A transição energética deixou de ser apenas uma estratégia para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e enfrentar as mudanças climáticas. O processo está redesenhando cadeias produtivas, modificando o mercado de trabalho e impondo novos desafios para governos, empresas, trabalhadores e comunidades. Ao mesmo tempo em que surgem investimentos em energia eólica, solar, hidrogênio de baixo carbono e novas tecnologias, cresce o debate sobre quem se beneficia dessa transformação e quem assume seus custos sociais, econômicos e ambientais.
A mudança da matriz energética representa uma das maiores transformações econômicas das últimas décadas. Embora seja frequentemente associada à substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis, a realidade é mais complexa. Em diversos países, incluindo o Brasil, observa-se a expansão simultânea das energias renováveis e da exploração de petróleo, gás e minerais estratégicos, criando um cenário de sobreposição de modelos energéticos e ampliando a disputa por territórios e recursos naturais.
Essa transformação altera profundamente o mundo do trabalho. Novas ocupações surgem enquanto outras passam por mudanças estruturais, exigindo qualificação profissional, adaptação tecnológica e novos mecanismos de proteção social. Ao mesmo tempo, trabalhadores de setores tradicionais convivem com incertezas sobre empregos, renda e condições de trabalho durante esse processo de mudança.
Nesse contexto, ganha espaço o conceito de transição energética justa, que propõe conciliar a redução das emissões de carbono com a geração de trabalho decente, a proteção dos Direitos Humanos, a participação das comunidades e a redução das desigualdades sociais. A proposta parte do entendimento de que a descarbonização da economia não deve reproduzir as mesmas formas de exclusão que marcaram outros ciclos de desenvolvimento econômico.
A discussão também envolve soberania energética. O fortalecimento das fontes renováveis depende não apenas da expansão da infraestrutura, mas também da capacidade dos países de desenvolver tecnologia, indústria, inovação e agregação de valor. Caso contrário, existe o risco de aprofundar uma divisão internacional do trabalho na qual países produtores de matérias-primas continuam exportando recursos naturais enquanto as etapas de maior valor econômico permanecem concentradas nas economias mais industrializadas.
Essa preocupação torna-se ainda mais relevante diante da crescente demanda mundial por minerais necessários para a transição energética. Lítio, cobre, níquel, terras raras e outros minerais passaram a ocupar posição central na produção de baterias, equipamentos eletrônicos e sistemas de geração de energia renovável. Como consequência, aumenta a pressão sobre territórios ricos nesses recursos, especialmente em países do Sul Global.
Mudanças climáticas já afetam as condições de trabalho
Os efeitos das mudanças climáticas sobre o mercado de trabalho deixaram de representar um risco futuro para se tornarem uma realidade. O aumento das temperaturas, a intensificação das ondas de calor e a maior frequência de eventos climáticos extremos afetam diretamente a produtividade, a saúde ocupacional e a organização das atividades econômicas.
As projeções da Organização Mundial do Trabalho (OIT) indicam que, até 2030, aproximadamente 2% das horas trabalhadas no mundo poderão ser perdidas em consequência do calor extremo. Os impactos tendem a atingir principalmente atividades realizadas ao ar livre ou em ambientes com pouca proteção térmica, como agricultura, construção civil, limpeza urbana, mineração e diversos serviços essenciais.
Além das perdas econômicas, cresce o número de notificações relacionadas aos efeitos do calor sobre os trabalhadores. O aumento dos registros evidencia que a crise climática também se manifesta como um problema de saúde pública e de proteção ao trabalho, exigindo adaptações nas jornadas, nos equipamentos de proteção e nas condições oferecidas pelos empregadores.
As negociações coletivas começam a incorporar esse novo cenário. Foram identificadas centenas de cláusulas em acordos de trabalho relacionadas às mudanças climáticas, abordando medidas como fornecimento de protetor solar, proteção contra calor extremo, adaptações nas condições de trabalho e mecanismos para reduzir riscos ocupacionais decorrentes das alterações climáticas. As mobilizações sindicais também refletem essa mudança. Questões relacionadas ao clima passaram a aparecer com maior frequência em negociações e movimentos organizados por trabalhadores de diferentes categorias, especialmente aquelas mais expostas aos impactos ambientais no cotidiano das atividades profissionais.
Empregos verdes ainda convivem com precarização
A expansão da economia de baixo carbono é frequentemente associada à criação dos chamados empregos verdes. Essas ocupações estão ligadas a atividades capazes de reduzir impactos ambientais, aumentar a eficiência energética e apoiar a descarbonização da economia.
