Está na hora de usar o nome correto para o que está acontecendo, não estamos falando mais de desastres naturais, e sim de resultados da interferência humana no meio ambiente! Quando se tem avisos, alertas e previsão, e ainda sim não tem adaptação, a população fica com as perdas e os danos. A realidade das mudanças do clima no Brasil já é escancarada com as enchentes no Rio Grande do Sul (RS), na semana dos dias 20 a 24 de julho, que deixaram mais de 1,8 mil pessoas fora de suas casas; e os temporais em São Paulo, que atingiram diversas cidades do interior do estado, com algumas como Guariba tendo pelo menos 70% das casas destruídas. Quando se deixa a adaptação de lado, as perdas materiais e humanas são grandes.
Os alertas antecipados de chuva no RS avisaram sobre a intensidade do fenômeno, o que causou preocupação e ansiedade na população, que ainda lida com o trauma das enchentes de 2024. Diante desse cenário, os governos tiveram a chance de mostrar que aprenderam com os erros do passado, porém a percepção das pessoas nas ruas é que nada efetivo foi feito para evitar o seu deslocamento para locais seguros. Os rios Taquari, Jacuí e Uruguai estão entre os que têm risco de cheias, e a bacia do Guaíba tem risco de ficar acima da cota de inundação, o que traz uma carga de ansiedade e preocupação para os moradores das ilhas e das margens do rio.
Desde o começo do ano, os meteorologistas têm avisado sobre os impactos do El Niño que começa a se desenvolver no país, e tem previsão de alcance de maior potência entre o final de 2026 e início de 2027. Frente a isso, o governo federal criou uma sala de situação permanente do El Niño para lidar com os efeitos do fenômeno, sob coordenação da Casa Civil e em conjunto com 13 ministérios e outros órgãos públicos. Porém sem a integração dessa governança com as estruturas dos governos estaduais e municipais e a destinação adequada de recursos para prevenção e adaptação, os esforços não serão suficientes. Os episódios no Rio Grande do Sul e São Paulo mostram o potencial destrutivo do El Niño no país, embora em menor intensidade, e evidenciam somente um lado do problema, pois as secas na região Centro-Norte representam um desafio bem diferente em termos de políticas públicas.
O Inesc mostrou em seu relatório Orçamento e Direitos 2025, a redução de 66% dos recursos autorizados para o programa de Gestão de Riscos e Desastres e de 59,57% da sua execução financeira. Esse programa tem como um dos objetivos ampliar a capacidade de prevenção, gestão de riscos e resposta a desastres, portanto, tal redução vai na contramão do que é extremamente necessário dadas as previsões climáticas para o ano, e os eventos que já ocorreram no país nas últimas semanas. Sendo que, esse ano dos quase R$ 3 milhões autorizados para esse programa, somente 62,39% foram empenhados e 29,56% foram pagos.
A ausência de recursos para prevenção, quando os extremos acontecem, gera a necessidade de reconhecimento do governo federal de uma situação de emergência para liberação de recursos para restabelecimento dos serviços básicos e reconstrução das cidades mais atingidas. Não dá mais para trabalhar com perdas e danos, lidar com os desastres só quando acontecem, é necessário lidar com as causas dos problemas.
A lacuna de financiamento para adaptação não é uma questão somente para o Brasil, o mundo ainda não foi capaz de lidar com essa parte da ação climática. Na UNFCCC essa discussão ganhou um capítulo positivo com a decisão na COP 30 de se triplicar o financiamento para adaptação. Porém, não foi estabelecido o ano de referência ao qual vai ser triplicado.
Na Conferência de Bonn, a chamada pré COP, que ocorreu em junho de 2026, não houve muito progresso nessa questão. Um grande entrave é garantir que o Fundo de Adaptação passe a ser subordinado ao Acordo de Paris, e as discussões para que isso aconteça giraram em torno de quem paga essa conta ou não. Uma ideia também era discutir esse financiamento dentro da agenda de financiamento, com o Diálogo de Veredas e o Programa de Trabalho de Financiamento Climático, mas as discussões também não avançaram.
É necessário responsabilizar os países do Norte pelas emissões históricas e os danos causados ao meio ambiente, e a garantia de recursos para que os países do Sul Global possam se adaptar aos desafios impostos pelo clima. É preciso colocar a adaptação no centro dos debates nacionais e internacionais, garantindo que os efeitos do clima não nos levem a perdas e danos irreparáveis para a população e o meio ambiente. É imperativo que os governos se preparem e se antecipem frente aos eventos extremos cada vez mais frequentes, de forma a prevenir a destruição de comunidades e modos de vida.

