Transição energética e interseccionalidade: os desafios para uma mudança de matriz que não reproduza desigualdades

20/05/2026, às 10:20 | Tempo estimado de leitura: 7 min
O debate sobre a descarbonização revela que a transição energética não é apenas técnica, mas um processo político que impacta de forma desproporcional diferentes gêneros, raças e territórios
painéis fotovoltaicos
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A transição energética global, frequentemente apresentada como a solução definitiva para a crise climática, carrega consigo camadas de complexidade que vão muito além da substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis. O modelo atual de transição corre o risco de se tornar uma “falsa solução” se ignorar as estruturas de poder que definem quem ganha e quem perde com as novas tecnologias verdes.

Um dos pontos centrais da discussão é como a transição energética tem sido pautada por uma visão reducionista da  “natureza climatizada”. Nesse modelo, a complexidade dos ecossistemas é reduzida a métricas de carbono e unidades de energia.

Essa abordagem favorece uma transição liderada pelo “Norte Global”, onde a tecnologia e o capital estão concentrados, enquanto o “Sul Global” assume o papel de fornecedor de matérias-primas (como lítio e cobalto)  e de território para grandes parques eólicos e solares. O resultado é uma transição que mantém a lógica de acumulação, transformando a crise ambiental em uma nova fronteira de mercado.

A análise interseccional revela uma divisão clara no modo como a transição é gerida. O campo da mitigação, que envolve a troca da matriz energética e grandes inovações tecnológicas, é um espaço majoritariamente masculino e branco. É onde se concentram os investimentos pesados e as decisões políticas de alto nível.

Por outro lado, o campo da adaptação, que lida com os efeitos diretos da mudança climática nos territórios e na infraestrutura urbana, é feminilizado e subfinanciado. As mulheres, especialmente as negras e indígenas, são as que mais sofrem com a precariedade energética e com a falta de infraestrutura, uma vez que são elas que desempenham a maior parte do trabalho de cuidado e manutenção da vida doméstica.

O impacto das renováveis nos territórios: o caso do Nordeste

A transição energética renovável não é isenta de impactos socioambientais. No Nordeste brasileiro, a chegada de grandes parques eólicos tem gerado conflitos que exemplificam a falta de justiça energética:

  • Zonas de sacrifício: territórios são ocupados sem consulta prévia adequada às comunidades locais, alterando modos de vida tradicionais.
  • Invisibilidade de impactos sociais: o aumento da violência em áreas de canteiros de obras e o fenômeno de filhos de funcionários dessas empresas com mulheres das comunidades que são abandonados por esses pais após o final das obras, os “filhos do vento”, são externalidades raramente contabilizadas nos relatórios de sustentabilidade das empresas.
  • Desigualdade econômica: Mulheres que dependem da terra ou da pesca para subsistência muitas vezes não são reconhecidas como “atingidas” legalmente, o que as exclui de compensações e as empurra para uma maior vulnerabilidade social.

Para além do carbono: em busca de uma transição ecossocial

Não basta descarbonizar a economia se a estrutura social que produz desigualdades permanecer intacta. Uma transição energética justa deve ser, necessariamente, antirracista e feminista. Isso significa:

  • Participação decisória: romper o “pacto da branquitude” nas instâncias onde se decide o futuro da energia.
  • Reparação e território: garantir que a energia gerada nos territórios beneficie primeiramente quem neles habita, em vez de servir apenas para exportação ou grandes indústrias.
  • Valorização de saberes: integrar conhecimentos tradicionais e tecnologias sociais que já promovem a resiliência climática fora da lógica puramente mercantil.

A transição energética, portanto, deve ser encarada como um ponto de mutação civilizatório. O desafio não é apenas mudar a fonte de energia que acende as luzes, mas transformar as relações de poder que decidem quem tem o direito de viver com dignidade e segurança em um planeta em transformação.

Saiba mais

Este texto foi baseado na aula da bióloga Lígia Galbiati, coordenadora de Energia e gênero do International Energy Initiative (IEI Brasil), para o curso de formação do projeto Justiça na Transição Energética. Para compreender e se aprofundar no tema, confira também os materiais: 

GALBIATI, Lígia Amoroso (at.al) Equidade de gênero nos espaços de governança climática federal brasileira. In: Anais do X Encontro Nacional da Anppas. Anais…Campinas(SP) Unicamp, 2021. 

GALBIATI, L. (2026). Mediações  sociotécnicas da transição energética: impactos da chegada da energia solar em comunidade isolada da Amazônia brasileira Revista Brasileira De Estudos CTS, 1(2), 55–72. 

GALBIATI, Lígia Amoroso (at.al) Rumo a transições energéticas justas: uma reflexão sobre etnia e gênero Aliança TEJI (Transição Energética Justa e Igualitária). Publicado em 29 de dezembro de 2025.

MATHEUS, Tatiane.  Adaptação e transição energética: Plano Nordeste Potência desenvolve salvaguardas de gênero para empreendimentos de energia. Págs.  212-218.

in MATHEUS, T.  E GALBIATI, L. (Org.) Caminhos para um olhar inclusivo sobre adaptação climática. Piracicaba: SP: LABOC, 2025. Disponível em: https://generoeclima.oc.eco.br/nova-publicacao-caminhos-para-um-olhar-inclusivo-sobre-adaptacao-climatica/

Categoria: Inesc
Compartilhe

Conteúdo relacionado

  • Foto: Divulgação Inesc
    Seminário debate desafios do orçamento púb...
    Bilhões de reais estão disponíveis para o financiamento…
    leia mais
  • Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
    Transição energética e interseccionalidade...
    A transição energética global, frequentemente apresentada como a…
    leia mais
  • Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
    As contradições da transição energética no...
    O Brasil vive um paradoxo energético. Detentor de…
    leia mais
  • Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
    A geopolítica da energia no século XXI: pe...
    A transição energética tem sido amplamente apresentada como…
    leia mais
  • Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
    Justiça Climática: o que é e por que raça,...
    A justiça climática articula direitos humanos e desenvolvimento,…
    leia mais

Cadastre-se e
fique por dentro
das novidades!