Apesar desse potencial, a participação desses empregos ainda é limitada no mercado formal brasileiro. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), aproximadamente 6% dos empregos formais podem ser classificados como empregos verdes. Além da participação reduzida, muitos desses postos apresentam remuneração inferior à média nacional e condições de trabalho que ainda não refletem o conceito de trabalho decente.
Esse cenário evidencia que a criação de empregos vinculados à transição energética, por si só, não garante desenvolvimento social. A qualidade das ocupações, a remuneração, a estabilidade dos contratos, a proteção trabalhista e as oportunidades de qualificação profissional tornam-se fatores decisivos para que a transição produza benefícios efetivos para a população.
O desafio é evitar que a economia de baixo carbono reproduza problemas já observados em outros setores econômicos, como terceirização excessiva, informalidade, baixa remuneração e concentração dos ganhos econômicos em poucos segmentos empresariais.
Justiça climática exige que os benefícios da transição sejam distribuídos de forma mais equilibrada
A discussão sobre transição energética ultrapassa a substituição de fontes fósseis por energias renováveis. O processo também envolve a forma como os benefícios econômicos, os impactos ambientais e as oportunidades de trabalho são distribuídos entre diferentes grupos sociais e territórios. É sob essa ótica que a justiça climática ganha centralidade.
Uma transição considerada justa pressupõe que trabalhadores, comunidades locais e populações diretamente afetadas participem das decisões sobre grandes empreendimentos energéticos. Também exige que políticas públicas sejam capazes de reduzir desigualdades históricas, fortalecer os direitos humanos e garantir que a expansão da economia de baixo carbono produza desenvolvimento social, e não apenas crescimento econômico.
Esse debate também envolve o papel do Estado no planejamento energético. A expansão das fontes renováveis depende de investimentos em infraestrutura, inovação, pesquisa, qualificação profissional e desenvolvimento industrial. Sem políticas públicas articuladas, há o risco de que a transição reproduza um modelo baseado apenas na exportação de matérias-primas e na concentração dos ganhos econômicos em poucas empresas.
Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com o chamado colonialismo energético. O conceito descreve situações em que regiões ricas em recursos naturais concentram os impactos ambientais e sociais da produção de energia ou da extração de minerais estratégicos, enquanto o valor agregado, a tecnologia e a maior parte dos benefícios econômicos permanecem concentrados em outros mercados. A expansão da demanda global por minerais torna esse debate ainda mais relevante para países que possuem grandes reservas naturais.
A expansão das energias renováveis também produz conflitos nos territórios
A instalação de grandes empreendimentos de energia renovável tem provocado mudanças significativas em diversos territórios brasileiros. Embora esses projetos sejam fundamentais para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, sua implantação também pode gerar impactos sobre comunidades rurais, agricultores familiares e ecossistemas.
Um dos exemplos analisados é o município de Serra do Mel, no Rio Grande do Norte, onde a expansão da geração eólica transformou profundamente a dinâmica econômica local. Apesar do aumento do Produto Interno Bruto (PIB) municipal, os benefícios não foram distribuídos de forma proporcional entre a população.
Os estudos apontam redução da renda de agricultores familiares, especialmente produtores de castanha de caju, crescimento da dependência de programas sociais e baixa geração de empregos permanentes diretamente vinculados aos empreendimentos de energia. Levantamento realizado no município identificou apenas um emprego diretamente ligado à empresa responsável pela operação do parque eólico, evidenciando a diferença entre o volume de investimentos e a capacidade efetiva de geração de postos de trabalho permanentes.
Gênero também influencia os impactos da transição energética
As desigualdades de gênero atravessam o debate sobre o futuro do trabalho e tornam-se ainda mais evidentes diante dos efeitos das mudanças climáticas.
Os registros relacionados aos impactos do calor extremo sobre trabalhadores mostram aumento das notificações envolvendo mulheres, indicando que elas também enfrentam vulnerabilidades específicas no ambiente laboral. Essa realidade reforça a necessidade de incorporar a perspectiva de gênero às políticas voltadas para adaptação climática, saúde do trabalhador e organização das novas cadeias produtivas.
A discussão também evidencia que a expansão da economia de baixo carbono representa uma oportunidade para ampliar a participação feminina em setores historicamente marcados pela predominância masculina, como energia, mineração, infraestrutura e indústria. No entanto, essa mudança depende de políticas de formação profissional, inclusão e acesso igualitário às novas oportunidades de trabalho.
