O Brasil vive um novo momento de orgulho com o cinema nacional. Um ano após Ainda Estou Aqui conquistar a estatueta de Melhor Filme Internacional, o país volta a ganhar destaque com O Agente Secreto, indicado a quatro categorias do Oscar. Além da qualidade cinematográfica e de um elenco de peso, com Wagner Moura e Fernanda Torres como principais expoentes, os filmes têm em comum a denúncia dos horrores vividos durante os anos da ditadura brasileira.
Por que tem sido tão importante falar sobre a ditadura na cultura brasileira? Em um país que nunca responsabilizou seus torturadores – e que segue sofrendo ataques antidemocráticos, como os de 8 de janeiro de 2023 – a arte tem ocupado o papel de revelar feridas abertas e de insistir que memória, verdade e justiça não podem ser adiadas.
Comissão da Verdade
Diferente de outros países latinoamericanos que passaram por ditaduras militares, como a Argentina, o Brasil nunca puniu os algozes dos anos de chumbo. A anistia beneficiou agentes da ditadura, sem responsabilizá-los por torturas, desaparecimentos e mortes.
Foi só na gestão da ex-presidenta Dilma Rousseff que a verdade veio à tona como política pública. A Comissão Nacional da Verdade (CNV) ajudou a revelar o passado e acendeu o debate público sobre memória e justiça no Brasil.
Foram dois anos e sete meses de trabalhos, que deram origem a um relatório em que foram apontados 377 responsáveis por crimes durante a ditadura militar e contabilizadas 434 mortes e desaparecimentos de vítimas do regime.
Eunice Paiva
É nesse contexto pós-CNV que o setor cultural brasileiro passou a resgatar relatos e histórias, como a de Eunice Paiva, protagonista de Ainda Estou Aqui, que ficou 25 anos sem respostas sobre o paradeiro de seu marido, Rubens Paiva, desaparecido pela ditadura em 1971.
Eunice conseguiu a primeira certidão de óbito do marido em 1996, mas ela não indicava a causa da morte, sendo retificada mais recentemente, em 2025, para constar como morte violenta causada pelo Estado brasileiro, após uma longa luta por justiça.
O Agente Secreto
Também é nesse contexto que se situa O Agente Secreto. Ao contar a história de um pesquisador perseguido pelo regime, o longa recém lançado aborda um Brasil que, ainda hoje, descobre e confronta um passado mal resolvido.
Outro mérito do filme é evidenciar o envolvimento do setor empresarial na articulação e no apoio ao regime militar daquela época. O vilão, um empresário representante da indústria, usa seu poder econômico e contrata ex-agentes do Estado para eliminar o protagonista, interpretado por Wagner Moura.
Anistia
Nós conhecemos muito bem essa história. O Inesc também nasceu do trabalho de uma mulher que viveu as violências do período ditatorial. Maria José Jaime, ou Bizeh, nossa fundadora, chegou a ser exilada e ajudou a criar a Lei da Anistia de 1979.
Vale lembrar que o debate sobre a anistia ganha hoje outro significado. Em 8 de janeiro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou integralmente o Projeto de Lei nº 2.162/2023, conhecido como “PL da Dosimetria”, que previa a redução de penas de condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. A decisão sinaliza um avanço na responsabilização das pessoas que tentaram implementar um golpe de Estado, embora ainda permaneça o desafio de alcançar aqueles que financiaram e deram sustentação política às ações golpistas.
E é preciso ir além: fortalecer a participação popular e garantir o controle civil sobre as forças armadas. É por isso que desde 1979, o Inesc luta por uma democracia brasileira efetiva, que mude a vida das pessoas. Sempre de olho no orçamento público.
Ditadura nunca mais!
É verdade que o trabalho de recontar os horrores da ditadura não é novidade no cinema brasileiro. Filmes como Marighella, O que é isso companheiro?, Cabra Marcado Para Morrer, Zuzu Angel, Batismo de Sangue e muitos outros compõem uma longa lista de um cinema engajado com a luta pela memória e verdade.
Mas os sucessos de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto são sinais de que o Brasil se recusa a varrer para debaixo do tapete um passado cruel, violento e não superado (muito menos reparado). Porque recontar o passado é também proteger o futuro.

“Ao longo do projeto, foram realizadas 13 oficinas em cada região, organizadas em cinco eixos temáticos: raça, gênero e interseccionalidade; direitos humanos e políticas públicas; direito à cidade e à cultura; orçamento público e direitos humanos; e metodologia de pesquisa em educação popular”, explica Thallita Oliveira, assessora política do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos). De acordo com ela, as atividades buscaram articular teoria e prática, sempre partindo das vivências dos territórios e das realidades dos jovens participantes.
“O Grito das Periferias mostrou que a nossa voz tem valor. O projeto foi um espaço de formação, escuta e fortalecimento coletivo, que me ajudou a compreender meus direitos, ganhar confiança para ocupar espaços de participação política e transformar a minha história, e a do meu território, em força e resistência”, afirma Aline Lopes de Souza, moradora do Itapoã e participante do projeto.
“O Grito das Periferias aproximou a política do nosso cotidiano e mostrou que ela é uma ferramenta real de luta e transformação. Como jovem da Ceilândia, encontrei um espaço de formação política feito com escuta, afeto e responsabilidade social, que fortaleceu minha confiança, o valor da minha voz e o sentimento de pertencimento à periferia”, destaca Raquel Adla Freitas de Aguiar, participante do projeto.
“O Grito das Periferias rompe com a lógica que trata a periferia como número e coloca nossas vozes no centro. Para mim, foi um processo transformador, que ampliou minha consciência política, fortaleceu minha atuação cultural e reafirmou meu compromisso com a defesa dos direitos humanos na Cidade Estrutural. É um espaço de escuta, formação e fortalecimento coletivo, que valoriza os saberes do território e mostra que é possível ocupar espaços de decisão e lutar por políticas públicas mais justas”, afirma Ronnalty Cordeiro
Para Thallita, o projeto foi fortalecido pelas parcerias construídas nos territórios:
O projeto teve como objetivo fortalecer a capacidade de jovens para monitorar políticas públicas e incidir junto ao poder público do DF, contribuindo para o aumento da transparência fiscal e para a ampliação de recursos destinados às populações historicamente vulnerabilizadas. Mais do que lidar com dados e números, o processo colocou a juventude no centro da produção de narrativas sobre suas próprias realidades. “Mais do que dados e números, o Mapa é transformação, é voz, é luta e é a potência da juventude periférica construindo narrativas sobre suas próprias realidades”, sintetiza Markão Aborígine, educador social do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos).
Ao todo, foram realizadas 11 oficinas de formação em orçamento, direitos e políticas públicas; duas oficinas de educomunicação; seis oficinas de análise de dados e pesquisa; dois saraus político-culturais e uma audiência pública. O projeto formou 30 jovens, dos quais 15 passaram a compor um Comitê de Monitoramento do Orçamento Público, Transparência e Direitos Humanos, com ênfase nas políticas de educação, mobilidade urbana, raça e gênero do DF. “Este Comitê, apoiado pela equipe do Inesc, foi responsável pela análise dos dados que deram origem ao Mapa e definiram as ações de incidência e territoriais ao longo do projeto”, explica Cristiane Ribeiro, do colegiado de gestão do Inesc. 


O Inesc esteve presente em todo o processo de construção da 2ª Marcha das Mulheres Negras, contribuindo politicamente e institucionalmente para sua realização.


O encerramento foi marcado pela entrega ao presidente da COP 30 da 