como um exemplo positivo.
“Houve uma boa capacidade de articulação institucional com vistas à mobilização de recursos, dentro e fora do orçamento público, para viabilizar arranjos de financiamento que, na prática, podem ser entendidos como um bom experimento de federalismo climático”, aponta o relatório.
Contudo, é importante destacar que o FNMA conta com uma dotação orçamentária bastante limitada. Embora receba 50% das multas ambientais, o Fundo enfrenta severas restrições fiscais: entre 80% e 90% dos recursos ficam contingenciados anualmente para o pagamento da dívida pública. Como vem sendo apontado pelo Inesc, essa situação impede a ampliação de mecanismos de apoio financeiro aos demais entes federativos.
Bioeconomia e inclusão social avançam
O programa Bolsa Verde, principal política federal de pagamento por serviços ambientais, também registrou crescimento:
- R$ 168,54 milhões executados em 2025, ligeiramente acima dos R$ 128,70 milhões registrados em 2024 (aproximadamente 31% de aumento).
- 138.508 famílias beneficiadas em 2025, frente as 126.922 famílias registradas no ano anterior (alta de aproximadamente 9% em relação a 2024)
Financiamento climático ainda é limitado
Apesar da expansão do Fundo Clima em operações reembolsáveis via BNDES, a parcela não reembolsável – voltada diretamente ao financiamento de políticas públicas – continua bastante limitada.
Em 2025, a ação de fomento a estudos e projetos para mitigação e adaptação à mudança do clima registrou execução de R$ 3,98 milhões, valor inferior aos R$ 5,22 milhões executados em 2024.
Desafios estruturais persistem
Segundo o Inesc, os avanços ocorreram dentro de limites fiscais rígidos e com baixa priorização orçamentária.
“Os avanços observados ocorreram dentro de limites severos impostos pelas regras fiscais e pela baixa priorização orçamentária da agenda ambiental”, destaca a análise.
Especialistas alertam que, sem ampliação de recursos e maior coordenação entre os entes federativos, o Brasil terá dificuldades para implementar estratégias climáticas estruturais e efetivas.
Recomendações do relatório
- Fortalecer o federalismo climático com mecanismos permanentes de financiamento público
- Garantir transferências regulares de recursos da União para estados e municípios, com metas e transparência
- Consolidar o financiamento público da agenda ambiental e climática, especialmente para o Plano Clima
- Proteger recursos ambientais das restrições do atual arcabouço fiscal
- Vincular emendas parlamentares a critérios de governança climática
- Ampliar iniciativas como União com Municípios e Adapta Cidades
- Direcionar mais recursos do FNMA e do Fundo Clima para ações estruturantes

Representante do colegiado de gestão do Inesc no evento, José Antônio Moroni destacou que a taxação não é apenas uma questão técnica, mas um debate sobre a identidade produtiva do país.
O Inesc, integrante da coordenação da Rede de Justiça Fiscal para a América Latina e o Caribe, que, por sua vez, compõe a Aliança Global pela Justiça Fiscal, participou ativamente dessa quarta rodada de negociações em Nova York, realizando intervenções no plenário e contribuindo em eventos paralelos organizados pela sociedade civil.
“Ao longo do projeto, foram realizadas 13 oficinas em cada região, organizadas em cinco eixos temáticos: raça, gênero e interseccionalidade; direitos humanos e políticas públicas; direito à cidade e à cultura; orçamento público e direitos humanos; e metodologia de pesquisa em educação popular”, explica Thallita Oliveira, assessora política do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos). De acordo com ela, as atividades buscaram articular teoria e prática, sempre partindo das vivências dos territórios e das realidades dos jovens participantes.
“O Grito das Periferias mostrou que a nossa voz tem valor. O projeto foi um espaço de formação, escuta e fortalecimento coletivo, que me ajudou a compreender meus direitos, ganhar confiança para ocupar espaços de participação política e transformar a minha história, e a do meu território, em força e resistência”, afirma Aline Lopes de Souza, moradora do Itapoã e participante do projeto.
“O Grito das Periferias aproximou a política do nosso cotidiano e mostrou que ela é uma ferramenta real de luta e transformação. Como jovem da Ceilândia, encontrei um espaço de formação política feito com escuta, afeto e responsabilidade social, que fortaleceu minha confiança, o valor da minha voz e o sentimento de pertencimento à periferia”, destaca Raquel Adla Freitas de Aguiar, participante do projeto.
“O Grito das Periferias rompe com a lógica que trata a periferia como número e coloca nossas vozes no centro. Para mim, foi um processo transformador, que ampliou minha consciência política, fortaleceu minha atuação cultural e reafirmou meu compromisso com a defesa dos direitos humanos na Cidade Estrutural. É um espaço de escuta, formação e fortalecimento coletivo, que valoriza os saberes do território e mostra que é possível ocupar espaços de decisão e lutar por políticas públicas mais justas”, afirma Ronnalty Cordeiro
Para Thallita, o projeto foi fortalecido pelas parcerias construídas nos territórios:
O projeto teve como objetivo fortalecer a capacidade de jovens para monitorar políticas públicas e incidir junto ao poder público do DF, contribuindo para o aumento da transparência fiscal e para a ampliação de recursos destinados às populações historicamente vulnerabilizadas. Mais do que lidar com dados e números, o processo colocou a juventude no centro da produção de narrativas sobre suas próprias realidades. “Mais do que dados e números, o Mapa é transformação, é voz, é luta e é a potência da juventude periférica construindo narrativas sobre suas próprias realidades”, sintetiza Markão Aborígine, educador social do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos).
Ao todo, foram realizadas 11 oficinas de formação em orçamento, direitos e políticas públicas; duas oficinas de educomunicação; seis oficinas de análise de dados e pesquisa; dois saraus político-culturais e uma audiência pública. O projeto formou 30 jovens, dos quais 15 passaram a compor um Comitê de Monitoramento do Orçamento Público, Transparência e Direitos Humanos, com ênfase nas políticas de educação, mobilidade urbana, raça e gênero do DF. “Este Comitê, apoiado pela equipe do Inesc, foi responsável pela análise dos dados que deram origem ao Mapa e definiram as ações de incidência e territoriais ao longo do projeto”, explica Cristiane Ribeiro, do colegiado de gestão do Inesc. 


O Inesc esteve presente em todo o processo de construção da 2ª Marcha das Mulheres Negras, contribuindo politicamente e institucionalmente para sua realização.