Sem essas iniciativas, existe o risco de que as ocupações mais qualificadas e melhor remuneradas continuem concentradas entre os mesmos grupos que tradicionalmente ocupam esses espaços, enquanto mulheres permanecem em atividades mais precárias ou menos valorizadas economicamente. A transição energética, portanto, não elimina desigualdades estruturais por si só. Ela cria a oportunidade de enfrentá-las, desde que gênero, raça e justiça social sejam incorporados ao planejamento das políticas públicas e das estratégias empresariais.
A construção de uma economia de baixo carbono exige, portanto, uma visão que vá além da redução das emissões de gases de efeito estufa. A transformação da matriz energética também depende da criação de empregos de qualidade, da proteção dos direitos trabalhistas, da participação das comunidades nas decisões sobre grandes empreendimentos e da distribuição mais equilibrada dos benefícios econômicos gerados por essa mudança.
Nesse cenário, a transição energética poderia deixar de ser apenas uma agenda ambiental para se transformar como uma agenda de desenvolvimento. Seu sucesso dependerá da capacidade de combinar redução de consumo, aumento da eficiência energética, inovação tecnológica, fortalecimento da indústria nacional, valorização do trabalho, respeito aos direitos humanos e redução das desigualdades sociais, garantindo que a economia de baixo carbono seja construída com inclusão e justiça climática.
Soberania energética também faz parte da transição
Para representantes do movimento sindical, a construção de uma transição energética justa também depende do fortalecimento da capacidade de planejamento do Estado. Essa visão defende que a soberania energética brasileira passa pela recuperação do controle público sobre setores considerados estratégicos, como a transformação da Petrobras. O argumento é que nenhum país promoveu transformações estruturais em sua matriz produtiva apenas pelas forças de mercado e que políticas industriais, energéticas e de inovação precisam estar articuladas para evitar que o Brasil permaneça apenas como fornecedor de matérias-primas para a economia de baixo carbono.
Essa perspectiva também associa a atual corrida por minerais e pela expansão das energias renováveis à permanência de um modelo de exploração considerado colonial. Segundo essa avaliação, embora a energia produzida seja renovável, os benefícios econômicos, tecnológicos e industriais continuam concentrados nos países mais ricos, enquanto os impactos sociais e ambientais recaem principalmente sobre os territórios do Sul Global.
Sob esta perspectiva, ganha relevância a defesa de um marco regulatório nacional sobre Direitos Humanos e Empresas, capaz de ampliar a responsabilização das corporações por violações de direitos e fortalecer a participação das comunidades afetadas nos processos decisórios.
O debate também alcança o papel do petróleo na transição energética. Embora o Brasil possua uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, especialistas destacam que o país apresenta características distintas do cenário internacional, tanto pelo perfil de suas emissões quanto pela importância estratégica da Petrobras. A discussão envolve o volume de investimentos da empresa em descarbonização e novas fontes de energia, a expansão dos biocombustíveis e os desafios de compatibilizar essa estratégia com a forte participação da agropecuária nas emissões brasileiras. Para os pesquisadores, a transição energética não significa apenas substituir fontes de energia, mas definir qual modelo de desenvolvimento, industrialização e geração de empregos o país pretende construir.
Saiba mais
Este texto foi baseado na aula do economista e pesquisador do DIEESE, Cloviomar Cararine, e da Secretária Nacional de Políticas Sociais e Direitos Humanos da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Jandyra Uehara, para o curso de formação do projeto Justiça na Transição Energética.
Para compreender e se aprofundar no tema, confira também os materiais utilizados como referência neste artigo:
Aurora Lab (2025) Propostas de trabalhadoras e trabalhadores para uma transição energética justa: petroleiras e petroleiros
Aurora Lab (2025) Propostas de trabalhadoras e trabalhadores para uma transição energética justa: urbanitárias e urbanitários
CUT (2021) Transição justa: uma proposta sindical para abordar a crise climática e social. São Paulo: Central Única dos Trabalhadores
DIEESE. Empregos Verdes e Sustentáveis no Brasil. São Paulo: DIEESE, 2022.
DIEESE. Seminário Trabalho e clima: os desafios da transição justa – webinário
ICS (2025) Diálogos sobre trabalho e clima. Instituto Clima e Sociedade.
OIT. Trabalhar num planeta mais quente: O impacto do stress térmico na produtividade do trabalho e no trabalho digno. OIT, 2020.
UGT (2025) Trabalho e Meio Ambiente: Pauta da classe trabalhadora

