A transição energética global, frequentemente apresentada como a solução definitiva para a crise climática, carrega consigo camadas de complexidade que vão muito além da substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis. O modelo atual de transição corre o risco de se tornar uma “falsa solução” se ignorar as estruturas de poder que definem quem ganha e quem perde com as novas tecnologias verdes.
Um dos pontos centrais da discussão é como a transição energética tem sido pautada por uma visão reducionista da “natureza climatizada”. Nesse modelo, a complexidade dos ecossistemas é reduzida a métricas de carbono e unidades de energia.
Essa abordagem favorece uma transição liderada pelo “Norte Global”, onde a tecnologia e o capital estão concentrados, enquanto o “Sul Global” assume o papel de fornecedor de matérias-primas (como lítio e cobalto) e de território para grandes parques eólicos e solares. O resultado é uma transição que mantém a lógica de acumulação, transformando a crise ambiental em uma nova fronteira de mercado.
A análise interseccional revela uma divisão clara no modo como a transição é gerida. O campo da mitigação, que envolve a troca da matriz energética e grandes inovações tecnológicas, é um espaço majoritariamente masculino e branco. É onde se concentram os investimentos pesados e as decisões políticas de alto nível.
Por outro lado, o campo da adaptação, que lida com os efeitos diretos da mudança climática nos territórios e na infraestrutura urbana, é feminilizado e subfinanciado. As mulheres, especialmente as negras e indígenas, são as que mais sofrem com a precariedade energética e com a falta de infraestrutura, uma vez que são elas que desempenham a maior parte do trabalho de cuidado e manutenção da vida doméstica.
O impacto das renováveis nos territórios: o caso do Nordeste
A transição energética renovável não é isenta de impactos socioambientais. No Nordeste brasileiro, a chegada de grandes parques eólicos tem gerado conflitos que exemplificam a falta de justiça energética:
- Zonas de sacrifício: territórios são ocupados sem consulta prévia adequada às comunidades locais, alterando modos de vida tradicionais.
- Invisibilidade de impactos sociais: o aumento da violência em áreas de canteiros de obras e o fenômeno de filhos de funcionários dessas empresas com mulheres das comunidades que são abandonados por esses pais após o final das obras, os “filhos do vento”, são externalidades raramente contabilizadas nos relatórios de sustentabilidade das empresas.
- Desigualdade econômica: Mulheres que dependem da terra ou da pesca para subsistência muitas vezes não são reconhecidas como “atingidas” legalmente, o que as exclui de compensações e as empurra para uma maior vulnerabilidade social.
Para além do carbono: em busca de uma transição ecossocial
Não basta descarbonizar a economia se a estrutura social que produz desigualdades permanecer intacta. Uma transição energética justa deve ser, necessariamente, antirracista e feminista. Isso significa:
- Participação decisória: romper o “pacto da branquitude” nas instâncias onde se decide o futuro da energia.
- Reparação e território: garantir que a energia gerada nos territórios beneficie primeiramente quem neles habita, em vez de servir apenas para exportação ou grandes indústrias.
- Valorização de saberes: integrar conhecimentos tradicionais e tecnologias sociais que já promovem a resiliência climática fora da lógica puramente mercantil.
A transição energética, portanto, deve ser encarada como um ponto de mutação civilizatório. O desafio não é apenas mudar a fonte de energia que acende as luzes, mas transformar as relações de poder que decidem quem tem o direito de viver com dignidade e segurança em um planeta em transformação.
Saiba mais
Este texto foi baseado na aula da bióloga Lígia Galbiati, coordenadora de Energia e gênero do International Energy Initiative (IEI Brasil), para o curso de formação do projeto Justiça na Transição Energética. Para compreender e se aprofundar no tema, confira também os materiais:
GALBIATI, Lígia Amoroso (at.al) Equidade de gênero nos espaços de governança climática federal brasileira. In: Anais do X Encontro Nacional da Anppas. Anais…Campinas(SP) Unicamp, 2021.
GALBIATI, L. (2026). Mediações sociotécnicas da transição energética: impactos da chegada da energia solar em comunidade isolada da Amazônia brasileira Revista Brasileira De Estudos CTS, 1(2), 55–72.
GALBIATI, Lígia Amoroso (at.al) Rumo a transições energéticas justas: uma reflexão sobre etnia e gênero Aliança TEJI (Transição Energética Justa e Igualitária). Publicado em 29 de dezembro de 2025.
MATHEUS, Tatiane. Adaptação e transição energética: Plano Nordeste Potência desenvolve salvaguardas de gênero para empreendimentos de energia. Págs. 212-218.
in MATHEUS, T. E GALBIATI, L. (Org.) Caminhos para um olhar inclusivo sobre adaptação climática. Piracicaba: SP: LABOC, 2025. Disponível em: https://generoeclima.oc.eco.br/nova-publicacao-caminhos-para-um-olhar-inclusivo-sobre-adaptacao-climatica/

